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O vírus e a aceleração dos processos religiosos

O vírus e a aceleração dos processos religiosos
8 de setembro de 2020 Victor Breno

A convergência entre certas condições sociais e fatores históricos podem favorecer, em determinados momentos, processos daquilo que chamaremos de “aceleração” das transformações religiosas. Os estudos em sociologia e história das religiões mostram como desde os tempos mais remotos até os nossos dias, houveram tais circunstâncias que acabaram por provocar profundas mudanças, gerando um processo duplo de decomposição/recomposição das ideias e práticas religiosas – como destacaram, por exemplo, os trabalhos[1] do romeno Mircea Eliade, do francês Yves Lambert e do belga Julien Ries.

Na atualidade, em função das múltiplas crises (sanitária, política, econômica, psicológica, etc.) desencadeadas pela pandemia da COVID-19, parece haver um destes momentos onde a confluência de uma série de variáreis proporciona uma disruptura no ritmo regular da “vida religiosa”, gerando um aceleramento de certos processos. Nestas condições, podem ocorrer a precipitação de mudanças que, em cenários relativamente estáveis, demorariam mais para ocorrer. Quais alterações estes processos geram? São provisórios ou permanentes? De que forma afetam cada religião em particular? Não há como precisar, todavia, respostas à estas questões. Entretanto é possível perceber e destacar alguns elementos em curso durante esse período.

Isolamento social obriga práticas religiosas dentro de casa (Foto: Douglas Caputo)

Foto: Douglas Caputo

Umas das mudanças religiosas geradas por esta aceleração durante a pandemia, tem sido o processo de acentuamento da midiatização da religião. Em função do isolamento social, praticamente todos os grupos religiosos tiveram de fazer um “upgrade”: passaram das reuniões presenciais às reuniões virtuais. “A gosto ou contragosto”, católicos, evangélicos, espíritas, religiões afro-brasileiras, budistas, etc., foram afetados. Reuniões on-line, lives, grupos de transmissão em redes sociais, entre muitos outros, tornaram-se a única estratégia possível de boa parte destas religiões.

Muito embora esse processo de midiatização do religioso não seja algo recente, remontando pelo menos a segunda metade do século XX, durante a pandemia, este se impôs como uma situação irremediável. Nesta realidade imposta, as religiões tiveram de rapidamente adaptarem-se as novas circunstancias de produção religiosa no mundo virtual. Como abordaram autores dedicados ao estudo das relações entre mídias e religiões[1] – para citar alguns: o brasileiro Luís Mauro Sá Martino, o francês Jean- Paul Willaime e o norte-americano Stewart Hoover – esse binômio não aponta apenas para a compreensão acerca do lugar da religião na mídia ou da mídia na religião, mas, sobretudo, que tipo de religião emerge da mídia. Em outras palavras, a midiatização religiosa promove uma nova construção cultural da religião, gerando espaços de reinvenções dos tipos de identificação e das formas de socialização entre os indivíduos e instituições.

Nesse sentido, a midiatização religiosa como o front desse processo, traz a reboque outros movimentos típicos da condição moderna: individualização das crenças, desregulação institucional, mobilidade das pertenças, mundanização dos interesses religiosos, etc. Como se da a “busca” por religião durante esse tempo e quais são alguns os seus aspectos?

O crescimento da search (busca) por “Deus” em tempos de religião virtual e algumas possíveis implicações

Em consultas feitas no Google Trends[2] sobre os índices de pesquisas no buscador do Google e do Youtube  a respeito de palavras-chave ligadas à religião (como: “religião”, “Deus”, “culto/missa – online”, entre outros relacionados), revela-se um crescimento bastante elevado da procura por bens e serviços religiosos virtuais durante os principais meses de isolamento social gerado pela pandemia. A crise, de um ponto de vista mais amplo, gerou uma demanda religiosa num contexto marcado por inseguranças, perdas, conflitos e transtornos. Houve, portanto, um aumento da oferta religiosa, e essa, midiatizada.

Quais processos de mudanças a midiatização religiosa, gerada pelas condições distuptivas da atualidade, tem acelerado no contexto do campo religioso brasileiro contemporâneo? Destacaremos alguns pontos:

  • “Customização” da busca religiosa em função das preferencias e gostos individuais do fiel-espectador;
  • Acentuamento da virtualidade da socialização e comunitarização dos vínculos religiosos entre os indivíduos e as instituições;
  • Aumento de um trânsito religioso virtual, agora não mais somente relacionado à mobilidade espacial-geográfica, mas principalmente entre as variadas e diferentes ofertas religiosas disponíveis apenas a um “click”;
  • A espetacularização da liturgia religiosa das reuniões em função dos ajustes necessários à um “culto/missa” mais adequado ao formato virtual;
  • Uma necessária qualificação técnica por parte dos agentes religiosos (padres, pastores, etc.) para desenvolver competências e ferramentas de comunicação eficiente no meio virtual;
  • Concorrência entre os diversos grupos religiosos, especialmente entre os evangélicos, de disputarem maiores audiências em suas transmissões on-line diante de uma diversidade de programações;
  • Relativa flexibilização (dessacralização?) das ideias de lugar e tempo sagrado tradicionais de certas religiões, a partir da possibilidade de acesso ao religioso em dias, horários e lugares à critério do fiel-espectador;
  • Crescimento de influencers religiosos (alguns líderes de comunidades locais e outros freelancers) que, em função de suas competências pessoais e carismáticas, conseguiram arregimentar grandes públicos de espectadores para além de seus grupos locais e denominacionais;
  • A formação de um sujeito religioso virtual, desvinculado de pertenças comunitárias concretas e de dogmas comunitariamente pré-estabelecidos, gerando uma fluidez e porosidade religiosa ainda maior;

Todos estes aspectos, gerados pelos processos de aceleramento de mudanças religiosas, produziram resultados ambíguos. De um lado, favoreceram alguns grupos e, por outro, prejudicaram os demais. Perceber-se que certos segmentos religiosos que estavam em franco crescimento relatam quedas na frequência litúrgica e na arrecadação, enquanto outros, ao adaptarem-se melhor a estas necessidades, indicam um aumento de seguidores e de influencia cultural-religiosa. Em vista estas questões, tornam-se necessários mais estudos para o aprofundamento destes fenômenos e seus efeitos, a curto, médio e longo prazo.

A pandemia se apresenta como um “laboratório” de modernidade religiosa no país. Compreender o comportamento das religiões, antes, durante e após a pandemia, será de fundamental importância para desvelar os sentidos e direções das mudanças religiosas geradas por estes fatores sociais e históricos contingenciais. Dessas análises, teremos possivelmente um horizonte das tendências religiosas que irão deixar de existir, surgir ou se remodelarem para os próximos anos.

[1] MARTINO, Luís. The mediatization of religion. Londres: Routledge, 2016; HOOVER, Stewart. Media and the construction of the Religious Public Sphere. In: HOOVER, S.; LUNDBY, K. Rethinking media, religion, and culture. Londres: Sage, 1997; WILLAIME, Jean-Paul; BRÉCHON, Pierre (dir.). Médias et religions en miroir. Paris; Presses Universitaires de France, 2000.

Notas

[1] ELIADE, Mircea. História das crenças e ideias religiosas (3 vols.). Rio de Janeiro: Zahar, 2010; LAMBERT, Yves. O nascimento das religiões: da pré-história às religiões universalistas. São Paulo: Edições Loyola, 2011; RIES, Julien. O sagrado na história religiosa da humanidade. Petrópolis: Editora Vozes, 2017.

[2] Diponível em: https://trends.google.com.br/trends/?geo=BR>.

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