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Transdisciplinaridade e princípio pluralista

Transdisciplinaridade e princípio pluralista

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A ideia da transdisciplinaridade evoluiu a partir do movimento da interdisciplinaridade surgido na Europa na década de 1960, impulsionado pelas rupturas epistemológicas e em meio ao quadro de efervescência cultural e política, quando os movimentos estudantis reivindicavam um novo estatuto de universidade. Tal posicionamento denunciava a visão instrumental de certas ciências, alienando a academia das questões da cotidianidade, afunilando o olhar dos estudiosos, pesquisadores e observadores numa única, restrita e limitada perspectiva.

Diante da fragmentação do saber, em 1961 foi apresentado à Unesco um projeto de pesquisa interdisciplinar para as ciências humanas, orientando-as em direção à convergência, tendo em vista a unidade humana, igualmente presenciada nos momentos de pesquisa. À etapa das relações interdisciplinares, se poderia esperar ver suceder uma etapa superior que seria “transdisciplinar”. Esta não se contentaria apenas em atender às interações ou reciprocidades entre ciências especializadas, mas se estabeleceria com a proposta de situar essas ligações no interior de um sistema total, sem fronteiras estáveis entre as disciplinas.

Por intermédio do Congresso “A ciência face aos confins do conhecimento: o prólogo de nosso passado cultural”, realizado pela Unesco, propunha-se uma pesquisa autenticamente transdisciplinar diante de sistemas fechados de pensamento e dos desafios da época, entre os quais identificava prioritariamente a tecnologia, a robótica e a crise ambiental, com graves ameaças aos organismos vivos.

Maturana e Varela (2001), fazendo coro com o pensamento piagetiano sobre os fenômenos humanos – os quais são biológicos nas suas raízes, sociais nos seus fins, e mentais nos seus meios – balançaram as estruturas da objetividade, alicerçada ao longo da modernidade, com as bases do cartesianismo, que concretizam os pilares das certezas ontológicas. Para esses autores, vivemos com os outros seres vivos, portanto compartilhamos com eles o processo vital. Construímos o mundo em que vivemos durante as nossas vidas, e, por sua vez, ele também nos constrói ao longo dessa viagem comum. Assim, se vivemos e nos comportamos de um modo que torna insatisfatória a nossa qualidade de vida, a responsabilidade cabe a nós.

Essa noção sobre o pensamento complexo encontrou maior ressonância no Congresso “Ciência e tradição: perspectivas transdisciplinares – perspectivas para o século XXI”, em que se exigia, no diálogo entre ciência e tradição, uma nova abordagem científica e cultural: a transdisciplinar.

Complexidade e decolonialidade

Refletindo sobre essas novas formas de se fazer ciência na perspectiva transdisciplinar, Edgar Morin (2005) afirma que o desenvolvimento das competências inatas anda lado a lado com o desenvolvimento das aptidões para adquirir, memorizar e tratar o conhecimento. A metodologia transdisciplinar se desdobra numa atitude transcultural. É, pois, esse movimento espiral que nos permite compreender a possibilidade de aprender, o qual não é apenas reconhecer o que, de maneira virtual, já era conhecido nem apenas a transformação do desconhecido em conhecimento. É a conjunção do reconhecimento e da descoberta. Aprender comporta a união do conhecido e do desconhecido. De acordo com Morin (2005), o novo transdisciplinar deveria fundar-se no paradigma da complexidade, o único capaz de promover um tipo de comunicação sem redução, pois nasce, ao mesmo tempo, do desenvolvimento e dos limites das ciências contemporâneas.

Esta abordagem implica uma concepção renovada da natureza, uma pesquisa tanto das racionalidades imbricadas nas ciências físico-matemáticas, quanto das subjetividades humanas, remodelando o constructo teórico da história, da política, da economia, da educação, da ecologia e também da teologia.

Tal implicação se faz presente, atualmente, sobretudo nas pesquisas sobre nacionalidades, possibilitando, por exemplo, a criação do conceito de decolonização, ou decolonialidade ou ainda pensamento decolonial. Trata-se de produção teórica essencialmente latino-americana, tanto como crítica ao imperialismo ocidental quanto como processo de libertação da dependência da produção de conhecimento com base na episteme eurocêntrica. Nesse sentido, decolonialidade é o descentramento epistêmico, político, econômico, cultural e teológico das formas de se pensar e dos modos de se existir no mundo colonizado pelo padrão eurocêntrico, antropocêntrico, político, econômico, social e religioso (RIBEIRO, 2020).

O determinismo cultural e a ideia eurocêntrica de superioridade de um povo sobre os demais prevaleceram até fins do século 19, quando o evolucionismo perdeu força e foi criticado por apresentar forte etnocentrismo, latente nas ideias e práticas de seus pensadores e do contexto histórico-cultural de dominação dos povos europeus. No entanto, os atuais movimentos identitários vêm assumindo significativos posicionamentos políticos e educativos no combate aos colonialismos modernos, presentes nos tipos de racismo e na discriminação racial nos sistemas de ensino, valorizando os conhecimentos de origem africana e afro-brasileira para romper com os padrões eurocêntricos de ciência e educação (RIBEIRO; GAIA, 2021).

 

Teologia e transdisciplinaridade

A pesquisa sobre o binômio teologia-transdisciplinaridade, do nosso ponto de vista, possibilita a ampliação da compreensão sobre como as diferentes ciências se relacionam e se influenciam mutuamente, ao mesmo tempo que permite os ajustes necessários aos cruzamentos socio-históricos. Além disso, a transdisciplinaridade nos alerta para a experiência transreligiosa do mistério da vida, o que implica fazer teologia sempre aberta ao diálogo entre religiões e distintas convicções.

Nesse sentido, a tarefa teológica se faz na colaboração com outros pesquisadores, das mais variadas áreas, para a adequada compreensão a respeito do modo pelo qual essas ciências se articulam e se influenciam mutuamente, com vistas à criação de instrumentais analíticos que possibilitem a criação de novos paradigmas científicos e sociais.

Para tanto, há que se ter uma base de confiança, a qual não deve estar na “cátedra” de determinada ciência, em si mesma, mas no experimento denominado “equilíbrio dinâmico”, com recorrentes convergências, respeito a outros pontos de vista e perspectivas críticas e a necessária autocrítica para a construção de um diálogo qualificado e novos modelos de alteridade e inclusão.

A alteridade é o reconhecimento da individualidade e das especificidades da outra pessoa ou de outro grupo, e exercê-la é agir com empatia, respeito e tolerância. Ela consiste no reconhecimento de que existem pessoas e culturas singulares e subjetivas que pensam, compreendem e entendem o mundo à sua maneira (RIBEIRO, 2020).

As contribuições das pesquisas e debates sobre transdisciplinaridade, sob a perspectiva do princípio pluralista, colocam alguns marcadores para a criação de ambientes de produção de conhecimento mais consentâneos com a realidade que vivemos.

A pós-modernidade vem agudizando as divisões de classes sociais, raças, etnias, religiões, gêneros e nacionalidades, impondo a urgência de se construírem pontes entre essas divisões com vistas à criação de entendimentos que as superem, na direção da gestão de conflitos e da criação de uma cultura de paz. Para tanto, é imprescindível a tomada de decisões práticas e sustentáveis, que estejam enraizadas tanto na aceitação, compreensão e valorização das diferenças culturais, políticas, econômicas e religiosas quanto na promoção da tolerância em todos os aspectos da vida, rumo a um futuro melhor para esta e para as próximas gerações.

Nesse sentido, sob o ponto de vista da Teologia, as construções teóricas articuladas em torno do conceito de princípio pluralista jogam um papel essencial, pois fornecem uma variedade de interpretações e perspectivas a serem consideradas, oferecendo uma sólida base teológica para o diálogo inter-religioso e para a tolerância entre povos, culturas, classes sociais, etnias, raças e gêneros.

O princípio pluralista valoriza o livre pensamento, impulsionando a reflexão intelectual e o diálogo transversal. Ao mesmo tempo que incentiva a aceitação de diferentes pontos de vista, estimula a convergência de pensamentos, de maneira a reunir instituições, grupos e pessoas de distintas perspectivas teológicas, culturais, sociais e políticas. Esse princípio reforça o fato de que o conhecimento e a experiência são mutuamente enriquecedores, abrindo caminhos plurais a novas interpretações sobre a fé e prática de vida, o que estimula a permanente reflexão crítica acerca dos conteúdos dogmáticos dessa mesma fé e prática de vida.

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O diálogo entre transdisciplinaridade e Teologia fornece um robusto aporte teórico, articulado em torno do princípio pluralista, diversificando o conhecimento teológico mediante a interação entre as ciências, dinamizando, assim, sua percepção, compreensão, conhecimento e abordagem a respeito de determinada realidade emergente.

Por meio da abordagem transdisciplinar, pode-se explorar a inter-relação entre a experiência de fé e outras áreas da vida, como política, economia, educação, meio ambiente, arte, cultura e saúde, para citar alguns exemplos.

A perspectiva transdisciplinar permite que a Teologia alcance melhores ferramentas para responder, de forma significativa, a determinados problemas e questões contemporâneos, ajudando as pessoas e grupos com um entendimento mais profundo de sua fé, orientando-as em sua vida diária para o cultivo de um mundo mais justo, igual e próspero para todos.

 


Referências

MATURANA, H. R.; VARELA, F. J. A árvore do conhecimento: as bases biológicas da compreensão humana. São Paulo: Pala Athenas, 2001.

MORIN, Edgar. Introdução ao pensamento complexo. Porto Alegre: Sulina, 2005.

RIBEIRO, Claudio de Oliveira. O debate sobre o princípio pluralista: um balanço das reflexões sobre o princípio pluralista e suas aplicações. Cadernos de Teologia Pública, São Leopoldo, v. 17, n. 145, 2020.

RIBEIRO, Débora; GAIA, Ronan da Silva Parreira. Uma perspectiva decolonial sobre formação de professores e educação das relações étnico-raciais. Linhas Críticas, v. 27, jan./dez. 2021. Disponível em: https://www.redalyc.org/journal/1935/193567258057/movil/ . Acesso em: 2 fev. 2023.