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Dezmandamentos: “Não terás outros deuses diante de mim”

Dezmandamentos: “Não terás outros deuses diante de mim”
27 de março de 2021 Ana Ester

Segundo texto da série “Dezmandamentos”. Essa é uma série de conteúdo teológico e pastoral voltada para a leitura dos Dez Mandamentos a partir das experiências de dissidentes sexuais e de gênero.  Para ler o primeiro texto, clique aqui.

Foto de Luis Villasmil no Unsplash

Lembro-me da primeira – e única vez – que fui a uma reunião do grupo “Mulheres que amam demais anônimas”, MADA [1]. A reunião ficava em uma sala paroquial de uma igreja católica em Belo Horizonte, uma sala ampla com as cadeiras organizadas em círculo. Nas cadeiras mulheres adultas, sendo eu, talvez, a mais jovem ali. Não sei ao certo como fiquei sabendo do grupo, se por meio da novela “Mulheres Apaixonadas” (2003) ou se pelo Orkut (sim, sou dessa época!). Só sei que precisava ir. Eu tinha certeza de que estava doente de amor. Eu amava demais. E amar doía.

O grupo MADA é uma irmandade de mulheres com um programa de recuperação baseado nos 12 passos dos Alcóolicos Anônimos. Essa minha visita tem quase 20 anos, por isso não me lembro direito sobre o que aconteceu lá, mas me lembro bem do sentimento que me levou até lá: ciúme. Eu vivia uma relação na qual eu tinha muito ciúme e a pessoa com a qual eu me relacionava também tinha muito ciúme de mim. Combinação explosiva. “Relações lésbicas são assim”, eu ouvia de algumas amigas. Uma questão que pode ser um complicador nas relações entre duas mulheres – e que pode se dar em contexto heterossexual também – é que a sua parceira geralmente acaba sendo sua mulher amiga. Tudo em cima de uma única pessoa: o amor, a amizade, as confidências. O círculo de amizades vai se estreitando. As amigas vão desistindo de te chamar para sair, porque você sempre tem uma desculpa para não ir. O medo vai paralisando a vida. Medo de olhar para o lado, medo de ser simpática com o garçom, medo de rir de uma piada. O medo de receber uma mensagem no celular faz com ele esteja sempre no silencioso e colocado sobre a mesa virado para baixo. Quantas de nós não fizemos/fazemos isso? Eu fiz. Eu tinha medo e amedrontava. Por isso, fui parar no MADA. Mas, fui apenas uma única vez, afinal, eu tinha medo de que minha parceira descobrisse.

Eu cresci em um ambiente muito cheio de ciúme. Ciúme patológico. Acabei levando para as minhas relações afetivas esse mesmo sentimento baseado em uma insegurança terrível e em um medo de ser rejeitada. Anos de terapia. E ainda hoje esse é um sentimento que me visita quando eu menos imagino. Agora, mais paciente comigo mesma, tenho aprendido a contar com o tempo para deixar o sentimento vir e ir sem tanta intensidade. Uma das discussões que me ajudou a refletir sobre o meu ciúme foi sobre monogamia. Afinal, nada mais desafiador ao ciúme do que ter que “compartilhar” um relacionamento. Janet W. Hardy e Dossie Easton, no livro “The Ethical Slut”, que foi traduzido para o português sob o título “Ética do amor livre” (nada a declarar sobre essa tradução!) se basearam em suas próprias experiências de ciúme para explorar a questão. Uma delas conta que quando começou a contestar seu ciúme foi tomada por uma sensação de insegurança e foi justamente essa insegurança que a impeliu a repensar sobre sua autoestima e sobre como sua insegurança não deveria estar depositada sobre outra pessoa. As autoras mencionam sobre a ideia do “ciúme bom”, “ciúme romântico”, que provaria o amor ou o desejo pela outra pessoa. Entretanto, concluem que o ciúme se apresenta como a projeção sobre o/a parceiro/a de algum sentimento inconfortável pessoal. Nesse caso, não seria possível existir um “ciuminho bom” ou uma medida desejável de ciúme, porque o ciúme em si seria um sentimento de desconforto e não de amor ou desejo.

Desde cedo aprendemos a lidar com os relacionamentos amorosos como se fossem propriedade privada. Os modelos econômicos regem as nossas formas de conviver. Investimos nas relações, esperamos o máximo de rentabilidade das nossas parceiras, estabelecemos estratégias de aliança, tudo para manter o monopólio sobre as vidas da outras pessoas. A Teologia Queer trouxe esse assunto para o meu colo. Uma das ex-moderadoras (líder máxima) da denominação religiosa da qual faço parte vive uma relação poliamorosa lésbica. São três mulheres e um filho. Tive a oportunidade de conversar com ela sobre isso, mas saí muito insegura da conversa, afinal, eu conhecia o sentimento que ela estava me descrevendo, mas não estava disposta a romper com contratos tão caros para mim. Sempre achei que o poliamor funcionaria melhor para os homens. Ah, os meus estereótipos de gênero: “homens tendem a ter relações abertas”, “homens sempre traem”, “homens têm uma inclinação biológica ao sexo”. Conversando com alguns amigos, tive a sensação de que os estereótipos só se reforçavam, pois, as discussões sobre relações abertas, plurais, poliamorosas, realmente, estavam mais avançadas entre eles. Meus amigos estão muito saidinhos ou eu que parei no tempo?

Talvez eu não tenha parado no tempo, porque essas discussões sobre relações afetivas e “familiares” podem ser encontradas inclusive no tempo bíblico. Até Jesus foi perguntado sobre a possibilidade ou não do divórcio (cf. Marcos 10, Mateus 19). Sobre a pluralidade de arranjos “familiares”, o livro “La diversidad de ‘familias’ (50) en la Biblia”, de Tom Hanks, apresenta, a partir da Bíblia, 50 modelos possíveis. Talvez, então, eu não tenha parado no tempo, mas na tradição. A partir de minha experiência pessoal de ciúme, de posse, de (des)controle é fácil perceber o gerenciamento do meu corpo e de minhas relações por meio da tradição cristã, à qual a teóloga Marcella Althaus-Reid, em seu livro Deus Queer (2019), afirma que ser uma “mono-tradição baseada na regra monogâmica e monoamorosa da família diádica”. Baseada em Eve Kosofsky Sedwick, Althaus-Reid explica que o pacto cristão é “monogâmico, monoamoroso e heterossexual”.

Essa afirmativa coloca mais uma camada nessa discussão, que é a questão do monoamor. O monoamor está para além da monogamia, porque a monogamia diz respeito a forma com qual estruturamos nossas relações amorosas, já o monoamor fala não somente sobre como decidimos viver (ou decidem por nós), mas sobre a honestidade sobre diante do que sentimos e desejamos. A mono-tradição como controle dos afetos. E isso a partir da imagem de um “Deus ciumento”. Ah, quantas vezes ouvi: “você tem que voltar para o Pai, porque ele tem ciúme de você”. Deus ciumento, Deus zeloso, ou, como Althaus-Reid coloca, “o amor monogâmico autorreferente do Deus-Pai”. Quando o amor monogâmico ganha a referência de Deus, sua sacralidade o institucionaliza de tal forma que tudo o que for diferente disso se torna pecado.

Althaus-Reid, ainda no livro “Deus Queer”, explica que o modelo contratual familiar bíblico é baseado no

“relacionamento com o ‘Deus ciumento’ de Israel, (que) está ligado a formas particulares de compreensão da propriedade, e do corpo como propriedade. O ‘próprio corpo’ é largamente ensinado e organizado na compreensão contemporânea sobre o casamento cristão como um corpo secreto, isto é, um corpo que está oculto. Como tal, o corpo cristão casado não está apenas escondido, mas mantido longe da descoberta de quaisquer formas de organização sexual que possam contribuir para organizações econômicas diferentes”. [2]

Esse corpo que se esconde é o corpo que não se mostra diante de Deus com honestidade. “Não terás outros deuses diante de mim”, afirma o primeiro mandamento. Se não podemos ter “diante”, pode ser que tenhamos às escondidas, afinal, somos seres de desejo, que passamos a vida inteira tentando controlar, reprimir e regular os afetos que nos unem de maneiras tão plurais e especiais.

Tenho acompanhado uma série de textos produzidos pelo site “Razão Inadequada” [3], do Rafael Lauro e do Rafael Trindade, sob título “Anarquia Relacional”. Nessa série, baseados na filosofia de Espinosa, os autores estabelecem princípios para a “alegria-mútua”, para pensar as relações contestando um modelo único de se relacionar.  Confesso que as reflexões têm me virado do avesso, não somente para pensar minhas relações afetivas, mas também para pensar meu relacionamento com Deus. O primeiro princípio – o único que vou apresentar – é o da abundância. Os autores reafirmam a ideia de que aprendemos que o amor é a falta. Nos falta algo, por isso a/o outra/o nos completa. Essa ideia de amor como falta nos coloca em um estado de vulnerabilidade perigosa, pois passamos a precisar de alguém que supra a falta que nos é constitutiva. A virada espinosana que os autores apresentam é que o amor/desejo se dá pela abundância e não pela falta. Eles não pensam em um relacionamento com Deus, mas acho possível usar a tese que propõe para rever a ideia de um Deus-Criador que cria porque lhe falta algo, para pensar em um Deus-Criador que cria porque algo lhe excede. Uma expressão Divina que ama sem reservas, que ama porque está alegre, porque excede em amor.

Althaus-Reid, em seu livro “Teologia Indecente”, explica que a economia erótica latino-americana regula nossos excessos. Uma das formas com as quais a mono-tradição se sustenta é a partir do controle dos excedentes, por meio da ideia de decência. E é por isso, afirma a teóloga, que é preciso que as teologias sexuais indecentes representem a ressurreição do excessivo em nós. “O excesso de nossas vidas famintas: nossa fome de comida, fome pelo toque de outros corpos, de amor e de Deus; uma multidão de fomes nunca satisfeitas que crescem e se expandem e nos colocam em situações de risco e desafio (…)” [4].

Fui ao MADA uma única vez. Fui para controlar os excessos, mas tenho descoberto que ser “mulher que ama demais” pode ser bom. Descobri que o ciúme é o desespero do encontro com a abundância que me excede e a qual não devo controlar. Descobri que o reconhecimento e a celebração desse excesso de amor me fazem chegar diante da vida, e diante de Deus, com outros tantos amores. “Não terás outros deuses diante de mim”. Ah, Deus,

“De frente, de trás

Eu te amo cada vez mais

De frente, de trás

Pega rapaz, me pega rapaz” [5].

 

Notas

[1] MADA https://grupomadabrasil.com.br

[2] Althaus-Reid, Deus queer, p. 177.

[3] Razão inadequada https://razaoinadequada.com

[4] Althaus-Reid, Teologia Indecente, p. 281.

[5] Rita Lee, Pega rapaz, 1987.

 

Referências

ALTHAUS-REID, Marcella. Deus queer. Tradução: Fábio Martelozzo Mendes. Rio de Janeiro, RJ: Metanoia; Novos Diálogos, 2019.

ALTHAUS-REID, Marcella. La teologia indecente: perversiones teológicas em sexo, género y política. Barcelona: Edicions Bellaterra, 2005.

FREITAS, Camila; MIRANDA, Nana; Jr., Newton. Relacionamento aberto, não-monogamia e disputa de conceitos. Disponível em: https://medium.com/naomonoemfoco/relacionamento-aberto-não-monogamia-e-disputa-de-conceitos-fcbda6706df3

HANKS, Tom. La diversidad de ‘familias’ (50) en la Biblia. Buenos Aires: Editorial Epifanía, 2016.

HARDY, Janet W.; EASTON, Dossie. The Ethical Slut: a practical guide to polyamory, open relationships and other freedoms in sex and love”. California, Nova York: Ten Speed Press, 2017.

 

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