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Carnaval e Espiritualidade: “A verdade vos fará livres”

Carnaval e Espiritualidade: “A verdade vos fará livres”
Jonathan Félix e Marcelo Barros 3 de fevereiro de 2020

No Carnaval de 2020, essa palavra de Jesus no evangelho (Jo 8, 33) vai ressoar em tom de samba-enredo de escola de samba e, a partir do Sambódromo, vai ganhar o mundo inteiro pela voz da Mangueira, a escola da Estação Primeira que mais uma vez une a defesa da vida à alegria e ao direito do povo brincar.

Fonte: Mangueira

De acordo com o carnalesco Leandro Vieira, a intuição dos compositores foi imaginar Jesus voltando ao mundo nos dias de hoje, vindo do Morro da Mangueira. Para quem crê, nem se trataria de uma volta, já que cremos em sua presença oculta, como Ressuscitado. Seria uma manifestação visível. O objetivo dessa nova intervenção de Jesus seria protestar contra o extermínio que continua se abatendo sobre muitas pessoas nas comunidades. Todos sabemos que, diariamente, no Brasil, está ocorrendo nas periferias de nossas cidades um verdadeiro genocídio, que assassina principalmente jovens, a maioria negros e pobres.  A cada dia, são 63 rapazes trucidados. Um a cada 23 minutos.

A letra da música começa como uma oração para Jesus, mas, de repente,  se torna palavra do próprio Jesus, cantada na primeira pessoa, dirigida à Mangueira e ao povo do Carnaval. Assim sendo, se constitui como uma canção profética. É expressão e vivência de uma espiritualidade encarnada e cotidiana, que acontece no chão da vida a partir dos que sofrem e são cotidianamente silenciados. A música revela um Jesus que está lado a lado e não acima de nós, como dizem por aí. Jesus nos revela um Deus que nos acompanha na vida, “pega a visão” e anuncia que não tem futuro sem partilha e comum(unidade). Por isso, ele se apresenta como o Jesus da Gente, natural da estação primeira de Nazaré, rosto negro, sangue índio e corpo de mulher. Que maravilha de apresentação. Parece quase citação do documento de conclusão da Conferência dos Bispos Católicos da América Latina em Puebla (1979), quando diz que Jesus se apresenta na América Latina com diversos rostos: dos negros, dos índios, das mulheres, dos pobres e oprimidos dos nossos povos (Cf. Puebla 31- 39).  Essa canção vai além do texto de Puebla. Identifica Jesus com as mulheres (as Igrejas cristãs nunca souberam fazer isso como deveriam) e de forma macro-ecumênica com a figura do Zé Pelintra, entidade da Jurema Sagrada, do Candomblé e da Umbanda. Mesmo se, sobre o Zé Pelintra, há tradições diversas, em todas ele se apresenta como mensageiro do bem e defensor dos que têm sua dignidade humana ameaçada e não reconhecida. Então, ele é sim uma imagem cabocla do Cristo, o consagrado de Deus. E a canção se conclui advertindo de que, para a humanidade, não existe futuro sem partilha. Não há Messias de arma na mão (sem comentários) e, como não podia deixar de ser, Jesus confirma: “eu faço fé na minha gente, que é semente do seu chão”.

Para católicos tradicionalistas que estranham a afirmação desse cântico do povo, vale a pena lembrar uma música que fez sucesso nos anos 70 e foi muito cantada nos ambientes carismáticos e mesmo nos círculos mais tradicionais da Igreja: “Seu nome é Jesus Cristo e passa fome…”. O refrão dizia: “Entre nós está e não o conhecemos”… Nunca ninguém contestou ou se chocou com esse cântico tradicional usado até pela CNBB na Campanha da Fraternidade de 1995 (A Fraternidade e os excluídos). Por que, agora, todo esse barulho por causa desse novo salmo cantado no Carnaval pela Mangueira?

Já diziam que, quando a favela descer, a cidade não seria mais a mesma. Por isso, enfrentando a aporofobia (a aversão aos pobres) e os profetas da intolerância, “pegamos a visão”, descemos o morro com a Mangueira, ocupamos e escutamos a voz do mestre Jesus que nos diz:

Mangueira

Vão te inventar mil pecados

Mas eu estou do seu lado

E do lado do samba também

 

Enxugo o suor de quem desce e sobe ladeira

Me encontro no amor que não encontra fronteira

Procura por mim nas fileiras contra a opressão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão

E no olhar da porta-bandeira pro seu pavilhão.

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