Agnotologia e a imposição do silêncio às ancestralidades negras – Parte 1

Agnotologia e a imposição do silêncio às ancestralidades negras – Parte 1
Michel Alves Ferreira 6 de dezembro de 2019

Foto: Marco Castellani

São quatorze horas e vinte e sete minutos, do dia 25 de novembro de 2019. Cinco dias depois de celebrarmos nacionalmente os exemplos de resistências coletivas das lutas das populações afro brasileiras em memória ao dia 20 de novembro, nos deparamos com a reportagem ‘Criminosos me trataram melhor do que a Justiça’, diz cabeleireiro preso por 16 meses sem provas, de Rogério Pagnan, publicada pela Folha de São Paulo. O subtítulo da chamada jornalística e o próprio texto são claros, ao anunciar que Sidney, o cabeleireiro, foi acusado pela justiça paulista de participação na morte de um homem, que ele alega nunca ter visto.

Mesmo com as fragilidades processuais de não haver provas concretas que ligassem o assassinato ao cabelereiro, Sidney permaneceu preso num complexo penitenciário até que um determinado juiz revogou o seu pedido de prisão para que ele respondesse em liberdade. O trágico, revelado por esta reportagem, está na forma com que um sujeito é tratado pelo Estado, Poder Judiciário, sistema carcerário e pelos próprios presos (43 homens para dividir uma mesma cela), onde nestes últimos Sidney encontra a solidariedade e a partilha da dor de estar em um sistema que deveria servir para ressocializar pessoas, mas que está simplesmente moldado em um passado colonialista, higienista social e escravista de nossa história.

Não é intenção deste texto tratar de como o sistema carcerário (embora isto sirva para pensar em outras provocações textuais) e mesmo o sistema jurídico processual brasileiro é cheio de incoerências, inconsistências, segregações, burocracias e injustiças e, tampouco, adentrar em uma discussão simplista de que quem cometeu crime deveria simplesmente apodrecer na cadeia, sabendo que havia, em 2016, mais de 720 mil presos e presas no Brasil e que mais de 60% destas pessoas são negras e negros, como aponta a reportagem de Andréia Verdélio, publicada pela Agência Brasil.

Contudo, apontamos que o racismo, colonialismo e classismo presentes no exemplo da triste história do Sidney, homem não branco, está fundamentado não somente na naturalização desses sistemas, mas sim porque há um ponto anterior que merece ser dito: as instituições e sujeitos produtores de poder que compõe esta tessitura social promovem deliberadamente a ignorância como um projeto ideológico. Estamos falando aqui de Agnotologia, conforme o conceito do cientista estadunidense Robert Proctor  em seu texto Agnotology: a missing term to describe the cultural production of ignorance (and Its Study) e que interpretamos neste trabalho como: a agnotologia é a antítese da epistemologia e da diferença como um não marcador cultural, racial, econômico, colonial e biológico de sujeitos. Dito em outras palavras, a agnotologia é uma ciência da ignorância porque esta é deliberada, política e sistêmica.

Nas palavras do próprio Proctor a exemplificação que corrobora com nossa interpretação do conceito

Crucial também é: ignorância para quem? E contra quem? Ignorância tem uma história e é sempre distribuída de forma desigual; a geografia da ignorância tem montanhas e vales. Quem é ignorante e porquê, e em que medida? Como podemos desenvolver melhores indicadores agnométricos? O que mantém a ignorância em um lugar, enquanto em outro ela se evapora? E qual, dentre nossas miríades de ignorâncias, serão toleradas ou combatidas? Muitas dessas mesmas perguntas podem ser feitas sobre o conhecimento desde como a ignorância ocupa espaço e nos leva por um caminho e não por outro. O conhecimento também tem um rosto, uma casa e um preço – há pessoas ligadas, instituições estabelecendo limites e custos na forma de dinheiro ou oportunidades perdidas. Decisões de que tipo de conhecimento “nós” queremos apoiar também são decisões sobre que tipos de ignorância devem permanecer no lugar.

Sendo assim, vamos ao debate que introduzimos nesse texto e que será posto em uma pequena série de textos. Essa série tem o propósito de debruçar sobre os modos como a ignorância deliberada, sistêmica e ideológica estigmatizam determinados grupos sociais. Nos artigos que serão publicados nas próximas semanas, faremos uma discussão acerca de como a ignorância sistêmica, ou a agnotologia, serve de instrumento para não só estigmatizar, mas também promover uma verdadeira cultura de morte direcionada às ancestralidades e religiosidade de comunidades/coletividades negras. Também pretendemos dispor de algumas possibilidades disruptivas destas agnotologias.

Finalizamos esse texto pedindo licença e proteção aos ÒRISÀS, prestando reverência especialmente à ÒSÚN. Água parada e turva, como bem nos ensina essa ÒRISÀ, representa a cultura da morte contra nossos corpos negros, reificada aqui pela ignorância sistêmica presente em quem pensa que detém o poder e que nos confunde com seus padrões estéticos, culturais, econômicos, de gênero e, por fim, de contato com os sagrados e com a natureza. Água corrente de um rio, ao contrário, representa a cultura da vida e de respeito às diversidades da natureza, do humano e do mundo. Sejamos este rio no percurso da vida! Òóré Yéyé ó!