A morte escancarada e o papel das religiões

A morte escancarada e o papel das religiões
Rodrigo Oliveira Dos Santos 6 de janeiro de 2020
Flickr Nathalie_Church Life

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A morte interdita

“A morte faz parte do desenvolvimento humano”, afirma a Psicóloga Maria J. Kovács, professora do Instituto de Psicologia na Universidade de São Paulo. Mesmo diante dessa constatação, os seres humanos encaram isso com muita dificuldade, agindo de diversas formas diante desse fato inevitável, inadiável e que acometerá a todos mais cedo ou mais tarde.

O medo da morte, do desconhecido, do processo de se estar morrendo, entre outros, que inclui a perda pela morte de um ente querido,  é algo que nesse último século se tornou um tabu, ou seja, não se fala e não se mostra quase nada referente a ela, pois a morte se tornou um assunto proibido, interdito na sociedade atual.

A morte interdita, nesse sentido, compreende ao tratamento dado a esse fenômeno na sociedade, adotado a partir da segunda metade do século XX, marcado pela negação da morte, como se esta fosse ausente ou distante na existência humana.

A morte escancarada

Outro aspecto dado à morte atualmente, consiste no seu caráter evasivo, sutil e incontrolável, decorrente da violência generalizada, assumida nas suas mais diversas formas e manifestações e que vem assolando a sociedade brasileira, sendo assim chamada de morte escancarada.

A “morte escancarada é o nome que atribuo à morte que invade, ocupa espaço, penetra na vida das pessoas a qualquer hora. Pela sua característica de penetração dificulta a proteção e controle de suas consequências: as pessoas ficam expostas e sem defesas. Ela não é aberta à comunicação como a morte rehumanizada, na qual se vê um processo gradual e voluntário regido pelo sujeito. Ou seja, a morte escancarada é brusca, repentina, invasiva e involuntária”, dizia Kovács.

Diferentemente da morte interdita, a morte escancarada invade o cotidiano e a vida das pessoas de forma inesperada, deixando-as sem ação e condições, em muitas ocasiões, de elaborá-la. Não escolhe lugar, pessoa, idade, condição socioeconômica, origem ou crença religiosa.

Essa forma de a morte chegar é também caracterizada pela exposição e repetição excessiva, no caso das diferentes mídias televisivas e digitais, como redes sociais e aplicativos de comunicação, não havendo limites para isso, ao mesmo tempo em que todos a assistem podem ser encurralados por ela.

A morte escancarada se manifesta nas ruas, nas escolas, nos templos religiosos, nos edifícios e nos lugares mais inusitados que se possa imaginar, causando muita dor e sofrimento.

O retrato da violência

Nesse novo milênio, a morte escancarada vem ganhando novos contornos, utilizando como sua grande aliada, a tecnologia, com destaque para os crimes virtuais. A internet, nessas duas últimas décadas, mudou profundamente tudo em muito pouco tempo, promovendo inúmeros benefícios, assim como o contrário.

Chacinas, atentados, abusos, suicídios, assassinatos, sequestros, roubos, torturas, e tantos outros tipos de crimes violentos têm desafiado o controle de poder do Estado na contenção dessa dimensão que a morte escancarada vem tomando na sociedade.

Basta uma ligação, mensagem, torpedo ou curtida para que pessoas sejam severamente atingidas por ela, sem sequer terem tempo ou oportunidade para continuarem vivendo. Ninguém está isento dos efeitos da morte escancarada.

Pela internet se tem acesso a imagens, vídeos, documentários, filmes, jogos, planos, projetos e outros recursos disponíveis para devastar vidas, destruir famílias, condenar pessoas, sem nenhuma distinção, sendo as vítimas, em sua maioria, adolescentes e jovens. É a morte invertida.

De acordo com Altas da Violência 2019, do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (IPEA) e do Fórum Brasileiro de Segurança Pública, o número de homicídios no Brasil passou de 45 mil em 2007 para 65 mil em 2017, representando um crescimento de 31,6%, aproximadamente.

O que nos chama a atenção no documento é que a maioria das mortes ocasionadas por homicídios atinge jovens homens entre 15-19 anos, representando uma taxa de 59,1%. Esse aspecto destrutivo de vidas e famílias inteiras vem se estendendo no país e alcança justamente aqueles que estão na flor da idade, cheios de vida e sonhos, onde a morte não deveria ser tão natural como entre aqueles que já viveram longas primaveras, por isso a morte invertida.

A ameaça ameaçadora

A morte escancarada chega às escolas de diversas formas, já que essa instituição é parte integrante de algo maior, a sociedade e suas inúmeras instituições, ela não poderia ficar de fora daquilo que a assola, a violência.

A educação e as escolas têm ficado de fora de reflexões maiores acerca da morte e de suas consequências, especialmente da morte escancarada, o que torna isso ainda mais difícil para aqueles que nela estão, não somente, mas famílias inteiras vêm sofrendo com os resultados da banalização da morte, expressa em chacinas e homicídios, entre outros.

Esse aumento da violência pode estar associado a vários fatores, que vão desde a ausência efetiva do Estado no fomento de políticas públicas e sociais, fortalecendo setores fundamentais para o desenvolvimento humano, como a educação, saúde, saneamento básico, trabalho, entre outros, já que em 2017 “a falta de oportunidades levava 23% dos jovens no país a não estarem estudando nem trabalhando” (Atlas da Violência 2019).

Na mesma direção segue muitas estruturas familiares, também marcadas por ausências, implicando em falta de referenciais e vínculos afetivos significativos, acentuando ainda mais as situações de vulnerabilidades entre crianças e jovens.

Essas conjugações de fatores contribuem para acentuar a violência, fazendo com que a morte escancarada possa retornar ao lugar de onde ela sequer deveria encontrar apoio, a escola. Casos como o de Realengo (Rio de Janeiro), em 2011, com 12 mortos (inclusive o atirador) mais 13 feridos; São Caetano do Sul (São Paulo), em 2011, com 02 mortes (inclusive o atirador, uma criança de 10 anos); de Goiânia (Goiás), em 2017, com 02 mortos e 04 feridos; de Suzano (São Paulo), em 2019, com 10 mortos, entre outros casos e tentativas de homicídios, motivados, em vários casos, por sofrerem bullying.

São alunos e ex-alunos que sofreram e ainda sofrem situações que atingem diretamente sua autoestima, prejudicando seu desenvolvimento biopsicossocial, que, diante de oportunidades, são levados a repararem de forma criminosa todo o sofrimento que acumularam ou a exporem as consequências do seu adoecimento diante do consumo massivo de imagens e situações violentas de mortes, que reforçam a sua banalização.

A educação e a escola não podem ficar mais indiferentes a essa situação que a cada momento as atingem. A abordagem da morte não deve ficar mais interdita nos espaços escolares, pois todos os dias alunos, professores, pedagogos, gestores, merendeiras, entre outros, incluindo as famílias, sofrem os impactos da morte escancarada.

O papel das religiões

A escola, nesse aspecto, não está totalmente descoberta dessa preocupação com relação à morte. Apesar da necessidade de uma abordagem mais ampla, efetiva e interdisciplinar sobre a temática, o Ensino Religioso (ER), com referência na Base Comum Curricular (BNCC), desenvolve alguns assuntos importantes. Esse documento normativo norteia os currículos escolares em todo país, organizado em unidades temáticas (temas de estudo sobre religiões), objetos de conhecimentos (conteúdos) e habilidades (aprendizagens).

A partir dessa organização, o referido documento sugere o estudo de ritos fúnebres e práticas lutuosas; narrativas sobre a morte em várias culturas religiosas; concepções de vida após morte nas diferentes tradições religiosas, com base em seus ensinamentos transmitidos em livros escritos ou pela oralidade; concepções de vida e morte de orientação científica e filosófica.

Kovács destaca a importância dos “rituais” na elaboração de perdas de forma construtiva, pois esse momento ajuda as crianças a se despedirem e expressarem seus sentimentos diante da perda de um membro da família. Nesse sentido, para a professora “As religiões têm um papel muito importante para a humanidade, principalmente quando o sofrimento e a dor se fazem presentes, oferecendo acolhida e reflexão nestes momentos, orientando para uma vida responsável, garantindo uma vida plena de felicidades. De uma forma ou de outra, todas estão relacionadas com o sentido da vida, liberdade, justiça e direcionamento da consciência”.

A esse aspecto, cultivado nos sistemas de referências religiosos, não sobrepõem outros, como os de base científica e filosófica, pois cada um deles apresenta uma forma própria e uma maneira específica de se desenvolver, mas eles ocupam lugares diferentes na vida de pessoas também diferentes.

Algo que o ER contribui para que nesse universo de crenças e outras orientações,  é que a morte não é uma estranha nem algo que prescinde da vida, mas está integrada a ela, convivendo numa dualidade que a impulsiona, a motiva e a faz valer a pena, pois a outra face da vida é algo que não temos mais como negar.

 

Referências

BRASIL. Atlas da violência 2019. Brasília: Rio de Janeiro: São Paulo: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada; Fórum Brasileiro de Segurança Pública, 2019.

KOVÁCS, M. J. Educação para a morte: temas e reflexões. São Paulo: Casa do Psicólogo: FAPESP, 2003.

________. Educação para a morte: desafio na formação de profissionais de saúde e educação. São Paulo: Casa do Psicólogo, 2003.

________. A morte no contexto escolar: desafio na formação de educadores. In: FRANCO, M. H. P. (org.). Formação e rompimento de vínculos: o dilema das perdas na atualidade. São Paulo, Summus, 2010, p. 145-168.

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