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Os 503 anos de uma reforma inacabada e insuficiente.

Os 503 anos de uma reforma inacabada e insuficiente.
31 de outubro de 2020 Leonardo Gonçalves de Alvarenga

Imagem por fsHH do Pixabay

Não é hora de ficar repetindo fórmulas: Sola Fide, Sola Gratia, Sola Scriptura, Solo Christus, Soli Deo Gloria. Isso é pura fachada e pura vaidade. Características de uma religião retro. Na França, a palavra “rétro” é uma abreviação para rétrospectif e virou moda cultural. O impacto desse modismo “rétro francês” da década de 1970 foi reavaliado nos cinemas e em novelas e teve por tema a conduta dos civis franceses durante a ocupação nazista. Aplicado ao que pode ser chamado de moda nostálgica francesa, o termo rétro passou então a ser uma recordação desse mesmo período. O sociólogo e teórico francês, Jean Baudrillard (1991), foi um dos que discutiu o assunto. Ele descreveu “rétro” como uma desmitologização do passado, distanciando do presente às grandes ideias que levaram a “idade moderna”, ou seja, um passado fora do seu contexto. O sociólogo francês acredita que essa explosão retrô que vivemos tem a ver com um grande trauma causado pela enorme perda de fortes referenciais. O sentido deste passado no presente não tem uma função inspiradora que seja suficiente para determinar o comportamento e escolhas dos indivíduos e da sociedade. O passado é decorativo e assume um papel mitológico, de algo que se perdeu e só possui um valor mercadológico e nostálgico, o passado está vendendo mais que o futuro. Observamos a comercialização do passado e isso fica evidente nos filmes de Quentin Tarantino. Seus filmes são como indústrias de memória, arquivos da história do cinema (Garcia, 2011). O uso do retrô possui também uma relação com a noção de indústria cultural, desenvolvida por Adorno e Horkheimer. Para eles a arte havia se transformado em consumo industrializado e, como tal, padronizado, como tabletes de chocolate ou qualquer outro tipo de produto da indústria (Adorno, Horkheimer, 1985). A reforma protestante não passa de um mito, que não faz sentido no presente, a não ser como objeto de comercialização. Isso me faz lembrar uma visita que fiz em 2017, ano do jubileu da Reforma Protestante, a Lutherstadt Wittenberg, cidade de Lutero. Famosa por ter sido palco do movimento protestante em que Martinho Lutero pregou as 95 teses na porta da Igreja do Castelo (Schlosskirche) em 1517. A pequena cidade lucra com o acontecimento histórico e imagem do reformador de Eisleben. Enquanto se prega as cinco Solas, o presente e as demandas de sentido ficam esquecidas. Recorre-se a uma tradição que embora tenha seu valor não foi atualizada e não responde mais muitas questões de nosso tempo. Se antes havia um monopólio da Igreja Católica, a qual se pretendia reformar, hoje existem vários grupos evangélicos disputando narrativas, até mesmo no cenário político. Tão dogmáticos quanto a Igreja do século XVI, embora sejam tão diferentes em suas formulações. Como se tem dito por aí, uma nova declaração precisa ser feita e com direito a um neologismo e um toque de ironia: Solamentus. Só lamento que as igrejas, em sua maioria, tenham parado no tempo, isto é, no século XVI. Só lamento que sob o discurso de que a Palavra de Deus é inerrante, tenha-se renunciado o conhecimento, a criatividade e a liberdade de pensar. Só lamento que no século XXI não tenha novas “fórmulas” com prazo de vencimento para estampar não digo na porta de nenhuma igreja, mas nos postes, em redes sociais, em revistas etc. Só lamento que ainda se tenha que recorrer a termos pejorativos como “herege”, “liberal”, para desqualificar quem quer que seja. De minha parte, recebo como elogio. Só lamento que a inquisição ainda seja uma realidade em nosso meio, mesmo que sem fogueiras (Araújo, 2010). Só lamento que pessoas ainda sejam excluídas de um espaço que deveria ser de acolhimento, por sua cor, por sua opção sexual e pasmem, por pensar diferente. Só lamento que no fim de tudo isso a cantoria de Belchior ainda reflita a realidade: “ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais”. Só lamento que ainda hoje tenha quem não veja a reforma do século XVI como inacabada e insuficiente, principalmente para o século XXI.

Referências:

ARAÚJO, João Dias de. Inquisição Sem Fogueiras – A História Sombria da Igreja Presbiteriana do Brasil – 3ª Ed. Fonte Editorial, 2010.

GARCIA, Janaina Pires. O passado fora do seu contexto: a estética retrô no cinema. Disponível em: http://www.educacaopublica.rj.gov.br/cultura/cinema_teatro/0076.html.

BAUDRILLARD, J. Simulacros e Simulação. Lisboa, Relógio d’Água, 1991.

BELCHIOR, Antonio Carlos. Como nossos pais. Disponível: https://www.letras.mus.br/belchior/44451/.

ADORNO, T.L.W; HORKHEIMER, Max. Dialética do esclarecimento: fragmentos filosóficos. Tradução de Guido Antonio de Almeida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1985.

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