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Chega de Estultice – estudo etimológico das palavras Umbanda e Kimbanda | Parte 3

Chega de Estultice – estudo etimológico das palavras Umbanda e Kimbanda | Parte 3

CONCLUSÃO

As práticas dos Imbanda (plural de Kimbanda), provenientes de crendices ou não, são artes que existem realmente e as terapêuticas tradicionais dão e sempre deram muito bom resultado. Sem terem apoio da ciência moderna, ou da medicina ocidental, os Kimbanda (Imbanda), prestam um serviço à comunidade, sendo capazes de diagnosticar, prevenir, tratar e curar as doenças próprias da época, hereditárias ou não. Com os seus conhecimentos e experiência em terapêuticas obtidas a partir dos seus conhecimentos da natureza e dos recursos naturais agrícolas, florestais, hídricos, e minerais os kimbanda asseguraram, no passado, a saúde pública em Angola. Presentemente, apesar de continuarem com as suas práticas de medicina tradicional, são mais procurados pelas suas capacidades como xamâs.

Desde a antiguidade, Angola foi sempre terra de muitas artes curativas, praticadas pelos imbanda. Homens e mulheres, verdadeiros artesãos da cura, abençoados por Nzambi (Deus) com o dom de curar, conhecedores e bastante experientes em terapias sobrenaturais e naturais. Os grandes mestres Kimbanda, da região dos Ambundu, eram e são da província do Bengo, nomeadamente do Dande. Eles asseguraram, durante muitos séculos, a saúde publica em todas as tribos de Angola, sem necessitar de fundos internacionais ou apoios de governo e/ou da OMS (Organização Mundial da Saúde). Para promover e salvar esse grande carisma de curar, oferecido por Nzambi (Deus) aos angolanos, está-se, hoje, a organizar na diáspora, a revista M’banda, de medicina natural angolana, onde as terapêuticas são organizadas a partir de recursos naturais, agrícolas, florestais, marinhos, hídricos e minerais de Angola. No passado, famílias portuguesas, aderiam a esta arte, para resolver situações que a medicina não conseguia debelar. A terapêutica tradicional angolana comporta duas partes distintas: parte sobrenatural e a parte farmacológica.

O Kimbanda, aquele que está apto a oferecer a cura física e espiritual das pessoas, sempre trabalhou a fim de restaurar a ordem moral da comunidade em que estava inserido. O universo moral banto, oferecido pelas artes do Kimbanda, foi explicitamente usado como um escudo psicológico, que deu à população grande nível de autoconfiança e lhes permitiu enfrentar a dominação e exploração levada à cabo pela colonização portuguesa. Era o que lhes dava alento para continuarem a sobreviver.

Durante a cruenta guerra civil em Angola, acontecida depois da independência desse país, os Imbanda tiveram papel preponderante, pois eram eles que ofereciam auxílio psicológico às vítimas da guerra (vítimas de estupro, soldados em crise, órfãos, viúvas etc). Como é possível uma arte tão bela e maravilhosa ter recebido a pecha, em nossa pátria, de coisa do mal, do demônio, da ignorância? Ora, poupem-me!!!!

A diferenciação que muito se faz entre Umbanda e Quimbanda, infelizmente, se dá pelo projeto iniciado nos anos 1940 de embranquecimento da Umbanda, fruto do racismo e do eurocentrismo que grassava na classe média daquela época. O 1º Congresso de Espiritismo de Umbanda foi o carro-chefe desse entendimento, quando se concluiu que era necessário tirar da Umbanda “as práticas primitivas dos negros africanos”. Dessa forma, a Quimbanda seria o contraponto da Umbanda, esta dos brancos e evoluídos, aquela dos negros e atrasados. Uma dicotomia que se observa na sociedade em geral. Não podemos mais admitir isso! É chegada a hora de haver seriedade naquilo que se faz e pratica.

Para encerrar, quero dizer que o simples fato de inúmeras pessoas que se auto-intitulam “Pais de Santo” ou “Mães de Santo”, dizerem que praticam a Quimbanda, que trabalham com Exus e Pombagiras, que são aptos a fazer malefícios, feitiços e amarrações, prometendo trazer “a pessoa amada em sete dias ou seu dinheiro de volta”, não faz com que a Quimbanda se resuma ao que falam. São um bando de safados e sem-vergonha, que exploram as crendices dos incautos. Mais uma vez, poupem-me!!!

Mario Filho
Tata Kimbanda Malê, orgulhoso filho de Tata Kimbanda Lúcio (Tata Negão).

REPERCUSSÕES

Depois da publicação deste texto na “Internet” pela primeira vez, recebi muitas mensagens de felicitações e agradecimento, em que pese algumas opiniões contrárias que foram escritas. Uma delas me chamou atenção e pelo respeito que tenho pelo interlocutor que me escreveu, colo-a abaixo e tentarei respondê-la em seguida:

“Desculpe Mário. Não vou entrar em detalhes, mas o texto está incorreto. A Kimbanda é um culto feiticeiro, e a Umbanda é um culto religioso. São coisas diferentes. O praticante e iniciado em Kimbanda é o Kihuendê, termo que significa, feiticeiro, necromante, comunicador dos mortos. Falam muita bobagem por aí de fato. Várias delas, por exemplo, ao dizer que um Exu (ou Mavambo) seria um ser de luz, um escravo de Orixá ou, um espírito em evolução. Muito pelo contrário. São seres noturnos e contraproducentes. Um Kihuendê é um feiticeiro, não um curandeiro. Todas as visões que ocorrem na Umbanda são visões externas à Kimbanda, que é um culto totalmente diferente, separado e independente da Umbanda. Seres da Kimbanda manifestam-se na Umbanda. O oposto não ocorre”.

Bom, como disse antes, em respeito ao autor dessas afirmações, pessoa que conheço há anos, passo a me debruçar sobre suas palavras. Em primeiro lugar temos que lembrar que a palavra Kimbanda vem do idioma Kimbundu, portanto é sobre essa língua que a discussão deve andar.

1º. A Kimbanda não é um culto feiticeiro, conforme apontei em todo o texto. A etimologia da palavra, escrita em vários dicionários que citei, bem como outras fontes que empregam a palavra, são unânimes em afirmar que Kimbanda se refere ao curandeiro, adivinho, mago, erveiro, raizeiro etc. A palavra também se confunde com a própria prática, reconhecida como o nome da religião praticada em partes de Angola;

2º. A palavra Kihuende, que é sinônima de Kihénde, segundo o Dicionário Kimbundu-Português (ASSIS JÚNIOR, 1947, p. 119) quer dizer: “Presidente, dirigente. Chefe de uma assembléia, reunião, junta, tribunal ou congresso. Pessoa mais importante pela sua hierarquia ou mérito.” [1] Não quer dizer aquilo que o interlocutor afirma, então.

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3º. Mavambo não é uma palavra da língua Kimbundu, mas do léxico Shona, língua falada por um dos subgrupos (os Shona) dos povos banto que não falavam Kimbundu, cujo significado é “começo, início”, ou seja, refere-se ao culto que se deve fazer a Mavile, um dos nomes de Mpambu Nzila, ou seja, deve-se cultuar Mavile primeiro, antes dos demais Mukixi (divindades). Podemos ver as misturas lingüísticas em rituais dos povos banto da diáspora.

4º. Exus (ou Mavambos como diz o interlocutor) são seres noturnos? Talvez! Entretanto, dizer que são contraproducentes há uma distância muito grande. Segundo o dicionário Aurélio contraproducente quer dizer: “que prova o contrário do que se pretendia; que tem resultado contrário ao que se pretende”. Com essa definição da palavra, não posso entender que Exu ou Mavambo seja contraproducente, pois ele não é uma prova ou o contrário do que se queria provar.

5º. O interlocutor tem razão quando afirma que Kimbanda e Umbanda são cultos diferentes e independentes, mas discordo que seres que se manifestam na Umbanda não podem se manifestar na Kimbanda. Ora, afirmarmos isso é dizer que o mundo espiritual é cartesiano, formado por categorias que não se misturam. Sabemos, há muito tempo, que isso não é verdade. O mundo espiritual é permeado de trocas e ações dos agentes espirituais são intercambiáveis todo o tempo.


Páginas Consultadas:
Ritos de Angola: http://www.ritosdeangola.com.br;
Povo de Aruanda: http://www.povodearuanda.com.br;
Angola Notícia: http://angonoticias.com;
Metropolitan Museum of Art: http://www.metmuseum.org;
Nganga Org: http://www.nganga.org;
Jornal de Angola: http://jornaldeangola.sapo.ao


Referência

[1] ASSIS JÚNIOR, A. de. Diccionário Kimbundu-Português. Luanda: Argente, Santos & Cia, 1947, p. 119.