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Evangelizando-se a Amazônia

Evangelizando-se a Amazônia
26 de novembro de 2019 Diego Saimon de Souza Abrantes Abrantes

Foto: Facebook Ana Paula Valadão

A Amazônia possui em seu cerne uma diversidade religiosa. Com maioria sendo as religiões evangélicas, em constante crescimento, conforme comparativo dos censos de 2000 e 2010, tem o catolicismo como a segunda mais vivenciada, segundo o IBGE (2000; 2010), conforme análise de Mafra (2013)¹. Outras religiões, como espiritismo, umbanda e candomblé também se mostram presentes e em constante crescimento de adeptos. Uma espécie de mercado religioso se forma aí, segundo Carmo, Manduca e Reis (2018)². Pensando assim, o que talvez explique a posição marcante de religiões evangélicas na Amazônia? Nota-se que essa predominância não se estende às regiões do centro ao sul do Brasil, então o que há de singular aqui? O que vem mudando (ou já mudou) o perfil religioso do caboclo da Amazônia?

De certo modo, era de se esperar, dado o desenvolvimento histórico da Amazônia, que a população não fosse de maioria evangélica, mas de maioria católica. Isso era esperado, devido as missões da igreja católica, na época da colonização de exploração do país, levarem o catolicismo para dentro da floresta, convertendo os povos indígenas. Esperava-se também grande número de praticantes de religiões trazidas pelos negros africanos na era da escravidão3. Entretanto, essa não é a realidade atual da região. As religiões, historicamente classificadas como protestantes, são as mais fortes.

Freud (2018)4 disse, certa vez, que todos nós somos seres do desamparo, afinal todos nascemos para nos separar dos corpos de nossa mãe, cresceremos em uma sociedade em que não faremos e nem conseguiremos tudo que desejamos, e por isso, temos que aprender a encontrar caminhos onde nossa trajetória de vida nos dê prazer. Um desses caminhos é a fé religiosa, ou seja, não importa a religião, estamos, todos, desejando ser felizes, cada um com sua própria identidade religiosa.

Em uma perspectiva psicológica, entendemos que o sentimento de desamparo, inerente a todos seres humanos, isto é, algo comum, não importando região, credo, lugar no mundo onde você se encontra, pode ser mais ou menos profundo, qualitativamente dependente da cultura existente e vivida por você. Dados a respeito de um certo “atraso” econômico, científico e social da região norte do Brasil são constantes em pesquisas de nível nacional5/6/7. Considerando isso, é compreensível a ideia de que, aqui na Amazônia, há mais razões que tornam o sentimento de desamparo mais profundo do que em outras regiões do país. Aqui não se tem tantas opções de lazer como no Sudeste, não se tem tanta produção científica como no Sul, não se tem a força turística (estabelecida e economicamente ativa) do Nordeste… tudo isso é um exemplo. Destaca-se que não é para se pensar que a Amazônia não tem esse potencial, pois tem, entretanto, esse potencial não é (quase) atingido em todas suas possibilidades. Se falta tanta coisa para a Amazônia, então não faltam razões para que o caboclo se sinta mais desamparado do que o que já é natural da humanidade.

Esse sentimento, tão justificadamente mais forte nos estados da Amazônia, encontra refúgio em crenças religiosas. Ora, é em Belém do Pará que ocorre o maior movimento religioso do país, o círio de Nazaré. Entenda que a condição de déficits de desenvolvimento social, educacional, científico, político e econômico para essa área do mapa brasileiro alimenta muito mais a suscetibilidade à credos religiosos, visto que o desamparo é maior.

A religião denominada de evangélica, maioria na Amazônia, costumeiramente é entendida como um movimento religioso mais dogmático que os outros, enaltecendo e cobrando posturas que vão desde a vestimenta até a sagrada participação frequente das atividades das igrejas. Algumas são apontadas como instituições duras em suas regras8/9. Reflitamos, conforme dito no parágrafo anterior, que em um estado de desamparo mais profundo que o que seria “normal”, o povo caboclo precisa ainda mais ser amparado por algo, alguém, alguma coisa, entrando aqui a religião. Se isso é tão mais forte na Amazônia, então existe uma tendência psíquica às pessoas buscarem e aceitarem regras mais rígidas de convivência, os dogmas, autocobrando-se quanto à acepção e seguimento deles. Um sentimento de desamparo tão grande exige um amparo tão grande quanto e, possivelmente, a população encontra isso em religiões com regras de conduta mais rígidas, em que há uma divisão do certo e errado de maneira dogmática.

Assim, é plausível afirmar que o estado de desamparo em suas diferentes formas presentes nas cidades que compõe a Amazônia brasileira é (também) responsável pelo fortalecimento contínuo das práticas religiosas evangélicas, pois ali a população encontra, em sua carência, amparo dogmático, seja pelo convívio com os grupos religiosos que se organizam, seja pela presença do líder religioso que lhe diz o que é certo ou não fazer, pelos trabalhos sociais que participa e alimentam o sentimento de pertença, de valorização ou pela sensação de menor culpa (em todo esse desamparo) ao estar seguindo a palavra de Deus com constância, livre de pecados, pois pecados causam dor, pecados desamparam.

Referências 

1MAFRA, Clara. Números e narrativas. Debates do NER, Porto Alegre, n. 24, 2013.
2CARMO, Arielson Teixeira; MANDUCA, Vinícius; REIS, Marcos Vinícius de Freitas. O campo religioso amapaense: uma análise a partir do censo do IBGE 2010. In: BASTONE, Paula; REIS, Marcos Vinícius de Freitas (ORGs). Religião e religiosidade na Amazônia e na contemporaneidade. Macapá: UNIFAP, 2018.
3CEREZO, Miguel Castro. UNO pré-vestibular semiextensivo. São Paulo: Moderna, 2007.
4FREUD, Sigmund. O mal-estar na civilização e outros textos. São Paulo: Cia das letras, 2018.
5MINISTÉRIO DO MEIO AMBIENTE. População e desenvolvimento sustentável na Amazônia. Brasília: UNFPA, 2014.
6VIANA, R.L.; FREITAS, C.M.; GIATTI, L.L. Saúde ambiental e desenvolvimento na Amazônia legal: indicadores socioeconômicos, ambientais e sanitários, desafios e perspectivas. Saude soc., n. 25 (1), Jan-Mar, 2016.
7CARDOSO, F.H.; MÜLLER, G. II – O desenvolvimento econômico recente na Amazônia e seus aspectos demográficos. Rio de Janeiro: Centro Edelstein de Pesquisas Sociais, 2008. p. 29-39.
8BOHN, S.R. Evangélicos no Brasil. Perfil socioeconômico, afinidades ideológicas e determinantes do comportamento eleitoral. Opin. Publica, vol.10, n.2, Campinas, Out., 2004
9PAIVA, A.R. Católico, protestante, cidadão: uma comparação entre Brasil e Estados Unidos. Rio de Janeiro: Centro eldestein de pesquisas sociais, 2010.

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