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Agnotologia e a imposição do silêncio às ancestralidades negras – Parte 3

Agnotologia e a imposição do silêncio às ancestralidades negras – Parte 3
Michel Alves Ferreira 24 de janeiro de 2020

Diálogos como quebra da agnotologia e das intolerâncias religiosas

A série de textos publicados aqui na Senso buscou debater que grupos sociais produtores e promotores, da sua forma de pensar o poder, produzem a ignorância como um projeto sistêmico e intencional de prevalência de uma visão ideológica frente a outra. Interpretamos o conceito de agnotologia, descrito na obra Agnotology: a missing term to describe the cultural production of ignorance (and Its Study), de Robert Proctor, partindo de dois exemplos: do cabeleireiro Sidney (texto 1) e da socialite Donata (texto 2), frente à cultura/sociedade afro brasileira e, especialmente, ao Candomblé. Buscamos mostrar as nuances da ignorância sistêmica como componente fundamental para manutenção de discriminações, de estigmas contra negras e negros e a naturalização dos absurdos de uma apropriação cultural e racismo institucional/religioso, entendendo que as pessoas, querendo ou não, são a personificação em si mesmas das instituições às quais representam.

Flickr Marco Castellani

Vale salientarmos que é completamente estúpida a argumentação de que o diabo são os outros (título provocativo do segundo texto), uma vez que é uma evidente justificativa ideológica, uma construção agnotológica tecida desde muito tempo e utilizada para perseguir, estigmatizar, violentar, matar e retirar a condição de pessoa, de grupo social. A professora, artista, educadora e travesti negra paranaense Megg Rayara Gomes de Oliveira, no livro O diabo em forma de gente: (r) existências de gays afeminados, viados e bichas pretas na educação, traça logo no início do livro uma discussão excelente de como a figura do diabo, na tradição cristã, foi sendo moldada histórica e artisticamente para o diferente da norma (o outro) justamente em busca de uma narrativa hegemônica racial, cultural, corporal e, fatalmente, de gênero, que reverbera na forma como educamos pessoas nas escolas.

Acreditamos que, uma das principais possibilidades disruptivas para desvelar agnotologias, remete a enxergar as diferenças não como opositores negativos/hierárquicos frente a uma visão hegemônica de mundo, de igualdade, de ciência e tecnologia e, finalmente, de religare a algo, mas sim como simplesmente diferença. Parece que não passamos do tempo das cavernas e, em nome de uma divindade qualquer, personificamos o mal no outro. Retiramos a sua condição ontológica de ser sujeito e do bem viver a que tem direito para justificar atos de violência, como bem salientou Judith Butler em seu livro, traduzido para o português em 2015, chamado Relatar a si mesmo: critica da violência ética.

Butler, neste livro, faz uma defesa do reconhecer a si e, principalmente o outro, a partir de um exercício dialógico/dialético das diferenças, tal como estamos defendendo nessa série de textos. Como o título deste texto, o dialogo frutífero só pode ocorrer a partir do momento em que pensamos as diferenças de outros modos que não o negativo e estigmatizador. ÒGÚN nos ensina, justamente por ele ser ÒRISÀ e elo entre dois mundos pela sua própria natureza formativa, que a comunicação entre ORUN (os planos sagrados) e AYÊ (os planos terrenos) só é possível a partir do momento em que temos a coragem de compreender as diferenças e agir com justiça, mesmo em situações de discordâncias. Aí ocorre efetivamente o trânsito entre estes planos e a intolerância radical com o intolerante, o moralista, o que prega a sua visão de mundo como a ideal e universalizadora à todas e todos. É não saber manusear o ferro de ÒGÚN com justiça!

Finalizamos esta série com uma interpretação particular de ética e moral, a partir do livro publicado em 2019, intitulado Inflexões Éticas, do professor e filósofo mineiro Thiago Teixeira: se não temos como elemento fundante uma ética inflexiva das diferenças e o senso de justiça que olhamos a partir da comunicação de ÒGÚN com os planos destes universos, jamais entenderemos que esse religare é dialético/dialógico em primeiro lugar, nunca moralista, impositivo e uno. Uma vez que tivemos exemplos históricos de muitas batalhas justificadas por uma visão dita divina (muitas vezes masculina, é importante dizer): desde as guerras santas do Islamismo, passando pelas Cruzadas Cristãs, até os exemplos mais recentes da guerra ao terror com o 11 de setembro de 2001, estigmatizando toda uma cultura muçulmana e resultando em verdadeiros horrores de guerra, fechamento de fronteiras e recrudescimento de políticas públicas econômico/sociais em vários países. Deixamos à leitora e leitor que carinhosamente nos acompanhou nesta leitura, uma pergunta para refletir individual/coletivamente, além de nosso abraço e beijo sinceros: Até quando utilizaremos a diferença como elemento de personificação do mal, a partir dos discursos agnotológicos produzidos?

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