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Candomblé, práticas educativas e as relações de gênero: espaço social onde filhas e filhos de santo aprendem e ensinam por meio da oralidade

Candomblé, práticas educativas e as relações de gênero: espaço social onde filhas e filhos de santo aprendem e ensinam por meio da oralidade
25 de setembro de 2019 Vania Galliciano

Ao pesquisar as Relações de Gênero, apresenta-se: a coragem de Pais e Mães de Santo quanto à implantação dessa cultura numa região de brancos, católicos, e de outras religiões cristãs; a ousadia dos representantes masculinos dessa religião em defender, além da causa religiosa, a multiplicidade de gênero, com suas saias, tamancos, unhas pintadas, maquiagem e ousados adereços de cabeça; os diferentes papéis para homens e mulheres; as dissociações do Òrìsà de cabeça, quando este se apresenta feminino em cabeça masculina ou vice-versa, para garantir que não se “desvirtue”; as diferenças nos afazeres e as circunstâncias em que mulheres ou homens não podem tocar e/ou se aproximar de objetos sagrados.

Foto: Pit Thomspon

RELAÇÕES DE GÊNERO NO CANDOMBLÉ

No Brasil, os Òrìsàs mais popularmente conhecidos são: Èsú, Ògún, Òsóòsí, Omolú/Obalúwáiyé, Òsányin, Òsùmàrè, Nàná, Èwá, Iroko, Òbá, Òsun, Lógun Ède, Oya/Yánsàn, Sangó, Yemojá, Òsàlá – Òsàguíàn/Òsàlúfàn.

As histórias, contam algumas passagens da vida dos Òrìsàs e trazem relatos de relações as quais acontecem: conquistas marcadas por enganações, farsas, violência sexual e até mesmo física.

A astúcia de Ògún para vencer Òbá na luta é possuí-la.  A maneira encontrada por Xango para possuir Òbá, bem como a frenética e inconsequente tentativa de Òbá para conquistar o coração deste que a possuiu à força, mas por quem ela se apaixonou perdidamente, não obstante a malvadeza de Òsun, que a engana levando-a a automutilação.

Em se tratando de Gênero, importantíssimo ressaltar Òsun que é muito apreciada pelas mulheres e homens por ser representada como modelo de sedução e beleza.

Temos ainda Òsóòsí, que de acordo com Prandi (2000), é raptado por Òsányin para viver com ele na floresta. Algumas lendas narram que Òsányin o possuía, mantinha relações sexuais com ele durante o tempo que viveram juntos na mata. Òsóòsí permanecia sob efeito de ervas, preparadas pelo grande conhecedor dos segredos das folhas.

As histórias de sedução, traição, dentre outras, seguem envoltas em escândalos para a contemporaneidade que vão das relações homoafetivas à violência física. As lições sugeridas nessas histórias representam processos educativos aos Filhos de Santo, pois, de acordo com Prandi (2000), elas servem para explicar a criação e a composição dos atributos dos Òrìsàs. Quem são, de onde vieram, quais relações estabeleceram, a personalidade e as razões pelas quais seus gestos, danças e energias estão presentes naqueles que os têm – seja qual for como?

AS FUNÇÕES E OS PAPÉIS PARA MULHERES E HOMENS

Nas Religiões de Matriz Africana não deve haver dominação do masculino e/ou feminino, há um equilíbrio no exercício das tarefas prescritas para cada um. “Embora o Candomblé reproduza situações machistas, estas são atenuadas pela existência de cargos em que as mulheres são insubstituíveis” (LODY, 1987, p. 23).

Há modelos como o do Culto dos Egúngún em que só é permitida a participação dos homens. As mulheres são temidas pelos Ègúns (mortos) por trazerem consigo o dom da vida, nesse caso o poder, o conhecimento e qualquer forma de decisão são de domínio exclusivo masculino, os chamados Òjé.

Cozinha e comida de Santo – Ajimú –  é atividade de mulheres, função  importantíssima, já que não existe Candomblé se não tiver os pratos para as oferendas; o toque dos instrumentos como o atabaque é tarefa de homens e de extrema importância, pois são os toques que chamam para a dança cada Òrìsà; o canto pode ser exercido tanto por homens quanto por mulheres, no caso da mulher exercer,  recebe o cargo de Ìyátebesé; a construção dos instrumentos é uma atividade masculina, o que acumula ainda o conhecimento de alimentar, vestir, dar nome e sacralizar cada um dos instrumentos que serão usados nos rituais específicos; já para dirigente máximo – Ìyálórìsà ou Bàbálorìsà pode ser exercida por qualquer sexo; as adivinhações, ou seja, o jogo de búzios, uma vez atribuída apenas aos homens, hoje é exercida por Mães de Santo com muita competência. No Culto de Ifá, o Opelê só pode ser jogado por homens, ou seja, Bàbálwó. Vários outros cargos são específicos para homens ou mulheres.

Nas Casas de Àse contemporâneas é comum observar, tanto homens quanto mulheres, realizando as mais diversificadas tarefas, porém, o que se percebe na maior parte do tempo é que os papéis são ainda bem definidos. Apresentam mulheres e homens com vestes, adornos e competências bastante distintas, até mesmo no barracão, durante as festas: homens ficam de um lado e mulheres ficam do outro.

Existe um sistema hierárquico no Candomblé, que é de suma importância para que haja harmonia. Em sua Dissertação de Mestrado, Ìyágunã (2013) traz um importante debate a respeito do assunto. Num trecho de sua redação, ela diz:

A hierarquia no Candomblé não é um papel a se desempenhar e sim uma sincronia entre o cosmo, os Deuses ancestrais e os humanos. Não é tarefa fácil porque é pelos Deuses e ancestrais. (…) é necessário harmonizar tudo, comunidade, sociedade, natureza, belo e feio, triste e alegre, amor e afeto e desarmonia e o papel da Ìyálórìsà é o de mãe que age para equilibrar, apaziguar, sem jamais descuidar-se do cargo que carrega perante o Supremo da tradição (ÌYÁGUNÃ, 2013, p. 64).

Vale pensar, ainda, que a divisão de funções e de trabalhos está pautada no sexo biológico de cada indivíduo, ou seja, uma organização sexual. Uma relevância talvez, que possa alentar é o fato de a mulher conceber, gestar e parir.

Importante ressaltar que as práticas e Ensinamentos levam, ao mesmo tempo, à divisão das pessoas iniciadas por sexo biológico e, também, a conviver com energias que não são exatamente relacionadas a este mesmo sexo biológico. Respaldando, no que se refere às Práticas Educativas, foram observadas questões relacionadas com: a Expressão Artística Educacional (Canto, Ritmo, Dança, Percussão, Cores, Indumentárias); a Culinária (Pratos característicos, específicos para cada Divindade); a História (sobre os modos de vida do povo africano em sua terra de origem, sobre a fé e resistência, sobre a adaptação do povo africano em terra estrangeira, sobre a religiosidade contemporânea na América, sobre os antepassados); a Mitologia (em que contos e metáforas levam ao conhecimento e percepção da força contida em cada elemento da natureza – Òrìsàs [1]); a Língua Estrangeira (aprende-se e comunica-se em Yorubá). Tudo isso contido no contexto dessas manifestações.

O CORPO FEMININO E O MASCULINO: FILHAS E FILHOS DE SANTO E ÒRÌSÀS – ARQUÉTIPOS – GÊNERO VERSUS PRECONCEITO

O corpo das Filhas e Filhos de Santo é um invólucro no qual toda e qualquer manifestação do Òrìsà deve ser permitida.  Embora seja possível identificar o Òrìsà pelo arquétipo, é necessário consultar o oráculo, pois é ele quem dá a “palavra” final sobre qual divindade, de fato, é ela a dona da cabeça de quem se propõe seguir o caminho do sacerdócio.

Quando se trata de preconceito, a discussão de gênero se volta à sexualidade. Logo, fica fácil associar que no Candomblé há muitos homens gays porque é um espaço em que o matriarcado impera e, assim sendo, os deuses e deusas verão estes, no plano superior, como mulheres e não como homens. Birman (1991, p. 48) aponta: “(…) a homossexualidade era decorrência direta ou indireta das exigências diferenciadas que o Candomblé estabelece para homens e mulheres”.

Seria uma exigência, referência à normatização de comportamentos? Questões relacionadas às crenças estão para serem respeitadas. Defende-se a individualidade e as escolhas de quem procura esse universo, como fator de subjetivação e não de estudo. Contudo, evidencia-se a carga de preconceito, de imposição e poder que ocupa os espaços das Casas de Àse.

Ao considerar a construção do gênero e da sexualidade, de acordo com Louro (2008), ela dá-se ao longo de toda a vida. Difícil não abordar a questão de que o Òrìsà pode sim influenciar na personalidade de quem o carrega.

O ser performático pode ser o aceito. É aquele que se reproduz submisso e sem questionar. Mais uma vez buscamos referendar gênero como corpo construído no campo do social e não no universo subjetivo. Bourdieu (2010) propõe uma discussão mais justa ao despertar as pessoas para uma observação do corpo, não pelo viés sexual, o que poderia nos levar a um equívoco sobre sua significação.

O Candomblé não se enquadra fora dessas normatizações quando está organizado num contexto ocidental no qual mulheres e homens exibem seus corpos e frequentam espaços conjuntos. A fé não pode ser limitada à sexualidade. Hoje, é comum ver nas Casas de Àse tanto homens quanto mulheres que, igualmente iniciados, recebem seus Santos e os louvam conjuntamente nas festas, que são organizadas de acordo com o calendário de cada Casa de Àse.

Enfim, o corpo é matéria, mas expressa o sexo de cada indivíduo, pelo menos de frente, de acordo com Bourdieu (2010, p. 26): “O corpo tem sua frente, lugar da diferença sexual, e suas costas, sexualmente indiferenciadas e potencialmente femininas”. Não há protuberância no dorso do ser que segue em frente. Assim sendo, somos iguais em nossas diferenças e desejamos ser respeitados em nossas escolhas.

 

NOTAS

[1] Divindades africanas cultuadas nas religiões de matriz africana que representam os elementos da natureza.

REFERÊNCIAS

BIRMAN, Patrícia. O que é Umbanda. São Paulo: Abril Cultural: Brasiliense, 1985.
BOURDIEU, Pierre. A dominação masculina. Tradução: Maria Helena Kuhner. 9. ed. Rio de Janeiro: Bertrand Brasil, 2010.
LODY, Raul. Candomblé: Religião e resistência cultural. São Paulo: Ática, 1987.
LOURO, Guacira Lopes. Gênero e sexualidade: pedagogias contemporâneas. Pró-Posições, v. 19, n. 2 (56), Maio/Ago. 2008.
PRANDI, Reginaldo. Mitologia dos Òrìsàs. 6. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2000.
IYAGUNÃ, Dalzia Maria Aparecida. Templo religioso, natureza e os avanços tecnológicos: os saberes do candomblé na contemporaneidade. 2013. Dissertação (Mestrado em Tecnologia). Universidade Tecnológica Federal do Paraná. Disponível em <repositorio.utfpr.edu.br>. Acesso em 12/08/2019.

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