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Dezmandamentos: “Não adulterarás”

Dezmandamentos: “Não adulterarás”

Oitavo texto da série “Dezmandamentos”. Essa é uma série de conteúdo teológico e pastoral voltada para a leitura dos Dez Mandamentos a partir das experiências de dissidentes sexuais e de gênero. Para ler o sétimo texto, clique aqui.

Êxodo 20:14 “Não adulterarás.”

O caminho óbvio de uma reflexão/exposição/desnudamento sobre o adultério seria o de se pensar sobre “fidelidade conjugal” (o que eu, de alguma forma, já comecei a abordar no segundo texto desta série). Mas, e se adulterarmos o adultério? E se pensarmos nele a partir da própria desterritorialização gramatical e epistemológica que tenho compreendido como método de leitura queer da vida e da Bíblia? Minha intenção não é dessexualizar o adultério, mas pensar no adultério como a adulteração de um corpo sexualizado.

Eu sou uma mulher adúltera, ou melhor, adulterada. O primeiro exemplo que me vem à mente quando penso em algo adulterado é gasolina (exemplo típico de uma caminhoneira?). “Posto tal foi interditado porque vendia gasolina adulterada”. A minha imediata conexão com a gasolina não está fugindo muito da Bíblia, afinal, gasolina adulterada é também conhecida por “gasolina batizada” (pausa para risos). Gasolina adulterada geralmente é aquela que tem mais álcool misturado ao combustível do que o permitido. O carro abastecido com essa gasolina vai até andar, mas aos poucos vai mostrar os problemas da adulteração.

Hoje, pela primeira vez, eu tenho vontade de conversar sobre um dos mais profundos processos de adulteração do meu corpo – a cirurgia bariátrica. Passei por algumas cirurgias na minha vida, nove para ser mais exata, mas foi a bariátrica que mais mexeu comigo porque me fez ter que lidar com a minha gordofobia.

Sempre fui uma pessoa gorda. Aos 11 anos tive a minha primeira consulta com o endocrinologista para perda de peso. Aos 17 estava acumulando medalhas pelo sucesso no “Vigilantes do Peso”, um programa de emagrecimento que, à época, era conhecido como o método da balancinha porque tudo tinha que ser pesado antes de ser consumido. Eu era a rainha do efeito sanfona, perdia 10 kilos, ganhava 20. E assim segui. O excesso de peso teve um impacto enorme na minha vida sexual e afetiva.

Eu sou uma mulher lésbica, mas já me relacionei com dezenas de homens. Por ser uma mulher gorda, eu sempre achava que quando um homem ficava comigo ele estava me fazendo um favor. Por isso, eu deveria devolver o favor transando com ele. Praticamente todo o homem com o qual eu fiquei eu transei. E em nenhuma dessas transas eu gozei. Nenhuma.

Outro impacto da obesidade na minha vida sexual e afetiva foi o questionamento sobre a minha lesbianidade. Eu moro nos Estados Unidos desde fevereiro de 2020, mas há poucos dias eu estive no Brasil. Eu estava arrumando o meu apartamento, separando roupas, limpando gavetas. Em uma delas encontrei alguns dos meus diários. Durante um período da minha vida eu escrevia diários com orações a Deus. Essas orações revelam em que sistema teológico a minha espiritualidade estava inserida, ou melhor, aprisionada. Meus diários mostram uma mulher desesperada pela perda de peso. “Deus, me ajude a emagrecer”. “Deus, eu não consigo parar de comer”.

Esse desespero pelo emagrecimento não foi algo que surgiu em minha experiência neopentecostal, mas, sem dúvidas, a igreja me ajudou a odiar meu corpo. Assisti recentemente ao documentário“The Way Down”. Ele conta a história da líder espiritual Gwen Shamblin Lara, que ficou famosa pelo programa de emagrecimento Weigh Down Workshop. Fundadora da Remnant Fellowship, Gwen pregava que a obesidade era pecado e desobediência a Deus. Por muito tempo, eu também acreditei nisso. Acreditava que o que eu comia em excesso era fruto de um descontrole espiritual, no qual a comida tinha domínio sobre mim. Passei a fazer jejuns sem fim, que tinham como objetivo a perda de peso, mas eram mascarados de “disciplina espiritual”. Afinal, eu precisava perder peso para encontrar um “homem de Deus” que quisesse se casar comigo.

A grande pergunta que estava por trás da relação entre comida e relacionamentos era: “será que eu sou lésbica porque sou gorda?”. Quantas pessoas LGBT já não tentaram achar a “raiz” de sua orientação sexual ou identidade de gênero dissidente? Será que me relacionar com mulheres era uma tentativa de ser amada do jeito que eu era? – eu me perguntava. O fato de eu pouco encontrar em meus diários “Deus, me ajude a não gostar de mulheres”, mas encontrar muitas frases como “Deus, me ajude a emagrecer” é um sinal que eu acreditava que o meu corpo era a “causa” de minha lesbianidade. Assim, para “curar” a lesbianidade, era preciso “curar” a causa.

Por fim, um último exemplo do impacto da obesidade nas minhas relações sexuais e afetivas, era eu achar que era “péssima de cama”. Foi uma transa desastrosa a gota d’água que faltava para eu decidir fazer a cirurgia bariátrica. Existe um terrível conceito que circula no imaginário da vida sexual lésbica chamado lesbian bed death (algo como “morte lésbica na cama”). A ideia é a de que casais de mulheres costumam fazer menos sexo do que outros casais e que o sexo só vai diminuindo ao longo do tempo da relação. Essas generalizações são violentas! Mas, a gente sabe que existe uma “performance da cama”, que muitas vezes intimida as pessoas, inclusive mulheres lésbicas. “Será que eu vou conseguir fazer a tesourinha?”

Fora isso, ainda existe a famosa pressão de que “o sexo com mulher é melhor do que o sexo com homem”. Aff. Aqui, se uma lésbica tem a primeira transa com uma mulher (até então) heterossexual, é obrigatório que a mulher heterossexual desista dos homens, “porque o sexo com mulher é muito melhor”. (Deus me livre…, mas, quem me dera!)

A transa que eu considerei “desastrosa” estava limitada à minha compreensão de performance sexual. Uma conversa honesta com minha companheira teria evitado tudo isso. Eu estava com mais de 90 quilos à época e me lembro bem de ter ficado cansada no meio da transa. Bastava ter parado, recuperado o ar, recomeçado de outra maneira. Mas, eu me lembro de ficar sentada na cama com vontade de chorar pensando que, depois dessa, a minha companheira ia me trair em busca uma transa boa. Adultério.

Eu adulterei o meu corpo na tentativa de evitar o adultério.

Não adiantou. Eu não gostar do meu corpo, e acreditar que seria traída justamente por isso, me fez trair. Afinal, se eu já devia estar sendo traída, então poderia trair (bem, essa foi a desculpa que eu criei). Esse é o alimento mais ultraprocessado que eu conheço: o gênero como regulador dos corpos e das curvas.

Me lembro de um texto da Bispa Margarita Sánchez de Léon no qual ela levanta suspeitas sobre o corpo de Jesus. Afirma a teóloga:

“Os Evangelhos relatam que Jesus gostava de comer e beber. Ele bebia e comia principalmente entre e com aqueles que não eram considerados de boa reputação. Nossas sociedades têm uma luta complexa com a comida: por um lado, somos convidados ao prazer de comer, mas os corpos são constantemente medidos para manter as proporções adequadas. As imagens de que me lembro de Jesus apresentam um homem bastante magro, ou que não reflete seu gosto pelo tempo à mesa. Talvez essas imagens ajudem a reforçar o que o ‘ativismo gordo’ (movimiento gordo) nos lembra: os corpos gordos são patologizados, apresentados no palco como um exemplo do que está sujo e negligenciado, do que está errado e não deve ser mostrado”1SÁNCHEZ DE LEÓN, Carmenmargarita. Los múltiples cuerpos de Jesús. Revista internacional de Teología Concilium, nº 383, nov. 2019. p. 68..

 Questionar o peso de Jesus não é uma averiguação médica para saber se seu IMC (índice de massa corpórea) está acima do “normal”. Mas, é pensar sobre um sistema regulador e normalizador dos corpos que nos aprisiona, também, por meio de teologias de negação da pluriversalidade do corpo.

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A minha gordofobia me faz questionar: “o meu corpo gordo era o corpo adulterado ou a cirurgia para emagrecimento é que realmente adulterou o meu corpo?” O problema dessa pergunta não são as possíveis respostas, mas é a pergunta. A pergunta ignora os processos complexos que patologizaram a minha experiência de prazer com a comida. A pergunta dicotomiza a experiência do corpo criando uma tabela que vai da normalidade à doença.

Eu tomo seis tipos de comprimidos por dia, tenho quatro placas de titânio na boca. Em tempos de tecnogêneros, de era farmacopornográfica2Ver Paul B. Preciado (Manifesto contrassexual, 2014, Texto junkie, 2018)., não seria todo corpo um corpo adulterado? …

Deixo a pergunta no ar para ser debatida em um café com um pão-de-queijo recheado e uma torta holandesa de sobremesa. Afinal, na minha vida adúltera/da, o melhor a fazer é me agarrar à Bíblia: “Veio o Filho do homem, que come e bebe, e dizeis: Eis aí um homem comilão e bebedor de vinho, amigo dos publicanos e pecadores”. (Lucas 7:34).


Sugestões

ISHERWOOD, Lisa. The Fat Jesus: Christianity and Body Image. New York: Seabury Books, 2008.

ISHERWOOD, Lisa; STUART, Elizabeth. Introducing Body Theology. England: Sheffield Academic Press, 1998.

Série Via Crucis, Fernando Botero.

Notas

 

  • 1
    SÁNCHEZ DE LEÓN, Carmenmargarita. Los múltiples cuerpos de Jesús. Revista internacional de Teología Concilium, nº 383, nov. 2019. p. 68.
  • 2
    Ver Paul B. Preciado (Manifesto contrassexual, 2014, Texto junkie, 2018).