Esse tal Jesus da gente: uma reflexão sobre a necessidade de representatividade

Esse tal Jesus da gente: uma reflexão sobre a necessidade de representatividade
Sandson Rotterdan e Jonathan Félix De Souza 27 de fevereiro de 2020

“Lembra-te que és pó e ao pó voltarás.” Escrevemos este texto no dia em que, institucionalmente, se inicia o grande retiro quaresmal, que pretende preparar cristãos de diversas denominações para Páscoa. Pensando nas cinzas, depois de acompanhar de maneira próxima pessoas que desfilaram na Mangueira, após ler o texto que nosso colunista André Musskopf escreveu para a Senso que reagimos ao desfile da Estação Primeira.

Queremos dividir o presente artigo em três breves pontos. No primeiro queremos tratar do senso religioso presente no desfile da  Mangueira. Talvez tenhamos vestígios, cinzas de o que o cristianismo foi, mas também, em um segundo ponto, as potencialidades de o que ele ainda pode ser. Em um terceiro momento, tratar, apesar de lidarmos razoavelmente bem com a diversidade, das dificuldades de lidar com as diferenças.

Em primeiro lugar, sobre o que chamamos de senso religioso é importante ressaltar que percebemos que a religião, no processo de secularização, já não tem a força que tivera. As pessoas, geralmente, se orientam a partir de vestígios da religião que escolhem para si mesmas como forma de viver sua espiritualidade, independentemente das instituições religiosas. Uma escola de samba levar para a avenida um tema religioso, em alguma medida, demonstra que a separação entre sagrado e profano não mais é uma barreira intransponível, que a religião não mais consegue, por mais que queira, proibir desfiles de carnaval. A escola não leva a instituição, mas vestígios da religião para o desfile.

Em segundo lugar, é importante refletir que,  em tempos como os nossos, no qual o moralismo mais tacanho, mesclado com consideradas gotas de fascismo, perdeu a vergonha de se manifestar, a escola propor um Jesus periférico, jovem, negro, de cabelo platinado, mulher é algo que nos leva a perceber que esse vestígio de religião tem um potencial libertador e humanizador. A escola de samba traz para o carnaval o que várias comunidades de base, grupos de pastoral social católica, grupos protestantes refletem há décadas: um Jesus in-carnado na vida do povo, uma cristologia pensada desde a humanidade para, posteriormente, se compreender algum traço da divindade. Esse vestígio de cristianismo, ou um cristianismo não religioso, se mostra livre das instituições. Não se pediu bênçãos e autorizações das autoridades eclesiásticas com traços inquisitoriais. A Mangueira apostou na kenosis, o auto rebaixamento de Deus, para incluir Deus na humanidade e a humanidade em Deus.

Em terceiro lugar, há que se perceber que, com todo esse potencial libertador, faltou ousar um pouco mais e, para além da diversidade, assumir a perspectiva da diferença. Após o êxtase do desfile, uma das primeiras reações que vi ao desfile da escola foi o da reverenda Alexya Salvador, pastora trans da Igreja das comunidades metropolitanas. A revedrenda, no início do desfile, já apontava que, dentre as lideranças religiosas convidadas pela Estação Primeira para abrir o desfile, todas eram cisgênero. (aqui cabe uma digressão: o Brasil é o país que mais mata pessoas trans).

Além da ausência dessa representatividade, Jesus apresentou no desfile rostos diversos, mas não apresentou o rosto da diferença. Segundo Ricardo Miskolci, no livro Teoria Queer: um aprendizado pelas diferenças,  “a retórica da diversidade parece manter intocada a cultura dominante, criando apenas condições de tolerância para os diferentes, os estranhos os outros.”  . Progressistas que somos, até aceitamos que Jesus tenha um rosto pobre, negro, índio e de mulher, mas que seja decente, aceitável, de corpo cobert e unhas discretas, pois isso não afeta as relações de poder daqueles que se constituíram como norma.

Quanto aos LGBTQIA+ há a ala da Maria Madalena: alguém vai tacar pedra? Sim, as pessoas tacam pedras e, por isso, seria tão importante a representatividade de um Jesus trans, sapatão, viado, queer, estranho, diferente. Vale recordar que colocar LGBTQIA+ tendo como referência um texto que, tradicional equivocadamente, identifica a apóstola Maria Madalena como a mulher adúltera, pode reforçar o estereótipo de pecado sexual que envolveria as pessoas LGBTQIA+.

O texto publicado pelo André Musskopf gerou muitas reações publicadas em redes sociais. Em sua maioria, não reconhecem a necessidade de representatividade de quem ainda leva muita pedrada por seu corpo não se adequar à norma. Alguém chegou a escrever que um Jesus trans seria escandalizar por escandalizar, ou que em um desfile de escola de samba não dá para fazer um tratado completo, totalizaste de cristologia.

Particularmente, pensamos que a Mangueira não queria fazer um tratado completo de uma cristologia libertadora,  ou mesmo que queria ou deveria fazer uma catequese. Mangueira fez carnaval com vestígios da religião cristã, mas nesses vestígios há ainda muito dogmatismo e moralismo, uma vez que não se aventura pela diferença, pelo reconhecimento de outros rostos machucados pela violência da metafísica, que impõe maneiras de ser e pensar.

Viva a Estação Primeira que nos traz, com seu samba, um Jesus da gente, mesmo na quarta feira de cinzas, quando ainda reverberamos reflexões!