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Estrada que o sobrenome esconde: estudos de gênero e religião

Estrada que o sobrenome esconde: estudos de gênero e religião

Virgínia Woolf quando convidada por uma universidade para falar sobre “Mulheres e a ficção” leva a tarefa a cabo e percebe que o tema possui uma profundidade de sentido que não é notada por quem o vê superficialmente. Para além de comentários sobre renomadas escritoras que se destacam na ficção como Fanny Burney, Jane Austen, George Eliot ou as irmãs Brontë, Virgínia Woolf se percebe na investigação do porquê desses nomes serem tão escassos nas prateleiras das bibliotecas ao mesmo tempo em que homens que demonstram o mínimo de apreço à escrita, ou menos que isso, publicam orgulhosamente seus rabiscos enquanto são nutridos de confiança e admiração. Homens que não têm nenhum talento surreal e se destacam puramente por não serem mulheres.

Seriam as mulheres naturalmente desinteressantes? Seriam incapazes de produzir verdadeiras obras de arte? Quando se lançava nesta busca, Virgínia Woolf percebia que muito se falava sobre as mulheres e sua natureza misteriosa. De deusas a loucas, estávamos constantemente no imaginário dos homens que sentiam uma vontade incontrolável de dizer o que nós somos. Do contrário, as mulheres não tinham o costume de tentar definir o que eram os homens, não parecia ser um objeto interessante de reflexão. Mas por que os homens escreviam tanto sobre as mulheres? Era notável que essa figura marcava as bibliotecas desde a antiguidade. Tinha-se “Clitemnestra, Antígona, Cleópatra, Lady Macbeth, Fedra, Créssida, Rosalinda, Desdêmona, a duquesa de Malfi, entre os dramaturgos; e entre os escritores de prosa: Millamant, Clarissa, Becky Sharp, Ana Kariênina, Emma Bovary, Madame de Guermantes” (WOOLF, 2014, p.67).

E por mais que, na ficção, as mulheres tomassem um lugar de protagonismo enquanto personagens, a realidade indicava uma outra direção.

Domina a vida de reis e conquistadores na ficção; na vida real, era a escrava de qualquer garoto cujos pais lhe enfiassem um anel no dedo. Algumas das palavras mais inspiradas, alguns dos pensamentos mais profundos da literatura vieram de seus lábios; na vida real, ela pouco conseguia ler, mal conseguia soletrar e era propriedade do marido.” (WOOLF, 2014, p.67)

O ponto mais importante do livro se trata da percepção da autora de que as mulheres não conseguiam escrever ficção como os homens porque não tinham o tempo necessário, o silêncio necessário, o espaço necessário, o dinheiro necessário e um teto todo seu em que ninguém lhes interrompia. Portanto, a questão que poderia perpassar a natureza da mulher e a natureza da ficção passava a ser da ordem prática da realidade. E percebia ainda que as obras escritas por mulheres eram deformadas pela ira que guardavam em si. Invés de escreverem sobre seus personagens, essa fúria explodia e falavam, em algum momento, delas mesmas nas obras.

Mas o que “Um teto todo seu” nos diz atualmente? Ora, o livro se trata de uma investigação a invisibilidade da mulher enquanto escritora. Invisibilidade essa que não deixou de existir nos dias atuais. Apesar da produção acadêmica se diferenciar da escrita de ficção, é possível perceber estruturas que auxiliam no apagamento das mulheres nas Universidades. Não aprofundarei aqui em questões abordadas por Virgínia Woolf como os percursos domésticos enfrentados pelas mulheres, sobretudo pelas mulheres negras que têm ou não filhos, mas é importante ter em mente que são barreiras bastantes concretas na realidade da pesquisa.

Assim como a pesquisa sobre “mulheres e a ficção” levou a autora a tentativa de entender as problemáticas que os dois temas traziam, me percebo no mesmo lugar enquanto pesquiso “gênero e religião” levando em conta um diferencial: a religião está diretamente relacionada à forma como os papeis de gênero são construídos na sociedade. Nos diz a cientista da religião Sandra Duarte de Souza que ela

ainda hoje, exerce uma importante função de produção e reprodução de sistemas simbólicos que têm influência direta sobre as relações sociais de sexo. As representações sociais acerca do homem e da mulher, portanto, não podem ser entendidas sem lançarmos o olhar sobre ela e sobre suas implicações na construção social desse homem e dessa mulher. (SOUZA, 2004, p. 124).

Apesar de gênero e religião por muito tempo serem usados para falar respectivamente de mulheres e catolicismo, ou outra religião cristã, — e confesso que assim o é por muitos na atualidade — os temas não são tão restritos quanto se pensa. Portanto, na relação entre gênero e religião a escrita não é, necessariamente, feita por mulheres1Nos meus estudos de gênero falo sobre mulheres, mas deixo aqui essa ressalva para aqueles que pensam que mulher e gênero são palavras diferentes para uma só coisa., assim como escritos sobre feminismo e religião também não o são necessariamente. Não obstante, essa tarefa foi atribuída às mulheres feministas que, problematicamente, se percebem em múltiplas jornadas de trabalho durante as pesquisas. “Nós somos as que militam, as que pesquisam, as que publicam, as que revisam, as que buscam recursos, as que promovem cursos e congressos dentro e fora da universidade, as que produzem vídeo etc.”(SOUZA, 2004,p. 128). Na mesma linha da obra já citada, a relação entre mulheres e a escrita sobre a religião se mostra complexa, e essa complexidade é que nos permite entender que o uso do gênero como categoria analítica é necessário para entendermos o papel da religião enquanto formadora de sujeitos e ideais.

O estudo “Religião e gênero: uma investigação do estado da arte dos estudos de gênero nos programas de pós-graduação em ciências da religião no Brasil” publicado na revista Mandrágora fez um levantamento do quadro de docentes mostrando o abismo entre o número de homens e mulheres nesta posição que revela certo poder dentro das instituições. Essa ausência influencia diretamente na produção que se tem a respeito dos estudos de gênero e religião dentro dos programas, visto que o mesmo estudo aponta que a maior parte das teses e dissertações que trazem essa abordagem (9% do total de teses e dissertações nas Ciências da Religião) são produzidas por mulheres — não é de se assustar que sejam, uma vez que esses trabalhos crescem dentro dos estudos feministas no Brasil.

O percurso trilhado por essas mulheres docentes e discentes, independentemente do foco de pesquisa, trazem um ponto em comum: as dificuldades de ser mulher e pesquisar, sobretudo quando a pesquisa trata religiões. Essas histórias individuais não são apresentadas nos nossos estudos. Saltam, às vezes, nas entrelinhas — o que Virgínia Woolf diz ser uma deformação no nosso trabalho — quando não trancadas nos bastidores da pesquisa ou no nosso sobrenome escrito com letras maiúsculas. Às vezes os nomes perdem as letras e são reduzidas a uma letra maiúscula e um ponto final, mas o nosso sobrenome — que geralmente herdamos do pai — permanece grande e em destaque, já que ele não revela o caminho que trilhamos para chegar até ali e iguala nossas histórias às dos nossos colegas que são citados da mesma maneira.

Quando leio as referências de um trabalho, não tenho dúvidas que SIQUEIRA; BORGES; FREIRE; FRANCO; NUNES; SOUZA tenham se esforçado para ocupar o espaço que ocupam, ou para serem reconhecidos através da citação. Mas tenho certeza que Giseli do Prado SIQUEIRA; Ângela Cristina BORGES; Ana Ester Pádua FREIRE; Clarissa de FRANCO; Maria José Rosado NUNES; Sandra Duarte de SOUZA e tantas outras encontraram obstáculos extras neste caminho, por isso, faço questão de apresentar seus nomes que guardam indícios dessa história.

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Notas

 

Referências 

ECCO, Clóvis; MARINHO, Thaís Alves; ARAÚJO, Claudete Ribeiro de. Religião e gênero: uma investigação do estado da arte dos estudos de gênero nos programas de pós-graduação em Ciências da Religião no Brasil. Mandrágora: história, gênero e religião, São Paulo, v. 24, n. 1, p.5-37, 2018.

SOUZA, Sandra Duarte de. REVISTA MANDRÁGORA: GÊNERO E RELIGIÃO NOS ESTUDOS FEMINISTAS. Estudos Feministas, Florianópolis, v. 12, p. 122-130, set./dez. 2004.

WOOLF, Virgínia. Um teto todo seu. São Paulo: Tordesilhas, 2014.

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    Nos meus estudos de gênero falo sobre mulheres, mas deixo aqui essa ressalva para aqueles que pensam que mulher e gênero são palavras diferentes para uma só coisa.