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A falta do luto e a esperança: uma relação podada com a morte

A falta do luto e a esperança: uma relação podada com a morte

A morte, com sua aura de falta, está presente nas construções históricas, religiosas, filosóficas e artísticas.  A encontramos nas mais dolorosas tragédias como nos mais belos poemas, e não conheço uma só pessoa que não se perguntou, mesmo que em segredo, o que acontece quando alguém morre. Alguns acreditam que este mundo é um mundo de passagem e que a vida, que valerá a pena ser vivida, está por vir e será encoberta pela perfeição da eternidade. Outros, têm o presente como a única vida possível e afirmam a necessidade de valorizar cada momento e cada encontro, construindo uma espiritualidade mesmo que negando a transcendência. Temos também aqueles que percebem a morte como parte de um ciclo da vida, que é mágico, vivo e natural. Descontroem, portanto, essa percepção tão comum de que o transcendente e o sobrenatural estão para além da própria natureza que é, por si, mágica.

Respostas para o que acontece quando alguém morre são várias. Algumas são produzidas de forma reconfortante, outras trazem mais perguntas que respostas, mas fato é que não sabemos se a morte pode ser objeto de desconforto para os mortos, mas para aqueles que permanecem vivos ela é tão presente quanto a própria vida. O impacto que causa em quem se depara com ela traz para os que continuam vivos uma sensação de desajuste, ausência e confusão. Isso porque o luto é o momento em que temos que lidar com “a ridícula ideia de nunca mais te ver”, como nos presenteia a autora Rosa Montero com o livro que toma a frase por título. Mas também é o momento em que percebemos partes de nosso ser que morrem junto do outro. A fábula dos sujeitos e sujeitas independentes e individuais perde seus contornos e, de repente, não sabemos o que resta de nós, que vivemos.

Os limites entre o que “Eu sou” e o que “Você é” são confundidos pela alteridade e pelas mudanças que se fazem obrigatórias em uma relação entre sujeitos. Em outras palavras, não existe um “Eu” sem “Você”, porque no meu processo de sujeição, isto é, no processo em que me torno sujeita, eu o faço diante e invadida pelo outro, por você. Judith Butler em sua obra Vida precária: os poderes do luto e da violência nos diz que “o luto contém a possibilidade de apreender um modo de despossessão que é fundamental para quem sou.” (BUTLER, 2019, p. 48). Nesse processo de assujeitamento, perceber a vulnerabilidade do outro e de si mesmo com a possibilidade de morte, é perceber a violência política que orquestra a distância de valor entre vidas que devem ser protegidas e vidas que são destituídas de humanidade, e podem (ou devem), portanto, morrerem.

Para Judith Butler, ser passível de luto é condição para se afirmar que uma vida se findou. De uma forma paradoxal, é a morte que valida a vida. Apesar da autora não falar do luto apenas como um movimento individual e familiar, — mas como a possibilidade de desenvolvimento de políticas não-violentas que considerem a vulnerabilidade própria da condição humana como fundamento ontológico corporal — falarei dele no âmbito destas relações de amor e do desamparo diante da perda do outro.

A reflexão sobre a morte no contexto pandêmico que vivemos é como um tocar direto na ferida, pois não estamos lidando com ela da mesma forma que lidávamos antes por duas razões que se completam: pela impossibilidade de realização dos rituais fúnebres, e pela insegurança da existência do amanhã, bem como da incerteza de que teremos quem amamos junto de nós. Além disso, perdemos a representação da quantidade de vítimas da covid-19 muito antes de ultrapassarmos quatrocentos mil mortos no nosso país e seguimos desprotegidos para um futuro incerto.

A impossibilidade de realização dos velórios e homenagens, sejam essas vestidas pela fé ou pela saudade, marca um momento de anomalia no processo de luto e causa revoltas no seio familiar daqueles que não conseguem cumprir antigas tradições ou materializar uma despedida. O momento, que é trágico, se veste do elemento narrativo quando repete a jornada de Antígona para honrar o corpo do irmão com os rituais necessários. A tragédia de Sófocles, que tem o centro do seu desenrolar na tentativa de Antígona de cumprir com as honras fúnebres de seu irmão Polinice enquanto é impedida pelo rei Creonte, já trazia a importância das honrarias e rituais de despedida. Para Antígona, não existia a possibilidade de não sepultar o irmão e ela o faz mesmo sabendo dos riscos que sua ação poderia lhe causar e lhe causa.

Diferente da tragédia, o que vivemos atualmente implica também a consciência do porquê de não podermos realizar os rituais como gostaríamos, uma vez que não só nos colocaríamos em risco durante a cerimônia mas arriscaríamos a vida de terceiros. Dessa forma, mais de quatrocentas mil pessoas não foram veladas, e incontáveis despedidas precoces não aconteceram como o tempo as fariam. A relação entre morte e luto foi podada e não sabemos o que esperar com esse sentimento reprimido e sua manifestação nas relações futuras. O que ocorre é que o luto não é um enterrar do sentimento, pois fixamos em nós mesmos a memória da existência do outro, e é ela que faz com que não o percamos no horizonte.

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Rememorar é garantir que a história não se curve em outro sentido abandonando a existência daqueles que vivem enquanto pensamento. Portanto, é importante olharmos atentamente para as implicações políticas que fizeram com que quatrocentas mil histórias e uma saudade imensurável tomassem nossos corações e nos despossuíssem a ponto de não nos acharmos na dor, para que essas vidas não sejam nunca esquecidas. Precisamos perceber que um número não dá conta de representar uma só vida para que não acostumemos com a tragédia e com a falta de amparo das autoridades que deveriam nos proteger neste momento. E sabemos que os ritos, assim como a fé e a saudade, continuam vivos, e, apesar de sofrerem um deslocamento no tempo, terão seu tempo de acontecer, resta-nos a memória e a esperança.


Referências

BUTLER, Judith. Vida precária: os poderes do luto e da violência. Belo Horizonte: Autêntica, 2019.
MONTERO, Rosa. A ridícula ideia de nunca mais te ver. São Paulo: Todavia, 2019.
SÓFOCLES. Édipo Rei/Antígona. São Paulo: Martin Claret, 2007.