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As religiões midiáticas na Amazônia: #curta e #compartilhe

As religiões midiáticas na Amazônia: #curta e #compartilhe
Paulo Giraldi 26 de novembro de 2019

Círio de Nazaré (Foto: Wilson Dias)

É possível pensar o uso das tecnologias como meios de encontros das religiões na Amazônia? Sim, são muitas as possibilidades. A origem do técnio está na vida humana. A tecnologia (técnio + logia) tem sua própria autopoiese – desenvolvimento natural, não sendo apenas máquinas – pixels e bits. Hoje, a diversidade e pluralidade de ideias movimentam o mundo. O potencial tecnológico expandiu as formas de encontro, conversas, diálogo e, também, iluminou as manifestações de fé.

Na internet – redes sociais digitais, como o Facebook ou Instagram, as religiões se encontram em um mesmo espaço cibernético. A arena midiática -, como sites, plataformas digitais e aplicativos, colocou em contato pessoas de diferentes credos, raças e etnias. O técnio nasceu para isso: abrir horizontes e romper com barreiras ideológicas, para fomentar encontros de fé. Para David Kelly (2011, p. 336), o técnio está voltado para o sagrado, pois “[…] uma única linha de autogeração une o cosmos, o bios e technos em uma única criação”. Ou seja, as religiões se encontram pelas redes midiáticas. #Compartilhe o bem.

Na região Norte do Brasil, especificamente em Belém do Pará e no Amapá, a devoção à Nossa Senhora de Nazaré é algo inexplicável. Quando se aproxima as festividades do Círio, são visíveis as movimentações midiáticas nas redes sociais. Nas postagens do Facebook, quando aparece a imagem ou algo relacionado ao Círio, as pessoas comentam, curtem e compartilham. A fé e devoção à Maria de Nazaré ultrapassa os limites do catolicismo. Ninguém precisa dizer se é católico, umbandista, candomblecistas, espírita, maçônico, ateu ou agnóstico. A tecnologia pode ser usada para ajudar no encontro dos povos e diálogo das religiões. Com um clique é possível compartilhar boas iniciativas, sem preconceitos. O fim de qualquer técnio é ‘servir a vida’, unido ao compromisso das religiões de cuidar da vida.

Na Amazônia Amapaense, o mês de outubro ganha uma identidade de partilha, comunhão e unidade. Observe durante a procissão do Círio quantas pessoas de diferentes expressões de fé se encontram, se abraçam, se ajudam. No ano passado, ao acessar as redes sociais me deparei com muitas imagens compartilhadas do Círio de Nazaré. Porém, uma chamou minha atenção: ‘um grupo de membros de igrejas evangélicas da cidade foram às ruas para distribuir água aos romeiros e prestar ajuda durante a procissão’. O bem repercute!

A fé demonstrada na era da convergência midiática rompe com paradigmas e barreiras ideológicas. O técnio expande os traços fundamentais da vida e, no processo, expande a bondade fundamental da vida. A comunhão com o sagrado ganha novas identidades. Na Amazônia Amapaense, o Círio virtual já chegou aos espaços tecnológicos e reúne uma nova geração dos ciberfiéis, que apoiam o #Curtir, #Compartilhar e #Respeitar. O lugar de culto já não é somente os templos, igrejas, terreiros ou lojas. O espaço virtual congrega pessoas de diferentes credos, na tentativa de fomentar uma nova cultura; a cultura do encontro. Do latim, cultura é colere – raiz, sendo preciso cultivar para dar bons frutos, como reflete o autor Terry Eagleton (2011).

O técnio pode favorecer o movimento inter-religioso na era midiática. Com certeza, você deve participar de um grupo de WhatsApp com pessoas de diferentes religiões. Para entrar em grupos como esse não é preciso dizer qual sua religião. As tecnologias potencializam diálogos ou discussões/ataques. A opção é sempre nossa. Você já deve ter ouvido: ‘religião não se discute’. Pois bem, imagine a internet – as redes sociais as quais você acessa, como uma grande mesa de refeição. Cada um oferece algo – um prato, o que tem. Assim, temos a oportunidade de degustar de diferentes sabores e experiências. O que é comum pode gerar unidade, o diferente contribui para o exercício da acolhida, solidariedade e, principalmente, o respeito. Diga não ao preconceito de fé.

Como observa Henry Jenkins (2009), vivemos na era da ‘Cultura da Convergência’, não sendo apenas uma cultura dos meios e processos tecnológicas. A convergência acontece na mente, e depois nas técnicas. Ou seja, as religiões midiáticas não estão limitadas a seus espaços de oração, devoção e práticas. As redes sociais são areópagos modernos para pensar as diferentes faces do sagrado e dos deuses midiáticos na Amazônia. Nossas florestas, rios e diversidades da fauna e flora precisam de proteção. Em seus grupos de WhatsApp e páginas nas redes sociais compartilhe iniciativas de preservação ambiental. As religiões podem nos ajudar nessa corrente do bem em defesa do Planeta Terra. Afinal, todos precisamos de ar para sobreviver. Hoje, a convocação midiática é: ‘Ubuntu’, expressão falada pelos povos da África Subsaariana, e reflete uma sociedade que pode e deve ser sustentada pelos pilares do respeito, da solidariedade e da diversidade. Ubuntu para você!

Ao refletirmos sobre religiões na Amazônia é preciso reforçar que o binômio Comunicação Midiática e Religião abre novas possibilidades para pensar a midiatização da(s) fé(s) – no plural. O diálogo ecumênico e inter-religioso não pode ser suprimido diante da diversidade de opções para o intercâmbio de ideias, conhecimentos, informações e pensamentos. O templo das religiões (local sagrado do culto), é dimensionado e extensionado por telas, imagens HD, sons THX, bites e pixels. O fiel agora é o ciberfiel, agregando a sua prática espiritual e de religiosidade elementos inerentes a ambiência digital do século XXI. Mas, será que os deuses aprovam essa imersão e hibridização entre tradição religiosa e a inovação tecnológica na religião? Talvez, não seja o caso de uma aprovação ou não, mas o entendimento da utilização das novas tecnologias e mídias para o bem comum – missão, essa, de qualquer religião séria, comprometida com a vida. #Curta e #compartilhe a paz. A ‘religião da vida’ deve prevalecer, religando pessoas e experiências. Aposto que os deuses e entidades criaram, juntos, as tecnologias – um caminho para os encontros.

A tecnologia reflete as religiões, proporcionando encontros. O verdadeiro Namastê virtual – o deus que está em mim, ‘cumprimenta, curte e compartilha’ o deus que está em você’. Assim como na Amazônia, o Círio de Nazaré possibilita encontros virtuais e sociais, que pelo mundo, as diferentes religiões promovam a cultura do encontro por meio das tecnologias, em favor das diferentes formas de vida – nosso maior tesouro. #Curta e compartilhe a fé, o amor e o respeito.

Referências
EAGLETON, Terry. A ideia de cultura. Tradução: Sandra Castello Branco; revisão técnica Cezar Mortari. – 2 ed. – São Paulo: Editora Unesp, 2011.
JENKINS, Henry. Cultura da convergência. 2. ed. São Paulo: Aleph, 2009.
KELLY, Kevin. Para onde nos leva a tecnologia. Tradução: Francisco Araújo Costa. Porto Alegre: Bookman, 2012.

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