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A ética do racismo religioso, da necropolítica e da prática sacrificial capitalista

A ética do racismo religioso, da necropolítica e da prática sacrificial capitalista
25 de agosto de 2020 Thiago Teixeira e Sidnei Barreto Nogueira

No dia 05 de agosto de 2020, o Brasil registrou, de acordo com o CONAAS – Conselho Nacional de Secretários de Saúde, 97.888 vidas perdidas pela Covid19. Houve aproximadamente 100.000 mortes – aproximadamente 833 por dia, em cerca de quatro meses e continuamos à deriva, sem direção, sem um plano, sem informações precisas, sem uma liderança que nos traga algum conforto, sem ações efetivas com vistas a evitar novas mortes prematuras.

Eu fiquei pensando, como alguém que faz parte dos alvos, no racismo religioso que tem sido violentamente praticado contra as práticas rituais dos Povos e Comunidades Tradicionais de Terreiro por conta da nossa magia preta que, segundo eles, envolve “sacrifício” animal, “abate” religioso, “morte” animal, “matança”.

A mais vil face do racismo religioso se evidencia também na perseguição que começa em 2004, no Rio Grande do Sul, e chega ao Supremo Tribunal Federal para que, no dia 28 de março de 2019, o Supremo declarasse a constitucionalidade de uma lei gaúcha que permite “sacrifício” de animais em rituais religiosos.

Por unanimidade de votos, o Supremo Tribunal Federal (STF) entendeu que a lei do Rio Grande do Sul que permite o sacrifício de animais em ritos religiosos é constitucional. Vale lembrar que não estavam julgando os rituais judaicos, cristãos, protestantes ou católicos. Era a galinha preta que estava em julgamento. Eram os sistemas de crenças diaspóricos que estavam sendo acusados e julgados.

A questão central é que já estava garantida a liberdade de crença  pela nossa Carta Magna. O artigo: 5° VI, estipula ser inviolável a liberdade de consciência e de crença, assegurando o livre exercício dos cultos religiosos e garantindo, na forma da lei, a proteção aos locais de culto e as suas liturgias;  e, de repente, você – existência e fé negras – se vê forçado a utilizar a nossa Suprema Corte e uma quantia substancial do erário para se defender do racismo religioso cristão e branco.

Como bem disse o Dr. Hédio Silva Júnior, em arguição feita em defesa da liberdade de crença e de culto com vistas à constitucionalidade dos rituais tradicionais praticados nas CTTro – Comunidades Tradicionais de Terreiro: “Nunca vi uma instituição pública se preocupar com o genocídio de jovens negros na periferia” (…) “A vida de uma galinha de macumba vale mais”. A morte de uma galinha da macumba vale mais que a vida de jovens negros da periferia.

Segundo uma pesquisa realizada pela Secretaria Especial de Políticas de Promoção da Igualdade Racial (SEPPIR) e pelo Senado Federal, 56% da população brasileira concorda com a afirmação de que “a morte violenta de um jovem negro choca menos a sociedade do que a morte de um jovem branco”. De acordo com a ONU (2017), a cada 23 minutos, morria, à época, um jovem negro no Brasil vítima de violência provocada pelo racismo. Hoje, muito provavelmente, considerando o agravamento do ódio pelos feitos desiguais, deve morrer um jovem negro , vítima de violência racial, a cada 15, 20 minutos.

A verdade é que o Capitalismo, os brancos cristãos capitalistas, o patriarcado cristão capitalista já estão acostumados a oferecer vidas humanas ao seu Deus. Vidas negras, femininas, quilombolas, pindorâmicas, LGBTQIA+ são oferecidas todos os dias no Brasil e isso nunca foi ao STF com tanta veemência. O próprio presidente da república, que constitucionalmente deveria governar com vistas à manutenção do direito à saúde e à vida, desde o início da oferta em massa de vidas humanas ao Deus-neoliberalismo, tem edificado um discurso de que devemos todos naturalizar a morte dos nossos. Por que será? Pergunta retórica.

Imagem de fernando zhiminaicela por Pixabay

Quem se importa?

O que são 100.000 vidas ceifadas pela Covid19? Antes da Covid, de acordo com a Atlas de Violência (2019), os números sobre a violência já apresentavam a diferença entre negros e brancos no Brasil. A taxa de homicídios de negros (pretos e pardos) por grupo de 100 mil habitantes foi de 43,1%, ao passo que a de não negros (brancos, amarelos e indígenas) foi de 16,0%. É importante destacar que, nesta conta desigual, a morte de existências negras salva, por substituição, vidas brancas.

E a oferta de sacrifício humano não para por aí. Na primeira atualização de um relatório produzido a pedido do Banco Mundial, o Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) destaca que os casos de feminicídio cresceram 22,2%, entre março e abril deste ano, em 12 estados do país, comparativamente ao ano passado. Intitulado Violência Doméstica durante a Pandemia de Covid-19, o documento foi divulgado dia primeiro de junho (2020) e tem como referência dados coletados nos órgãos de segurança dos estados brasileiros.

De acordo com o GGB – Grupo Gay da Bahia, um homossexual é morto a cada 28 horas no país por conta da homofobia (assassinatos e suicídios) e cerca de 70% dos casos dos assassinatos de pessoas LGBT ficam impunes.

A questão é que o sacrifício da vida humana, entre “eles”, sempre foi natural, banal, necessário. Isso está no “E daí?” presidencial. A naturalização da bestialidade ocidental.

Mas a morte da galinha da macumba é mais importante que a vida de uma pessoa com mais vivências, de uma criança, dos povos originários, das mulheres, das povos de comunidades tradicionais com matriz civilizatória africana, dos povos quilombolas e mais importantes que o corpo de uma mulher negra de 51 anos estirada ao chão com um policial branco, literalmente, pisando livremente com todo seu peso-ódio racista sobre ela.

Eu fiquei pensando que “eles” disseram que nós fazíamos “sacrifício” animal, “abate”, “matança”, mas isso não é verdade. São eles que colocaram os nomes colonizados sobre a nossa cultura. Foram eles que inventaram isso e sabemos que as mentiras deles sobre nós não precisam ser contadas mil vezes para que se tornem verdade.

Nós não fazemos sacríficio animal, matança, abate. O que fazemos é magia preta. Oferecemos parte do que nos nutre à natureza ancestral e o animal não morre, ele se soma a nós. Ele, o animal que o ocidente interpreta como morto, soma-se a nossa existência justamente para evitar o verdadeiro sacrifício que é, diariamente, praticado pelo sistema capitalista. Temos de somar vidas de outros animais a nossa justamente para que não soframos de morte prematura e para que estes mesmos animais não moram inutilmente. O verdadeiro sacrifício quem faz são eles.

A morte prematura não deve ser aceita, a morte prematura não é retorno à massa primordial. A morte prematura é consumo de vidas, é assassinato, é crime, é oferta vã.

Em oposição ao que compreendemos como magia preta e sua atmosfera política, insurgente e pautada na integralidade, os itinerários da brancura,—  enquanto sistema gestor de apagamento dos saberes, valores e cosmo-sentidos pretos —, do consumo e da relativização consciente e perversa das vidas lidas e enunciadas através da precariedade política, seguem as suas rotas de anti-negritude e da necropolítica.

A destruição pública de pessoas negras, bem como dos saberes que se descentralizam do sujeito anunciado como supostamente legítimo, desnuda o que Achille Mbembe anuncia como a bestialidade e a relativização dos corpos, valores e sentidos pretos.

Essa desumanização ocorre enquanto projeto de poder que naturaliza a desqualificação do outro sujeito para sorver, através da neutralização de sua vida, poder. A visão borrada contra os sentidos comunitários inerentes à magia, à troca e à ética dos terreiros, se mantém à distância das identidades livremente constituídas na reciprocidade, pressuposto estruturante das epistemologias e práticas civilizatórias das Comunidades Tradicionais de Terreiro. É preciso que questionemos a banalização das vidas pretas, periféricas e de todas as  existências oferecidas como sacrifícios mantenedores da lógica antropofágica dos que matam, para se manter na centralidade do poder.

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