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10 Anos do Falecimento de Raimon Panikkar ou do Retorno da Gota para o Oceano

10 Anos do Falecimento de Raimon Panikkar ou do Retorno da Gota para o Oceano
1 de setembro de 2020 Rita Grassi

No dia 26 de agosto de 2020, fez 10 anos do falecimento do filósofo e teólogo catalão Raimon Panikkar (1918-2020). O autor costumava utilizar uma metáfora da gota e do oceano para falar da morte e do nosso desenvolvimento espiritual. Ele dizia, em linhas gerais, que somos essencialmente água, assim como o oceano, temporariamente em forma de gota, que um dia retornaremos ao oceano. Dessa forma, a Ressurreição e a vida eterna acontecem no momento presente, ao nos reconhecermos água. “[…] não posso negar mimha experiência da Ressurreição. Está relacionada com minha consciência de viver a vida eterna agora – de ser água e não gota, enquanto ainda seja de fato uma gota”. (PANIKKAR, 2018).

Fui convidada pela Rede Iberoamericana de Pensamento Panikkariano para fazer uma fala introdutória ao Conversatório – 10 Años del agua de la gota que volvió al Mar respondendo às seguintes perguntas: Como o advaita em Panikkar abre a uma compreensão da vida e da morte? Por que celebrar o retorno da gota d’água ao oceano? Eis a minha resposta.

Panikkar define o que ele chama de intuição advaita, ou a-dualidade, como uma maneira de enxergar a realidade, onde os opostos se integram, estão intrinsecamente conectados, não há contradição, no sentido em que uma polaridade não exclui a outra. Os pólos coexistem, se complementam, se relacionam. No entanto, para compreender essa intuição é necessária a experiência. Não basta o intelecto. Essa experiência deve se dar através do “terceiro olho”, que une tanto os sentidos físicos quanto os intelectuais. Trata-se de uma experiência mística, como uma “experiência integral da Vida”, que requer, uma “nova inocência”, ou seja, enxergar a realidade em sua totalidade, experimentando a vida em sua inteireza, através da integração entre a ação e a contemplação, a palavra e o silêncio, o conhecimento e o amor. Trata-se de “um conhecimento amoroso”, o conhecimento associado ao amor, em relação advaita: o amor advaita.

Os símbolos cristãos vistos por Panikkar, através das lentes da “intuição advaita” o levaram a pensar a “Realidade como trinitária”. Assim como na Trindade cristã o Pai, o Filho e o Espírito Santo estão em relação pericorética (“relacionalidade radical”), também estão as três dimensões da realidade: a tríade Deus-Homem-Cosmos. A sua “visão cosmoteândrica” coloca, então, em prática essa visão trinitária da realidade, tendo como base uma perspectiva onde os seres humanos, o mundo e a divindade estejam relacionados de forma “inter-independente”, em “uma ordem ontonômica”.

Cristo, seu istadevatã (divindade de sua preferência), seria a síntese da “Trindade radical”, da relação entre as três dimensões da realidade e o ápice de sua compreensão trinitária. Nele, estaria manifesta a “experiência advaita” de Panikkar. A partir dessa cosmovisão, ele pensa a “cristofania”, para designar uma manifestação (phania) de Cristo na “consciência humana”, que pode ser vivida por qualquer ser humano, independente de seu contexto sócio-cultural e religioso. Seria a plenitude do humanum.  

Essa ideia foi desenvolvida pelo autor, partindo-se do princípio de que a religiosidade humana é um aspecto antropológico, ou seja, constitutivo do ser humano, que busca salvar-se tendo a religião como principal caminho, mas não único. Em sua visão, os seres humanos são peregrinos e peregrinas em busca de uma “verdade salvífica” que, para Panikkar, os fazem descobrir “o outro em si mesmo”, através do que ele chama de “amor advaita”. O ser humano, é um “ser itinerante”, rumo à “realização”.

Raimon Panikkar. Crédito Ilvio Gallo

Para Panikkar, a salvação ou realização, trata-se de se chegar à síntese advaita (a-dual) das três dimensões da realidade. Essa seria a plenitude a ser alcançada. Essa vivência pressupõe uma fé na salvação e no caminho que escolhemos para chegar a ela. É preciso esse aprofundamento em sua própria essência, que nos liga a todos os outros seres humanos, em sua fé. O outro passa, então, a ser fonte de inspiração e auto-conhecimento. E o ser humano passa a encontrá-lo em si mesmo, descobrindo pontos em comum e, também riqueza nas diferenças. O reconhecimento do outro como uma alteridade, alguém que também está presente em “si mesmo”, em relação a-dual, será, então, uma prerrogativa para que a salvação aconteça.

Trata-se de uma visão de que “eu” e “o outro” não estamos, em realidade, separados. A separação é, apenas, aparente. Estamos intrinsecamente relacionados, pois compartilhamos da mesma essência e estamos na mesma busca. Dessa forma, o diálogo passa a ser um encontro com o si-mesmo em uma relação de amor advaita. Ou seja, o advaita se constitui também em caminho para o diálogo, através dessa relação amorosa.

Essa experiência, está relacionada ao princípio hinduísta do atmanbrahman, que seria a realização da essência divina que habita todos os seres humanos com a própria divindade, ou dimensão espiritual. Portanto, a própria síntese da visão cosmoteândrica de Panikkar. O encontro entre as dimensões cósmica, material e divina em “si mesmo”. A essência crística, a plenitude do humanum.

É, nesta atmosfera amorosa, que articula o encontro do amor transcendente com o imanente, que enxerga cada ser humano como uma síntese do Todo, em uma visão que não separa e nem tudo mistura em uma unidade amorfa, que podemos pensar na metáfora da gota d’água e do oceano.

Nesta peregrinação advaita ao encontro do outro em “si mesmo”, não precisamos nos tornar nada. Nós já somos a própria plenitude que buscamos, a síntese cosmoteândrica de que fala Panikkar, portanto a peregrinação deve ser interna. Não há o que buscar fora, apenas dentro. E, para isso, basta permanecermos aonde estamos, em estado de presença, de atenção plena e de conhecimento amoroso. Olhar o mundo como uma sinfonia de várias vozes, aparentemente caótica, mas profundamente bela em toda a sua diversidade. Aprofundar-nos na “tempiternidade” do aqui e agora e sentirmos que a nossa essência e a própria realidade são advaita. Estamos gota, mas somos água, assim como o oceano.

Trata-se de viver a própria ressurreição no aqui e agora. Vida e morte estão intrinsecamente relacionadas, em relação a-dual, co-existindo na tempiternidade do momento presente, para além do espaço-tempo. Celebremos, então, o retorno da gota Panikkar ao oceano. Esse oceano que tudo é. Transcendente e imanente. Sempre presente, existente e pleno. Sat-Cit-Ananda.

E, para terminar, palavras do diário do próprio Panikkar, escolhidas pela Milena Carrara, uma das principais responsáveis por manter seu pensamento vivo, para finalizar o livro The Water of the Drop (A Água da Gota):

Tenho repetido milhares de vezes: Páscoa é a nossa Ressurreição. Mas o que a Vida do Ressuscitado significa? Estou, neste momento, em êxtase, ouvindo uma música no rádio; acho que é uma sinfonia de Beethoven, que me encanta. E não gostaria de ser distraído por nada mais. A vida divina não significa perfeição no sentido grego, mas Vida, uma Vida que é Vida e que, portanto, não morre: Tempiternidade!

Talvez (também) signifique amor.

É mesmo a Terceira Sinfonia de Beethoven.

Ressurreição significa uma nova Vida – constantemente renovada, quer dizer, vivida. E essa experiência de uma Vida plena é Mística = Vida cheia de Graça.

 

REFERÊNCIAS:

 PANIKKAR, Raimon; CARRARA PAVAN, Milena (Org.). The Water of the Drop: Fragments from Panikkar’s Diaries. Delhi: ISPCK, 2018.

 

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