A interpretação das religiões sobre o suicídio: algumas considerações

A interpretação das religiões sobre o suicídio: algumas considerações
Milena Maria De Sousa Silva e Rosiane Barbosa Ferreira 6 de janeiro de 2020

© George Oliveira

No que diz respeito à questão sobre saúde pública, atualmente, estamos diante de uma situação bastante delicada no que se refere ao crescimento do número de suicídios em todo mundo. De acordo com dados expostos pela Organização Mundial da Saúde (OMS), em média são registrados quase 800 casos de suicídio pelo mundo por ano. Diante dessa constatação alarmante que faz parte da realidade de muitas famílias, uma das alternativas comuns em encontrar um conforto para o tema morte está relacionada à busca de sentido ou mesmo explicação dentro da religião para o evento.

Nesse sentido, iniciaremos uma reflexão sobre como as diferentes religiões concebem a ideia de morte mais direcionada ao suicídio tendo como base os principais textos sagrados referentes a cada religião abordada e como as mesmas elaboram lógicas que tratam do tema, pois uma característica que diz respeito aos segmentos religiosos é a capacidade de estabelecer interpretações das mais variadas; que pode incluir a noção de castigo, libertação ou mesmo oportunidade; sobre a ideia de morte.

Hinduísmo

Para esta religião, a vida é considerada como sagrada, sendo a alma tida como imortal. Uma característica que se faz presente é a crença na reencarnação da alma após a morte física. Acerca dessa consciência na imortalidade da alma é retratado no trecho do Bhagavad-Gîtâ (poema épico que contém princípios do hinduísmo), no canto 2 que diz:  “O Eu nunca nasceu nem jamais morrerá. E uma vez que existe, nunca deixará de existir. Sem nascimento, sem morte, imutável, eterno – sempre ele mesmo é o Eu, a alma. Não é destruído com a destruição do corpo”.

Em relação à ideia de morte e de transmutação da alma para outro corpo envolve uma série de questões, entre elas, o que influencia é a maneira como a pessoa agiu em vida está diretamente associada a uma expectativa de como ela reencarnará na próxima vida, esse é o que se chama de Karma, ou seja, as ações de vidas passadas refletem no modo como virá nas vidas futuras.

A prática do suicídio estaria a interromper esse ‘caminho’ no ciclo kármico, portanto sendo considerada uma morte na ignorância, e isso reflete na próxima reencarnação. Assim, de acordo com o Bhagavad-Gîtâ quando se morre em uma situação tida como modo de ignorância, podendo considerar entre elas o suicídio, a alma nasce em corpo irracional como de um animal para experimentar certas privações que paulatinamente vá contornando essa ação ignorante do ser. (BG XIV. 15).

Apesar de no hinduísmo ficar evidente o caráter negativo dado ao tema suicídio, em outros momentos é possível perceber uma permissão à prática que estaria associada à ‘nobreza da causa’ como é o caso do Sati, considerado uma autoimolação ligada ao rito referente aos laços matrimoniais hindu, que consistia na recém viúva se lançar na pira funerária do marido falecido. Acreditava-se que dessa forma se garantia a permanência da união do casal nas próximas reencarnações por meio do sacrifício da viúva. O Sati foi abolido na Índia.

Budismo

Um dos conceitos fundamentais no budismo, incluído nos preceitos éticos básicos da religião, o pañcasīla, está o que menciona a importância da vida, no primeiro preceito é ressaltado o compromisso de estabelecer como regra de treinamento a abstenção de matar. Nesse sentido, é muito enfático entre os princípios budistas aquele que remete à questão da prática da não violência e, consequentemente, da promoção pela vida.

Quando atentamos a esses fatores dentro do budismo é possível perceber que essa questão de não matar também é válida para a morte voluntária, ou seja, em sua base doutrinal o budismo é contrário ao suicídio, tendo a crença que o suicida possa renascer em condições mais difíceis.

Islamismo

Quando falamos sobre a ideia de morte no islamismo existe uma dualidade de entendimento, a primeira diz respeito a sua interpretação religiosa a partir dos textos sagrados sobre a ideia de suicídio, enquanto, por outro lado, é comum a sociedade ocidental associar à religião islâmica como incentivadora da prática do suicídio através dos exemplos de grupo extremistas religiosos que promovem atentados suicidas, os chamados homens bombas.

Quanto à teologia islâmica, a morte é tratada no Alcorão como vontade divina. Neste sentido, somente Aláh tem o poder de tirar a vida de alguém e, portanto, a noção de suicídio é considerada como algo negativo pelo islamismo. Porém é possível identificar algumas situações ou interpretações pelos diferentes grupos que podem ser consideradas moralmente justificáveis a prática do suicídio. (DIAS, 1991, p. 56).

No Alcorão é possível identificar trechos que fazem referência a uma visão negativa da prática do suicídio, no entanto, os versículos ao quais se refere, são passíveis de interpretações em que muitos alegam que não se trata de uma condenação explícita e sim algo que é passível de uma contextualização que motivou a prática do ato. Na quarta surata do Alcorão nos versículos 29 e 30 diz:

29 Ó fiéis, não consumais reciprocamente os vossos bens por vaidades, realizai comércio de mútuo consentimento e não cometais suicídio, porque Deus é Misericordioso para convosco.

30 Àquele que tal fizer, perversa e iniquamente, introduzi-lo-emos no fogo infernal, porque isso é fácil a Deus.

Cristianismo

Para o cristianismo, todos os exemplos e ensinamento estão contidos na Bíblia, que alinham o bem viver do ser humano com o sofrimento pelo que Cristo foi acometido.

Algumas ações de seguidores demonstram exemplos de submissão à vontade divina, como em um dos mandamentos dados por Deus que enfatiza ordem: “Não matarás”. Isso significa, que não devemos pôr fim a nenhuma vida: seja dos outros ou a nossa própria já que Deus é o criador da vida ninguém tem direito de tirar a vida de ninguém e, por isso somente  ele, tem a autoridade para decidir quando uma vida deve se encerrar.

Referências

BOWKER, John. Os sentidos da morte. São Paulo: Editora Paulus, 1995.
DIAS, Maria Luiza. Suicídio: testemunhos de adeus. São Paulo: Editora Brasiliense, 1991.
HARLAM, Lindisay. Sati, the blessing and the curse: the burning of wives in India. John Stratton Howley. New York: Oxford University Press, 1991.
HARVEY, Peter (2007). Uma introdução ao budismo: ensinamentos, história e práticas. Cambridge: Cambridge University Press.
PRABHUPADA, A.C. Além do nascimento e da morte. São Paulo: The Bhaktivedanta Book Trust, 1986.
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