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Deus morreu – de nOvO

Deus morreu – de nOvO
23 de fevereiro de 2021 André S. Musskopf

Imagem de Free-Photos do Pixabay

Eu geralmente penso sobre mim mesmo como uma pessoa otimista – mais em relação ao mundo do que a mim mesmo, é verdade. Nesses tempos, no entanto, está difícil manter algum otimismo com relação a qualquer coisa.

Pode ser efeito da pandemia e do isolamento social, da continuidade de um governo absurdo em meio a essa mesma pandemia ou até aquelas pequenas mudanças comemoradas que não mudam nada e só garantem a manutenção do mesmo. Pode ser um monte de outras coisas também.

O meu otimismo, geralmente, vem de questões até bastante corriqueiras: um governo construído com equidade de gênero aqui; um movimento social que ganha força e visibilidade ali; uma história que subverte a lógica da violência e da injustiça acolá. Suspiros em meio a tanto motivo pra des/esperar.

Pode ser que seja efeito de uma atenção maior ao que circula nas mídias hegemônicas (incluindo as redes sociais) ou o fato de que esses meios ocuparam um lugar mais preponderante no contexto da pandemia e todo o resto. Nem os memes e as figurinhas têm me divertido mais. Tudo com gosto de velho e cheiro de velório. Suspeito que Deus morreu – de novo.

As múltiplas formas de genocídio e extermínio geradas pela máquina moedora do capitalismo neoliberal sem dúvida seriam suficientes para afirmar sua vitória sobre Deus. Afinal, não custa perguntar: onde está ele (ou ela) no meio de tudo isso? Mas nem o “ele ou ela” me bastam para guardar um rasgo de esperança. Anseio por uma ressurreição miraculosa, mas nem sei se isso é de ser.

Não é que o sujeito com nome próprio tenha desaparecido. Atestado está que ele está em todos os lugares como uma promessa colonial de onipresença infernal. Ele escorre pelas bocas de poderosos podres poderes e algumas pessoas se convencem de que é o mesmo que se esgueira pelos gemidos de quem sofre. E esses e essas, aqueles e aquelas que sofrem, são mais uma vez crucificados e crucificas por suas crenças absurdas de quem já perdeu a esperança faz tempo, mas ainda não se deu conta.

Ciência! Gritam alguns e algumas como se até anteontem não estivéssemos em direto enfrentamento com essa divindade e suas formas de epistemicídio. É preciso acreditar. Mas ciência sem justiça é indústria farmacêutica e mercadologização da vida em planos de não-saúde. Democracia! Gritam outros e outras, articulando alianças para as próximas eleições… e as próximas… e as próximas. Nossos sonhos não cabem nas urnas.

Em nome do método científico e das instituições democráticas deixam Deus agonizando no sofrimento das pessoas empobrecidas, vulneráveis, oprimidas e excluídas dos grandes sistemas que fazem o mundo – e a bolsa (de valores) – girar. Até na prostituição invocam uma metafísica desconhecedora da realidade de quem troteia nas ruas e cabarés para ganhar a vida. Riem e apedrejam para esconder sua própria perversão monetária e seu sadismo não consentido.

Do lado de cá, de quem ousa mexer com as coisas de Deus e cobrar explicações quando ele mesmo parece se voltar contra nós, também não há muito pra dar. Aqui gritam fundamentalismo! conservadorismo! como se não fossem, também, algozes de Deus, jogando as últimas pás de cal. Na versão acadêmica ou na versão dogmática aqueles e aquelas que mexem com religião se unem à gritaria que não deixa ouvir o grito de quem carrega Deus na boca pra não morrer de fome, de doença, da loucura total. Todos os dedos apontados.

Não é à toa que um padre com uma marreta na mão, um pedido de impeachment por um grupo de lideranças religiosas e uma campanha que conclama à fraternidade e ao diálogo proposta por uma entidade abandonada pelos grandes homens da religião sejam alguns poucos lampejos capazes de comover alguns e algumas. Se não acabaram de matar Deus, ele (ou ela) seguramente está pela hora da morte.

O colonialismo denominacional segue disputando territórios que já não são seus – se é que um dia foram – numa briga coronelista para tentar manter os seus feudos, se adaptando aqui e ali para que suas cercas não sejam definitivamente derrubadas pelos megaempreendimentos da fé. As teologias, inclusive as ditas progressistas, apenas repetem algumas verdades teológicas eternas de um Deus de misericórdia e justiça que não seriam capazes de reconhecer se dessem de frente com ele (ou ela). As ciências da religião desdobram-se em desvendar o fenômeno da religião sem ser capazes de produzir uma crítica que pelo menos tire Deus da UTI, mas o mantem conectado a aparelhos que a gente não sabe se só mantem vivo ou sugam o resto de vida que há.

Abandonadas e abandonados por qualquer possibilidade de Deus que foi sequestrado, torturado e morto, estamos todos e todas nos digladiando numa arena da qual ninguém sairá com a vitória – ou numa casa vigiada por câmeras 24 horas por dia para benefício de quem lucra com o espetáculo de quem acredita que será recompensado ou recompensada com fama ou dinheiro. O público, cruel e incapaz de compreender as múltiplas facetas e trajetórias que formaram cada um e cada uma de seus participantes e a complexidade de seus encontros e reações, segue a sanha de um linchamento por semana. Especialmente se forem pessoas pretas, pobres, mulheres, viados e outros exemplares diversos da fauna e da flora que arde em chamas.

Ah como eu queria um pouco daquele Deus e daquela religião de quem não tem o luxo dos pequenos privilégios burgueses ou das grandes fortunas não-taxadas que sustentam o Deus dos poderosos e suas liturgias controladoras. Um pouco daquela mistura de reza sussurrada, promessa de se cumprir, louvor gritado, banho de ervas e correntinha da sorte. Pode juntar aí uma benzedura, um chá de acalmar os nervos e um incenso de purificar as energias, uma simpatia qualquer pra amolecer a vida. Se tiver vacina, vaga no hospital e oxigênio no posto a gente tamo aceitando também.

Tudo isso misturado com o afeto que nos resta, um beijo roubado ou um encontro casual (a despeito de todos os protocolos de segurança) já me fariam voltar a crer em algo que não estivesse morto ou pra morrer. No encontro da fé e do sexo a política e a economia produziriam fantasias ininteligíveis e Deus brincaria de esperança até o enterro dos ossos e o dia das cinzas não pareceria interminável. O classismo, o racismo e o heterossexismo seriam os últimos resquícios de um outro Deus agonizante, aquele monstro grande que pisa forte, com seu joelho que não deixa respirar.

Seguramente as teologias e as ciências não dariam conta desse Deus e dessa religião e os chamariam de fake news por preguiça ou senso de superioridade. Pois esse Deus e essa religião escapam do aprisionamento de seus cânones e insistem em soprar vida, ali onde ela está mais ameaçada, às vezes somente como alívio momentâneo. Mas conscientes, entendidas no assunto, e capazes de análises rebuscadas acabam por assassinar o seu próprio objeto de estudo, interditando a vida que pulsa em resistência.

Eu quero ficar em silêncio. Ouvir, sentir e perceber a promessa da religião e da teologia das pessoas feitas pobres num mundo de ostentação. Eu quero reconhecer o fracasso das instituições e dos métodos e saber o que não faz sentido. Eu quero menos respostas e mais perguntas; menos monólogos-monoculturas-monótonas; menos pirâmides e mais rodas. E Deus se fazendo nos encontros de quem não tem o que perder.

Só por hoje – e talvez amanhã – eu preciso acreditar que Deus está morto. Quem sabe assim, amanhã, ou depois, ele volte a soprar na minha nunca me causando arrepios de graça que ajudem a suportar toda essa feiura de um mundo abandonado por Deus e confessando em meu ouvido que morreria de amor por mim mesmo diante de todo o ódio com o qual me deparo todos os dias. E seu nome seria qualquer.

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