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Dezmandamentos: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão…”

Dezmandamentos: “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão…”

Quarto texto da série “Dezmandamentos”. Essa é uma série de conteúdo teológico e pastoral voltada para a leitura dos Dez Mandamentos a partir das experiências de dissidentes sexuais e de gênero. Para ler o terceiro texto, clique aqui.

Êxodo 20: 7 “Não tomarás o nome do Senhor teu Deus em vão; porque o Senhor não terá por inocente aquele que tomar o seu nome em vão.”

A primeira vez que vi Nancy Caroso1https://independent.academia.edu/NancyCardosoPereira pessoalmente foi no primeiro festival Reimaginar, que aconteceu em 2016, em Brasilândia.  Foram dias que transformaram a minha vida, porque, pela primeira vez, percebi que existiam outros progressismos cristãos fora do já tão limitado contexto das igrejas inclusivas. Diversas vozes evangélicas se ajuntaram para “reimaginar” a vida, dentre elas Nancy Cardoso, que, sem dúvidas, se destaca como sendo uma das principais vozes (e corpo!) evangélicas e ecumênicas da América Latina. Sua teologia feminista é de trânsito, de fronteira, de urgência. Em uma de suas participações nesse evento, Nancy usou a metáfora de Rubem Alves sobre as “duas caixas” para refletir a questão da água.

Rubem Alves, publicou na Folha de São Paulo2https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2704201003.htm um texto no qual dizia que o corpo carrega duas caixas: uma caixa de ferramentas e uma caixa de brinquedos. E ele usou a mesma ideia em seu livro “Variações sobre o prazer”3ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer. São Paulo: Planeta, 2014., ao explicar que existem duas feiras: a feira das utilidades e a feira da fruição. Utilidade e fruição são dois termos usados a partir de Santo Agostinho, que afirmou que as coisas se dividem em duas ordens distintas: a ordem do uti e a ordem do frui, ambos termos em latim. Uti significa o que é útil, utilizável, utensílio. Usar uma coisa é utilizá-la para obter uma outra coisa. Frui significa fruir, usufruir, desfrutar, amar uma coisa por causa dela mesma.

Rubem Alves afirma que as duas caixas existem – uma em nossa mão direita, outra em nossa mão esquerda. Entretanto, se faço o simples exercício de revisitar minha história na igreja, percebo, facilmente, que por muito tempo carreguei apenas uma das caixas nas mãos: a caixa de ferramentas. Caixa grande, pesada como um baú cheio de roupa mofada, daqueles que temos até medo de abrir por não saber ao certo o que ele esconde.

Por anos, minha experiência religiosa foi a experiência da caixa de ferramentas. Ir à igreja era visitar a feira das utilidades, que Alves mencionou. A experiência religiosa na feira das utilidades serve-se da fé. “O que eu quero que Deus me restitua? O que eu quero de volta que ‘satanás’ me roubou? Como Deus pode servir aos meus interesses? Quais são as curas que preciso?” … Essas são algumas das perguntas que orientavam minha experiência com Deus. Sair dos cultos com a caixa de ferramentas cheia significava achar na religião a utilidade tão necessária para uma “vida com propósitos”4Conceito amplamente divulgado no meio evangélico pela obra de Rick Warren, “Uma vida com propósitos: você não está aqui por acaso”, 2008..

A inutilidade da vida seria a expressão de uma vida em vão. E isso é pecado, afinal dizer o nome de Deus em vão é dizer o nome de Deus inutilmente. É claro que existe uma feira infinita de sentidos nessa afirmação… Uma das possibilidades seria compreender que, se Deus não quer que seu nome seja tomado em vão, ele não quer que seu nome seja tomado inutilmente, assim, Deus valoriza a utilidade das coisas, inclusive do uso do seu nome. Isso resume a relação com Deus a um grau de utilitarismo tal, no qual não cabe outra coisa que ouse fugir desse projeto. Eu sou útil ao plano de Deus e ele é útil para minha vida. Fim.

Esse processo de utilitarismo da fé pode ter um componente importante, que Nancy Cardoso chamou de “extrativismo erótico da religião”5https://www.youtube.com/watch?v=Q4KSUaCxjB8&list=PLHU7AZvhT2_SRI66Czh7L6ivIW1NEUFVN&index=3. Esse é o extrativismo no qual a experiência capitalista da religião sequestra nossa caixa de brinquedos, porque o inútil (ou seja, o “em vão”) está relacionado a uma forma capitalista de gestão das subjetividades. Nancy explica que a religião cria mecanismos de controle das experiências eróticas nas quais, por meio, por exemplo, de louvores apaixonados, acreditamos que estamos livres para expressar o erótico, mas, na realidade, o que acontece ali é a pacificação das nossas experiências eróticas.

Eu fui ministra de louvou por alguns anos. Não porque eu sabia cantar, confesso, mas porque minha pastora afirmava que eu sabia adentrar o Santo dos Santos. (Eu cantava até em hebraico! Mas, essa é uma história para outro texto). Os momentos de adoração na comunidade que fiz parte eram momentos de “intimidade com Deus”. Os cânticos espirituais ou espontâneos duravam horas e horas. Para Nancy “esses processos de louvor, de cantoria, são todos formatados para um papel que o capitalismo hoje reserva à igreja de extração da força erótica, sensual, criativa, libertária das pessoas no disciplinamento da espiritualidade (…)”6https://www.youtube.com/watch?v=Q4KSUaCxjB8&list=PLHU7AZvhT2_SRI66Czh7L6ivIW1NEUFVN&index=3. Esse é o “extrativismo erótico da religião”! A docilização dos corpos passa por processos litúrgicos que arrancam a caixa de brinquedos de nossas mãos e nos impedem qualquer acesso à feira da fruição. E, justamente sobre o controle dos corpos, Nancy poetizou:

Me ensinaram a sentar

sempre de perna fechada

etiqueta, selo, lacre

vão das pernas que nunca foi meu.

 

Me ensinaram a abri-las pra um homem

Aliança, cartório, meu bem!

Arrendada pra procriação.

 

Me ensinaram a ficar

sempre de boca fechada

Falar baixo, com jeito, graciosa

Virgindade nas cordas vocais.

Estupro, abuso, abandono

Balbucio monólogo aflito

Grávida de não saber dizer: não!

 

Kairós! Abro as pernas

A grande boca de pequenos lábios

E aborto por decisão.

 

Reassumo o vão entre as pernas

 leia também

Reforma agrária do meu próprio chão.

Gravidez?

 

Só em estado de graça

Nunca mais filhos de aflição

Mais que as pernas…

quero abrir minha boca

Estrear minhas cordas vocais:

Eis o tempo da salvação.7http://www.koinonia.org.br/tpdigital/detalhes.asp?cod_artigo=158&cod_boletim=9&tipo=Artigo

A poesia-profética de Nancy me chama atenção pelo uso do “vão” como territorialidade corpórea – “vão das pernas que nunca foi meu”. O “em vão” da imaterialidade do corpo, da caixa de ferramentas, da feira das utilidades, por meio de um jogo poético-erótico-linguístico, acaba se tornando “o vão” da materialidade do corpo, da caixa de brinquedos, da feira da fruição. É “no vão” que o “em vão” se torna potência libertária e salvífica!

Está aqui um dos “vãos” mais importantes para essa hermenêutica queer que estou propondo desde o primeiro texto da série: a desterritorialização das palavras, dos conceitos, dos significados. “O machado já está posto à raiz das árvores, e toda árvore que não der bom fruto será cortada e lançada ao fogo”, afirmou João, de acordo Lucas 3, 9. O enraizamento dos conceitos não garante a qualidade de seus frutos. É preciso mudar as árvores de lugar, permitir novas sementes de sentido, adubar a terra (de barro e de carne) com a potência erótica do cotidiano. É replantar no corpo, na vida, na experiência, os textos que foram apodrecidos na pavimentada tradição.

A ideia de uma desterritorialização eu apresento a partir de Marcella Althaus-Reid8ALTHAUS-REID, Marcella. Deus Queer. Rio de Janeiro: Metanoia, Novos Diálogos, 2019., que, por sua vez, usa os conceitos de desterritorialização e reterritorialização, a partir de Deleuze e Guattari. Esse é um princípio importante para minha proposta de leitura queer da Bíblia, porque permite deslocamentos inusitados, que promovem o encontro do texto com a vida em encruzilhadas de sentidos.

Aplicando esse método, o que é possível, então, se enxergar por meio do vão entre as tábuas dos Dez Mandamentos? Pelas fissuras das tábuas? O primeiro convite – de uma hermenêutica indecente9ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent Theology. London and New York: Routledge, 2000. de desterritorialização das palavras – é para um voyeurismo textual. Olhar pelo vão das tábuas, pelo vão do texto, pelo buraco da fechadura. O exercício erótico da hermenêutica é de espia da terra e dos corpos que manam leite e mel.

“Dezmandar” o terceiro mandamento é visitar a feira da fruição sem roupa de baixo10ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent Theology. London and New York: Routledge, 2000.. Afinal, “reassumir o vão das pernas”, como propôs Nancy, implica em reassumir a caixa de brinquedos que nos foi roubada pela violência ética e deserotizada da religião neoliberal. Nesse exercício de desterritorialização e voyeurismo hermenêutico, meu mandamento é “Tomarás o nome do Senhor teu Deus pelo vão”, afinal, uma espiada bem dada não somente lubrifica as tábuas, os buracos, os vãos, mas a própria caixa de brinquedos (eróticos!).


Notas

 

  • 1
    https://independent.academia.edu/NancyCardosoPereira
  • 2
    https://www1.folha.uol.com.br/fsp/cotidian/ff2704201003.htm
  • 3
    ALVES, Rubem. Variações sobre o prazer. São Paulo: Planeta, 2014.
  • 4
    Conceito amplamente divulgado no meio evangélico pela obra de Rick Warren, “Uma vida com propósitos: você não está aqui por acaso”, 2008.
  • 5
    https://www.youtube.com/watch?v=Q4KSUaCxjB8&list=PLHU7AZvhT2_SRI66Czh7L6ivIW1NEUFVN&index=3
  • 6
    https://www.youtube.com/watch?v=Q4KSUaCxjB8&list=PLHU7AZvhT2_SRI66Czh7L6ivIW1NEUFVN&index=3
  • 7
    http://www.koinonia.org.br/tpdigital/detalhes.asp?cod_artigo=158&cod_boletim=9&tipo=Artigo
  • 8
    ALTHAUS-REID, Marcella. Deus Queer. Rio de Janeiro: Metanoia, Novos Diálogos, 2019.
  • 9
    ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent Theology. London and New York: Routledge, 2000.
  • 10
    ALTHAUS-REID, Marcella. Indecent Theology. London and New York: Routledge, 2000.