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A arte como um itinerário de salvação

A arte como um itinerário de salvação

Esquecereis a verdade e a relatividade vos libertará. (José, 03, 12-88)

Do quê você precisa ser salvo?

Um imperativo da cultura ocidental cristã é a temática da salvação. Se você cresceu sob a égide da fé cristã, certamente o medo da condenação e a esperança da salvação foram balizadores na sua forma de ver e interpretar o mundo. Este foi o meu caso. Cresci em uma pequena cidade do centro oeste mineiro, Japaraíba, com pouco mais de 3 mil habitantes.  Se por um lado a Sessão da Tarde americanisava os nossos sonhos e desejos, as festas religiosas e a moral cristã forjavam com mais determinação o nosso ser. A imagem de Deus ajudava meus pais e familiares a conseguir de nós, seus rebentos, a obediência esperada. E, na mesma medida, censurava toda nossa curiosidade infantil pelo nosso corpo e desejo, pelo corpo e desejo alheios e pelo mundo ao nosso redor.

Apesar desses rígidos e estreitos processos formativos, a nossa infância era feliz e vivaz. Assim como nossos pais certamente encontraram, nós também encontramos os caminhos para burlar a observância da lei de nossos genitores, porém, menos as de Deus. Descobrimos a masturbação, as revistas pornográficas, as brincadeiras mais íntimas, os questionamentos. A culpa introjetada desde a tenra infância já era sentida desde sempre. A insatisfação constante e o desejar absoluto também eram presentes. Sentimentos ainda inomináveis e até incognoscíveis. Este extrato existencial ganhou sua forma com o desenvolvimento da linguagem e a ampliação dos conceitos. E também com o desenvolvimento da linguagem e a individuação, os sentimentos e desejos começam a ter nomes, assim como os juízes de valor começaram a operar internamente. Uma pergunta do Minguilim, personagem de Guimarães Rosa da novela Corpo de Baile publicada em 1900, representa bem esse estágio existencial: – “Mãe, o que a gente faz, se é mal, se é bem, ver quando é que a gente sabe?” – “Ah, meu filhinho, tudo o que a gente acha muito bom mesmo fazer, se gosta demais, então já pode saber que é malfeito…”.

A mudança para Belo Horizonte e a matrícula em uma escola de artes, a Escola Guinard, foram o primeiro confronto com essa visão de mundo ainda tão jovem, eu tinha 17 anos, mas já tão cristalizada e rígida. Lembro-me bem logo nos primeiros meses de aula quando, ao partilhar com uma colega de turma sobre o que faria durante o feriado da semana santa, recebi de volta um olhar de espanto, muitas gargalhadas e expressões de incompreensão. Bom, o que disse a ela era o que eu fazia há mais de quinze anos: participar de todas as missas durante a semana, de todas as procissões carregando uma vela, jejuar na sexta feira da paixão e aguardar a 0h do domingo de páscoa para ver a queima de fogos (tradição em minha cidade) e alegrar-me com mais centenas de japaraíbanos, pois Jesus vencera a morte.

Resisti à arte, a músicas novas, a novos sabores e o pior, resistia á liberdade. A liberdade de ser quem eu era, eu não queria ser quem eu era, não queria ser homossexual. Eu desejava ser curado, necessitar ser curado implica em estar doente. A saúde lhe falta, ser atacado por uma moléstia, por um mal, ou mesmo, ser um mal. A cura vem para livrar-nos deste estado de enfermidade, para nos purificar, limpar, tornando-nos sãos e sãs, santos e santas.

A formação que recebi, direta e indiretamente, fez-me acreditar que sofria de um mal. Mais que um portador de um mal, eu era o próprio. Ser humano é ser um mal. Ser homossexual é ser um mal, pois, além de carregamos o pecado original, a decadência primeira, “escolhemos” o caminho da perversão. Não há nada que se possa fazer a não ser recorrer à ajuda divina para nossa salvação. Eu queria ser salvo, não era capaz de ver que toda minha dificuldade em viver encerrava-se nesta rigidez, nesta crença em verdades absolutas. Relativizar era o mesmo que pecar. Aos poucos fui me abrindo, aceitando as novidades, no entanto ainda estava inflexível. Os poucos meses de uma pseudoliberdade proporcionaram-me bons momentos, porém, depois de permear por caminhos livres de doutrinas, dogmas e certezas, não suportei estar diante de um leque de possibilidades no qual eu tinha a liberdade de escolha e a oportunidade de expressar minha sexualidade e desejos. Desejei, então, ardentemente retornar para a segurança da gaiola que há pouco havia deixado. Ansiava por um Deus que decidisse por mim, que definisse o meu destino.   

Como o filho pródigo, retornei para casa do Pai. Estava no seio da igreja. Protegido e livre da liberdade. Contudo, o contato com a arte lançou luzes em minhas realidades internas e externas, onde, até então, dominavam as trevas. As lembranças dessas luzes se faziam presentes e persistentes, chegavam por vezes a ofuscar minha visão. Neste momento já percebia que não podia negar: tanto a estrutura que me formara, quanto às novas possibilidades que a criação artística me oferecia.  Nascia aí um novo homem, “este é meu filho amado, em quem me comprazo” (Mateus, 3, 16-17).

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O que a arte me ofereceu?

Hoje, cinco anos após o término da graduação, das leituras feitas, das exposições que visitei, dos trabalhos que criei, das relações que estabeleci, profissionalmente e afetivamente, posso concluir afirmativamente o que especulei no trabalho de conclusão de curso: a arte me ofereceu uma oportunidade de salvação! Mas salvou-me de quê? Salvou-me de padecer num lamaçal de ignorância e preconceito. Salvou-me da minha falta de amor próprio. Salvou-me da pretensão de tudo saber. Salvou-me da intolerância. Salvou-me da morte, pois inúmeras foram as vezes que desejei dar cabo a minha própria vida. Seu caráter multifacetado, sua imprecisão e a sua renúncia à ser a portadora de uma verdade absoluta a faz, a meu entender, uma das ações humanas com a maior capacidade de nos humanizar.

E de que forma a arte me possibilitou essa transformação? Pela arte, eu encontrei modos de tornar minhas potencialidades em ações. Por meio desta materialização conseguida pelas inúmeras técnicas que experimentava como o desenho, pintura, gravura e fotografia, exorcizei muitos fantasmas, medos e culpas, me fortaleci para suportá-los mais. O medo de existir, dos meus desejos e de ser o que eu sou, foram aos poucos perdendo seu aspecto absoluto, a verdade que os nutria foi diluída pela relativização. Somos seres incompletos, insatisfeitos. Precisamos de estruturas que nos legitimem, que demarquem nosso caminho que é breve e incipiente diante da complexidade de nossa natureza e do universo que nos abarca. Buscamos na Arte, Religião, Ciência e Mercado o nosso campo de atuação para nele afirmarmo-nos, encontrar nossos pares, nos relacionarmos e jogarmos. No campo por nós escolhido, somos tomados como posse de algo maior, “ser é pertencer a alguém” disse Sartre em seu livro sobre a vida de Jean Genet. Nestas estruturas depositamos nossa fé. Pela arte encontrei um caminho de mais humildade, de amplitude de visão, de acolhimento ao diferente, de veneração pelo mistério que é estar vivo. Qualquer tentativa de nomeá-lo me tornou insuportável.

Por isso tudo, creio na arte como um caminho de libertação, de esclarecimento, e comungo com Joseph Beuys, artista plástico alemão, que anunciava o caráter messiânico da arte.  “Toda pessoa é um artista”, afirmava ele. “Quem está habilitado a criar? Aqueles que conhecem a linguagem do mundo, ou seja, você e eu… vocês têm o poder de se libertar”.