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Entre o Deus na margem e o Deus marginal

Entre o Deus na margem e o Deus marginal
29 de setembro de 2020 Ana Ester

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Os Estudos Queer implicam uma subversão das formas com a quais o conhecimento é produzido. Seus imbricamentos com a Teologia Queer que tenho buscado produzir requerem de mim um esforço epistemológico para desbravar caminhos de (re)conhecimento a partir de outros lugares. Esse deslocamento da produção do saber não é uma novidade no campo teológico, afinal, as teologias contextuais buscam justamente isso: ressituar a experiência do Sagrado.

A revisão de nossas epistemologias requer o reconhecimento dos processos colonizatórios – a maneira como as estruturas que organizam o mundo funcionam foi colonizada, a maneira como experimentamos o cristianismo foi colonizada, a maneira como nos colocamos diante da vida também foi colonizada. Luciana Ballestrin, no seu artigo “América Latina e o giro decolonial” (2013), afirma que a colonialidade se reproduz em uma tripla dimensão: a do poder, do saber e do ser. Pensar uma outra epistemologia é, então, enfrentar a colonialidade do saber e da violência epistêmica que é, ainda segundo Ballestrin, é cúmplice do universalismo, do sexismo e do racismo.

Nesse sentido, uma epistemologia queer tem o interesse não somente de reformular a forma com a qual o conhecimento é produzido, mas também a forma como somos no mundo. Um dos caminhos para esse objetivo passa pela superação dos binarismos, que Judith Butler, em seu clássico “Problemas de Gênero” (2016), já apontava na década de 1990, quando seu livro foi lançado nos Estados Unidos. Um dos interesses em desmontar um projeto binário é reverter a lógica do nós/eles, uma lógica que tem polarizado as relações não somente no contexto das relações cotidianas, mas também em proporções geopolíticas.

Tomando, então, em consideração que essa proposta de subversão da lógica do nós/eles se dá no campo da Teologia Queer em um ambiente no qual o cristianismo conservador tem avançado a passos largos, quais seriam os possíveis caminhos para a erradicação de uma epistemologia binária? Suspeito que um possível caminho é o das fronteiras, do não-lugar, do se afirmar aqui e lá, o caminho do trânsito, do caminho que se faz ao caminhar.

Walter Mignolo, em “Historias locales/disenos globales: colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo” (2003), apresenta seu “pensamento fronteiriço”: “O pensamento fronteiriço, desde a perspectiva da subalternidade colonial, é um pensamento que não pode ignorar o pensamento da modernidade, mas que não pode tampouco subjugar-se a ele, ainda que tal pensamento moderno seja de esquerda ou progressista”. Mignolo chama a atenção para que reflitamos sobre as categorias que regem nossas relações. Aqui ele usa a ideia de esquerda e direita, não para propor um centro conciliatório, mas para que pensemos que inclusive a ideia que chega a nós de esquerda e direita foi colonizada, sendo que os sistemas que organizavam nossa sociedade previam menos os antagonismos e muito mais as relações.

Nesse sentido, um pensamento fronteiriço é a implicação com a decolonização do saber, por meio das fronteiras, das margens. A margem – um lugar tão caro às nossas teologias contextuais. Para refletir sobre esse lugar epistemológico, proponho a leitura da narrativa bíblica do Evangelho de Mateus 15, 22-24.

“E eis que uma mulher cananeia, que saíra daquelas cercanias, clamou, dizendo: Senhor, Filho de Davi, tem misericórdia de mim, que minha filha está miseravelmente endemoninhada. Mas ele não lhe respondeu palavra. E os seus discípulos, chegando ao pé dele, rogaram-lhe, dizendo: Despede-a, que vem gritando atrás de nós. E ele, respondendo, disse: Eu não fui enviado senão às ovelhas perdidas da casa de Israel.

Então chegou ela, e adorou-o, dizendo: Senhor, socorre-me! Ele, porém, respondendo, disse: Não é bom pegar no pão dos filhos e deitá-lo aos cachorrinhos. E ela disse: Sim, Senhor, mas também os cachorrinhos comem das migalhas que caem da mesa dos seus senhores. Então respondeu Jesus, e disse-lhe: Ó mulher, grande é a tua fé! Seja isso feito para contigo como tu desejas. E desde aquela hora a sua filha ficou sã”.

Jesus, homem que foi às margens, muitas vezes precisou que a margem fosse até ele. A casa de Israel e os gentios, nós/eles. Mas, o encontro com a mulher cananeia mostrou a Jesus uma outra possibilidade da compreensão do nós, o “nós todos”. Aquele encontro promoveu a expansão da ideia que Jesus tinha sobre o que significava nós. Expandir a ideia de nós é um dos caminhos em direção a uma epistemologia de unidade na diferença. Desmantelar o projeto binário não é negar as diferenças, pelo contrário, é afirma-las, sabendo que é justamente o reconhecimento das diferenças que pode criar relações mais justas, solidárias e sustentáveis. Desmantelar o projeto binário implica em romper com as hierarquias que desgraçam a vida, que vulnerabilizam as existências e que negam o projeto libertador de Jesus, o Cristo.

Por isso, uma epistemologia queer deve ser produzida a partir das fronteiras. A fronteira como o lugar da mistura, lugar do encontro com os diferentes, lugar onde negar a existência do outro é impossível. É preciso ressituar os saberes nas fronteiras e ouvir atentamente o que é que se tem produzido a partir de lá. Uma perspectiva teológica queer se implica em reconhecer não somente quais saberes têm sido produzidos nas fronteiras, mas também qual é o Deus da fronteira, da margem. Uma das possíveis respostas é a da teóloga indecente Marcella Althaus-Reid:

“O Deus na margem é uma visão inofensiva do Deus marginal. Ele descentraliza o poder, mas não o desafia, porque o centro alimenta sua epistemologia. O Deus da margem depende do Deus do centro, porque uma definição condiciona a outra. Esta é a razão por que as teologias radicais na margem podem ser politicamente esclarecidas, ainda que ao mesmo tempo opressivamente sexistas e racistas. O modo de ser do centro corrompe a margem com sua autoridade, que desta vez é autoridade sagrada. [..] Confrontados com os processos de globalização, precisaremos de um Deus marginal para mostrar-nos que o melhor de nossa história de solidariedade e de organização estratégica para a mudança vem não da paixão de Deus pela margem, como se a vocação de Deus fosse visitar as fronteiras, mas da real localização fora das construções do centro. […] Um verdadeiro ‘Deus marginal’ pode ter pouca coisa em comum com o vicário ‘Deus dos pobres’ que, embora visite a margem, ainda vive longe e pertence a um discurso central da teologia.”

Acompanhando Althaus-Reid, acredito que o que precisamos não é de um Deus que visite as fronteiras, que se implique em dialogar com as fronteiras, o que precisamos é abraçar o projeto do Deus marginal, do Deus fronteiriço, projeto de expansão do nós, onde eu e você nos misturamos, não a partir de nossos binarismos, mas a partir das nossas multiplicidades.

Referências

ALTHAUS-RED, Marcella. In: Blog Teologia da Libertação. 6 ago. 2025. Disponível em: https://teologialibertacao.wordpress.com/2015/08/06/um-deus-a-margem-ou-marginal/

BALLESTRIN, Luciana. América Latina e o giro decolonial. Revista Brasileira de Ciência Política, Brasília, n. 11, maio-ago, p. 89-117, 2013.

BUTLER, Judith. Problemas de Gênero: feminismo e subversão da identidade. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2016.

MIGNOLO, Walter. Historias locales/disenos globales: colonialidad, conocimientos subalternos y pensamiento fronterizo. Madrid: Akal, 2003.

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