Afeto e subversão: corpo, memória e ancestralidade

Afeto e subversão: corpo, memória e ancestralidade
Thiago Teixeira e Marcelo Barros 17 de dezembro de 2019

À primeira vista o título desse pequeno artigo pode gerar ao interlocutor, inúmeros questionamentos e desconfortos. Como é possível, em  um tempo no qual se alimentam ódios e intolerâncias, se consomem discursos que obliteram a tensão, normatizam a homogeneidade e enfraquecem a diferença, pensar em narrativas de afeto, de subversão e de transformação de nós mesmos e da realidade que nos circunda?

Evento Abraço Negro BH Foto: Mídia Ninja

Nesse sentido, os questionamentos e os desconfortos são bem vindos, pois eles nos retiram do lugar comum e fazem com que nós enfrentemos a realidade em suas ambivalências e polissemias. A tensão nos coloca no campo do diálogo num tempo em que o monólogo é normatizado. A fratura pautada na dialogia permite que reorganizemos os nossos campos concretos e transcendentes, longe dos interesses genocidas que se escondem atrás do desejo pelo silêncio do outro.

A dinâmica do afeto é clara, mesmo que a sociedade dominante se esforce para enfraquecê-la em nome do consumo das coisas, das pessoas e dos sagrados.

Lamentavelmente, na sociedade dominante, até as tradições espirituais e religiosas são usadas como armas de intolerância e instrumentos de desamor. Para isso, os fundamentalismos religiosos — presentes em diversas religiões —, atraiçoam a intuição original e a missão de todas as tradições espirituais, a saber; a compaixão no caso do Budismo, o amor ao próximo, no caso do caminho judaico-cristão, da misericórdia na tradição islâmica e da opção pela vida plena ou do Bem-viver nas tradições espirituais dos povos originários, assim como do Axé que é amor e alegria na religião dos Orixás, Nkisis e Vòdúns.

Tomemos o Candomblé como exemplo de refração em relação ao monólogo e ao monopólio da cultura dominante. Ele aparece no Brasil como forma de restituir ao povo negro — vilipendiado pelas estruturas de colonização e violação — as dimensões de pertença, família, presença e existência. Das múltiplas formas de resistência, o Candomblé se mantém na rota de colisão contra o sistema escravocrata, eugenista, genocida e racista que ainda paira no imaginário e nas relações sociais, de forma tácita ou explícita.

Enquanto quebra nas narrativas supostamente legítimas e universais sobre o que é o sagrado, o Candomblé apresenta uma sacralidade imanente que, de modo concreto e relacional, passa pela dimensão do corpo, da resistência e da subversão. Nesse sentido, tratamos de uma dinâmica de reciprocidade, isto é, de afetar-se e se de ser afetado.

A experiência do sagrado no mais íntimo de cada ser humano, assim como no coração do cosmos e da vida é o ponto que une as mais diversas experiências de espiritualidade, seja nas tradições religiosas orientais, seja nos caminhos laicos de uma mística secular que grande parte da humanidade faz em nossos dias.

Na realidade brasileira, os povos indígenas e as comunidades afrodescendentes reencontram nas raízes de suas tradições espirituais uma cosmovisão que os ajuda a recuperar os laços afetivos, epistemológicos e espirituais violentamente enfraquecidos por uma sociedade racista que encontra sempre formas novas de explorar e consumir índios e negros. Em uma subversão cotidiana, os grupos indígenas que retomam suas tradições originárias e as diversas formas de cultos afrodescendentes ratificam a experiência de um sagrado que é imanente, que dança e alimenta uma visão de comunidade — em resposta aos tempos de fragmentação e de individualismo que vivemos — e, de modo significativo, sustentam uma experiência inerentemente dialógica, pois se instala na oralidade, na presença e na transmissão intergeracional dos saberes ancestrais.

Esses saberes ancestrais não são apenas aprendidos, eles são comunicados na relação viva com os ancestrais que revivem em cada filho e filha pertencente àquela tradição. Através da relação com os ancestrais, a pessoa refaz a cada dia a aliança com o seu próprio corpo, com sua identidade afetivo-sexual e redescobre sua missão no mundo.

No caso do Candomblé, a presença, a comunidade, o toque, a dança, o cheiro e a dialogicidade perpassam, de modo significativo, à experiência espiritual. Evidencia-se uma realidade de afeto que (re)cria o ethos, isto é, um novo costume. Uma nova forma de experienciar a realidade assumindo a relacionalidade e a responsabilidade, como pressupostos irrevogáveis.

Assim, se cultiva uma memória, construída no encontro e na dimensão de integralidade. A experiência de afetação é consolidada na reorganização dos corpos, dos saberes e, de modo pontual, na escuta. Nesse sentido, podemos dizer orientados por Pelo Babalorixá e Doutor em Antropologia pela PUC de São Paulo Rodney Willian em seu texto No Candomblé, envelhecer é dádiva “que estamos falando de uma religião iniciática, na qual o tempo de iniciação, que presume todo aprendizado adquirido ao longo dos anos, a memória, as vivências e os saberes transmitidos pelos ‘mais velhos’ é fundamental na construção da autoridade e na manutenção do poder.”.

Nesses termos, ser afetado é se relacionar com o outro, assumindo e requisitando a sua existência, enquanto sujeito. Aos corpos dissidentes foram negados os estatutos de reciprocidade, pois suas existências estiveram reiteradamente dissociadas da possibilidade e da vida. Pensamos que uma nova economia dos valores e das ações parte de um retorno à dimensão do comum, longe é claro, de uma tentativa de homogeneização genocida dos corpos, dos olhares, dos afetos e das cosmovisões.

Pensamos na construção desse comum pautada, sobretudo, na subversão desse ideal de igualdade que, em uma sociedade baseada na desigualdade social e racial tenta retirar do diferente a sua legitimidade enquanto sujeito, enquanto vida. É urgente que nós possamos construir uma nova dimensão afetiva, isto é, um modo de se relacionar com o outro longe do ódio como objetivo e como único elo.

Esse é o coração de uma revolução espiritual que toma formas diversas, mas pode formar uma sociedade nova para além de quaisquer resquícios de racismo e de dominação do humano por outro ser humano, em comunhão com a Mãe Terra e se constituindo como uma grande comunidade da Vida nesse planeta. Trata-se de, como caminhos espirituais antigos, redescobrir na beleza do corpo, na intimidade do afeto e no mistério do erotismo o sagrado presente em todo mistério de amor. E essa energia maravilhosa que permeia as relações e refaz em todo ser humano a permanente capacidade de amar, se torna força para transformar a vida e a sociedade. Na tradição cristã, no século IV, Agostinho de Hipona, filósofo e teólogo africano (de uma antiga cidade, onde hoje é a Tunísia), afirmou em seu Tratado sobre o Evangelho de João: “Apontem-me alguém que ame e ele sente o que estou dizendo. Deem-me alguém que deseje, que caminhe neste deserto, alguém que tenha sede e suspira pela fonte da vida. Mostre-me esta pessoa e ela saberá o que quero dizer”.