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Religião e covid-19: a ascensão da busca pelo termo “oração” no google durante a pandemia

Religião e covid-19: a ascensão da busca pelo termo “oração” no google durante a pandemia
12 de junho de 2020 Hamilton Castro

Uma das funções sociais da religião é a nomização, isto é, a religião funciona no interior das sociedades como fornecedora de sentido e, nessa perspectiva, diante da pandemia causada pelo coronavírus, a religião pode ser manuseada para atender às demandas de produção de sentido por parte dos consumidores de religião e, assim, produzir uma sensação de controle diante de um momento marcado por profundas preocupações e incertezas.

Entretanto, vale salientar que a religião também pode funcionar como mecanismo de controle social, exploração e alienação, podendo, portanto, ser instrumentalizada para atender aos interesses ideológicos dos grupos sociais dominantes.

De acordo com Clifford Geertz em seu livro “A Interpretação das Culturas”, a religião é um sistema simbólico  que produz esquemas de concepções de uma ordem geral que orienta a existência. Assim, percebemos que a religião tem a ambição de apresentar explicações últimas sobre o mundo, conforme afirma Daniel L. Palls em seu livro “Nove Teorias da Religião”. Portanto, um dos interesses da religião é propor uma explicação que forneça um significado último, isto é, uma narrativa que traz no seu discurso uma ordem para o mundo social, pelo qual se opera a transfiguração das relações sociais em relações sobrenaturais, de acordo com Pierre Bourdieu em seu livro “A Economia das Trocas Simbólicas”.

A partir desse quadro, diante da pandemia causada pelo coronavírus, as pessoas passaram a sentir uma sensação de desordem social, provocada pelo aumento diário das mortes, perda de parentes, isolamento social, insegurança econômica e política. Tais acontecimentos passaram a fazer parte da realidade do brasileiro. Situações como estas, produzem um custo psicológico muito alto. Entretanto, quando as pessoas são colocadas diante de um sofrimento que não podem suportar, o mercado religioso disponibiliza  explicações, conhecidas como teodiceias no campo da Ciência da Religião.

Teodiceias são explicações religiosas ou politicas, conforme afirma Peter Berger em seu livro “Os Múltiplos Altares da Modernidade: rumo a um paradigma da religião numa época pluralista”. Na perspectiva religiosa, as teodiceias são explicações produzidas e consumidas por indivíduos que se encontram frente a frente com o problema do limite, ou seja, quando confrontados por diversos aspectos da vida humana que apontam para o limite e a fragilidade da nossa existência. Assim, as teodiceias funcionam como a legitimação religiosa dos fenômenos anômicos, isto é, as explicações religiosas possuem a função de estabelecer a fé diante de desafios significativos causados pelo sofrimento.

No Brasil, a religião tem uma  força social muito grande e a pandemia causada pelo coronavírus provocou um aumento pela busca da religião como fornecedora de sentido. Isso pode ser percebido na ascensão da busca pelo termo “oração” no Google, durante o período da pandemia. Afinal, nas palavras de Peter Berger no livro “O Dossel Sagrado”, o homem não pode suportar a solidão e não pode aceitar a ausência de sentido. Abaixo, temos uma imagem obtida no Google Trends que apresenta o aumento da busca pela palavra “oração” no Google de 2004 até 2020. Percebam o aumento do registro no atual período da pandemia:

Print de Tela do Google Trends realizado em 06/06/2020, 01h49 am.

No Brasil, a oração mais buscada no Google é “Maria Passa na Frente”, a busca pelo termo “oração” tem sido maior na região do Piauí. Diante desse quadro, partimos da seguinte hipótese; o aumento da busca pela palavra “oração” no Google, aponta para a necessidade humana de interiorizar uma sensação de controle diante do descontrole social e psicológico causado pela pandemia do coronavírus.

Em suma, diante do caos social, distanciamento social e do medo da morte, a religião tem sido um refúgio nomizador e simbólico para muitos brasileiros que se encontram no interior de suas casas. E assim, de forma online, a religião continua se adaptando e atendendo as diversas demandas de busca de sentido. Portanto, mesmo quando os agentes religiosos se encontram impossibilitados de realizarem o deslocamento até os seus espaços sagrados, podemos perceber a adaptação da religiosidade que se encontra em movimento nessa pandemia, confirmando as palavras  do cientista da religião Hans-Jürgen Greschat, religiões vivas mudam sem cessar.

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