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Os números da fé: o que (não) esperar nos próximos censos sobre religiões no país

Os números da fé: o que (não) esperar nos próximos censos sobre religiões no país
Victor Breno 8 de março de 2020

No último mês de Janeiro[1], o Instituto Datafolha publicou uma pesquisa que traz novos dados acerca das religiões no Brasil. O trabalho apresentou números importantes sobre as mudanças no quadro religioso do país – como se verá adiante. A divulgação trouxe o interesse e expectativa pela atualização das informações sobre o perfil e mudanças das declarações religiosas deste último decénio. Além desta, outra importante pesquisa será realizada ainda em 2020: o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE fará mais uma edição[2] do recenseamento demográfico a nível nacional e que incluiu, entre outros, um levantamento por amostragem aplicada por domicílios sobre “religião ou culto” dos brasileiros.

Flick Naiane Mello

Diante destas estatísticas que vão surgindo, por pesquisas recém realizadas ou em curso, algumas perguntas se colocam: Quais as características religiosas da população emergem/emergiram destes censos e pesquisas? Que implicações políticas, sociais e econômicas estes números terão sobre as próprias religiões, a sociedade e o Governo? Como influenciarão nossa cultura e as dinâmicas sociais, de uma forma em geral? Questões como estas levantam especulações acerca do que se pode ou não esperar destes trabalhos e sobre qual Brasil religioso se desvelara a partir deles.

Naturalmente, a tentativa de estabelecer uma previsão futurista a respeito desse quadro religioso que aparecerá correspondente à última década (e mesmo pensando nas próximas) é uma postura presunçosa e equivocada. Entretanto, as tendências em curso nos últimos anos e as informações recém disponibilizadas nos permitem tecer algumas perspectivas possíveis sobre quais cenários se apresentarão. Neste breve texto, sem nenhuma outra pretensão que não seja a de levantar umas poucas considerações sobre estes dados, buscaremos sugerir algumas possibilidades de interpretação sobre o que os números sobre a fé no Brasil parecem apontar – e também “desapontar”, para alguns.

Primeiro, faremos uma abordagem comparativa sobre os dados da pesquisa do Instituto Datafolha de 2020[3] e o último Censo do IBGE de 2010. Atentando para o caráter distinto de ambas pesquisas, em suas metodologias e proporcionalidades, e por esta razão considerando os limites dessa comparação, temos as seguintes informações:

 

Religião

2010

(IBGE)

2020

(Instituto Datafolha)

Católicos64,6%50%
Evangélicos22,2%31%
Sem-religião8%10%
Espíritas2%3%
Umbanda, candomblé ou outras religiões afro-brasileiras0,3%2%
Outras religiosidades2,7%2%

 

Os indicativos acima deflagram uma mudança significativa da identidade e perfil sociorreligioso da população brasileira que, não vem somente destes últimos anos, mas, que se acentuam sobremaneira neste decénio passado. Pode-se dizer que, a “cara” religiosa do Brasil não é mais a mesma, e, ao que se pode sugerir, continuará a mudar ainda mais. À luz dos dados acima e das tendências dos anos anteriores, sublinhamos alguns aspectos:

O catolicismo continua sua marcha de queda percentual, década após década, que se acentuou desde os anos 70. Esse declínio numérico da pertença é também acompanhada pela diminuição da sua influência na identidade cultural e social. Não que a fé católica perderá sua importância, lugar e relevância na sociedade brasileira, entretanto, sua capacidade de mobilização coletiva está enfraquecida em relação ao que já foi um dia. Mas isso está longe de significar o seu “fim”. Pelo contrário, certo projeto de reforma interna à cúria romana e sua estrutura partir do Papa Francisco e os movimentos de renovação carismática apontam para um certo tipo de revitalização do catolicismo na contemporaneidade.

Os evangélicos continuam a crescer, muito embora num ritmo menos acelerado do que em décadas anteriores. O crescimento desse grupo é complexo e antagônico, uma vez que esconde movimentos variados no seu interior. Enquanto os grupos protestantes tradicionais perdem fiéis, há também um pequeno decréscimo das denominações neopentecostais. O crescimento das ADs, maior denominação evangélica pentecostal do país, é menor do que em anos atrás e é acompanhado por uma fragmentação interna enorme. Além desses, cresce consideravelmente o número de comunidades evangélicas independentes de origens pentecostal, segmentadas para estratos e públicos os mais distintos.

O aumento dos sem-religião é um dado que merece atenção. É o segundo grupo que mais cresce a décadas de acordo com os censos, apontando para o aumento proporcional do número de indivíduos que não se identificam com nenhuma tradição religiosa ou que cultivam algum tipo de espiritualidade à parte das instituições constituídas. Ele evoca uma tendência à destradicionalização religiosa, um individualismo acentuado e recomposições da religiosidade sob novas formas.

As religiões afro-brasileiras tiveram índices de declaração muito mais elevados do que aqueles indicados pelo censo IBGE 2010. Veremos se essa projeção se sustentará e corresponderá em números gerais da população no próximo censo. O fato é que a maior liberdade religiosa no país favorece a auto-declaração de grupos minoritários que, por diversos fatores. E a “universalização” da umbanda e candomblé, bem como adesão de grupos não ligados à tradições étnicas, implicará também num certo aumento. Sobre as “outras religiosidade”, verifica-se uma queda nas declarações que exigirá aguardo das pesquisas futuras e análises para averiguação do fenômeno. Uma das hipóteses possíveis está ligada ao fato de que estas religiões são compostas marjoritariamente (mas não de modo exclusivo) a descendentes e grupos étnicos (como o judaísmo, islamismo e hinduísmo), com pouca adesão da população em geral. O que pode indicar um efeito “platô” dessas filiações que vão se limitando à tais grupos, proporcionais ao seu contingente populacional.

Em vista à estas considerações gerais e breves, o que se pode (ou não) esperar dos próximos censos sobre religiões no país?

O que esperar?

– O declínio de um tradicionalismo religioso (exemplificado no declínio do catolicismo e no crescimento dos sem-religião, ligado ao aumento da individualização da escolha pessoal em matéria de religião) e uma maior desregulação do mercado religioso, com cada vez menos monopólios e maiores concorrências entre instituições/grupos.;

– Uma pulverização do campo religioso expresso na diversificação de novas formas de comunitarização, segmentação por grupos de interesse, emergência de grupos alternativos e surgimento de igrejas autônomas das grandes corporações religiosas já consolidadas;

– Apesar dos casos de intolerância, com uma maior situação de liberdade religiosa no país, populações religiosas minoritárias que por diversos fatores tinham dificuldades em se auto-declararem como membros de seus grupos, agora terão mais condições de fazerem sua afirmativa, o que se verifica de certa maneira já na pesquisa citada;

– Os dados acima comparados indicam uma complexificação ainda maior da realidade das religiões no Brasil, em suas dinâmicas e mutações, reiterando uma transição no perfil e práticas da crenças, específicas da nossa modernidade religiosa;

 

O que não esperar?

– Apesar do crescimento da quantitativo da diversidade de cultos e práticas religiosas no Brasil, ao que indica, não haverá um aumento qualitativo significativo da pluralidade religiosa, perpetuando um tipo de diversidade relativa ao campo cristão, especialmente entre as denominações evangélicas;

– Devido à complexidade da religiosidade e cultura brasileira, bem como limitações no refinamento e detalhamento das técnicas e metodologias do censo, das quais uma pesquisa nas proporções de uma pesquisa nacional não é capaz de fazê-lo, informações sobre o sincretismo, múltipla pertença, trânsito e outros temas associados não terão como ser captados;

– Não se deve esperar todavia uma inversão drásticas das principais tendências em curso nos últimos anos – com variáveis certamente fundamentais, mas sem alterações substantivas em boa parte do que foi destacado nos pontos anteriores. Ao mesmo tempo, lembrar que a dinâmica religiosa está, como parte imponderável das mutações sociais e culturais, exposta igualmente a fatores excepcionais que podem surgir e que não estão sendo devidamente notados, de modo a produzir inovações e realidades inesperadas.

O que os dados do Insituto DataFolha e do IBGE 2020, revelarão sobre as religiões dos brasileiros? Não há como fazermos descrições exatas. Enquanto os grupos religiosos se ufanizam ou se lamentam pelos números revelados nos censos, do ponto de vista da pesquisa científica, é momento de cautela. Sobretudo, de aprimorar metodologias e teorias, a partir de outras fontes e empirias, no intuito de tanto quanto seja possível, buscar captar os fenômenos em curso. Por hora, nos resta aguardar para os próximos tempos (anos) os resultados destas pesquisas censitárias em andamento, por vários órgãos e instituições, de modo a termos dados estatísticos mais concretos com os quais possamos trabalhar na elucidação das mutações e dinâmicas do cenário religioso brasileiro contemporâneo.

 

Notas:

[1] Publicado em 13/01/20. Acesso em: <https://www1.folha.uol.com.br/poder/2020/01/cara-tipica-do-evangelico-brasileiro-e-feminina-e-negra-aponta-datafolha.shtml>

[2] Desde a década de 1940, os recenseamentos são realizados a cada 10 anos. A coleta das informações para o censo se dará entre os meses de Agosto a Outubro de 2020. Acesso em: <https://www.ibge.gov.br/estatisticas/sociais/populacao/25089-censo-1991-6.html?=&t=o-que-e>

[3] A pesquisa do Instituto Datafolha foi feita entre 5 e 6 de Dezembro de 2019, a partir de 2.948 entrevistas realizadas em 176 municípios do território brasileiro (e que segundo o próprio, contém uma margem de erro de 2 pontos percentuais para mais ou para menos, com nível de confiança em torno de 95%).

 

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