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Democracia e o associativismo neopentecostal nas periferias brasileiras

Democracia e o associativismo neopentecostal nas periferias brasileiras

Não é preciso um esforço grande para percebermos que a democracia brasileira atravessa profunda crise. O recente crescimento de um pensamento autoritário, que se instalou como parte do poder institucional, ameaça os pressupostos, a legitimidade e o funcionamento básico dessa forma de governo. O campo das ciências sociais brasileira nunca nutriu grandes ilusões sobre a solidez da democracia em nosso país. Diversos pesquisadores ao longo dos séculos XX e XXI vêm apontando a fragilidade de nossas instituições e de nossa cultura política democrática. São muitas as marcas dessa fragilidade: o baixo conhecimento e envolvimento político da população; a colonização das instituições democráticas por grupos elitistas predatórios; o poder do capital que subjuga o interesse público, entre tantos outros. No entanto, eu gostaria de fazer uma breve reflexão sobre um ponto fundamental, que a meu ver representa um enorme desafio ao estabelecimento democrático no país – a baixa capacidade associativa de nossa sociedade. Apresentarei, também, alguns apontamentos sobre a relação existente entre o associativismo religioso e a qualidade da democracia no Brasil.

Associar-se significa reunir-se e organizar-se a partir de temas, interesses e práticas que são importantes e fazem sentido para um determinado grupo de pessoas. Quando um grupo se associa cria-se um espaço de possibilidades para que os indivíduos compartilhem ideias, demandas, críticas e experiências que fortalecem os laços entre eles e produzem um poder coletivo capaz de alcançar voz e visibilidade na esfera pública. Além disso, a prática associativa fortalece virtudes cívicas básicas como o saber falar e ouvir, praticar a tolerância e buscar um consenso entre interesses divergentes (Warren, 2001). Exemplos de arranjos associativos são vários, eles estão no campo profissional, em demandas locais, em vivências identitárias e nas lutas dos movimentos sociais, por exemplo. De acordo com a literatura política clássica, quanto maior o grau de associativismo em uma sociedade, mais vigorosa tende a ser a democracia. A lógica é a de que quando nos associamos criamos redes sociais que difundem uma educação democrática e expandem concepções mais plurais sobre a vida conjunta.

Ainda no século XIX, na década de 1830 , o pensador francês Alexis de Tocqueville testemunhou o poder associativo nos Estados Unidos da América. O jovem filósofo constatou que o florescimento democrático daquela nação se sustentava na capacidade que as pessoas tinham em compartilhar práticas, ideias e argumentos, permitindo uma experiência coletiva mais plural e consciente. Outro clássico da teoria política, já no século XX, é o livro “Comunidade e Democracia” do autor americano Robert Putnam. Nesse estudo, Putnam apresenta os resultados de minuciosa pesquisa realizada na Itália, na qual ele revela a forte correlação entre vigor democrático e vigor associativo. O capital social gerado pelas práticas de associação cria, assim, terreno fértil para o florescimento de um cenário político mais transparente, participativo e inclusivo.

Ao nos voltarmos para o caso brasileiro é ponto consensual em nosso pensamento político de que existe um déficit significativo na capacidade associativa dos cidadãos. Sérgio Buarque de Holanda no clássico “Raízes do Brasil” investiga um traço cultural predominante nas relações interpessoais tupiniquins – a predileção aos privilégios individuais e familistas em detrimento de um senso público de comunidade. Assim, o brasileiro colocaria em primeiro lugar seu bem-estar e o daqueles que estão mais próximos, independente dos parâmetros de convivência no espaço público. De acordo com o autor, haveria uma constante relativização dos processos e instituições públicas quando essas colocam em risco supostas vantagens pessoais.

Um importante “sinal” da baixa capacidade associativa no Brasil está no índice de confiança interpessoal entre os brasileiros. A presença de confiança entre os cidadãos é aspecto fundamental para o desenvolvimento de processos políticos básicos que passam pela concepção de que partilhar o espaço público é parte vital da vida coletiva e favorece a comunidade como um todo. Porém, diversas pesquisas realizadas em âmbito nacional revelam que a confiança entre as pessoas no país é mínima. Uma pesquisa latino-americana, concluída em 2018 aponta que a confiança dos brasileiros na “maioria das pessoas” é a mais baixa dentre todos os países pesquisados, com um índice de apenas 4% por cento, como revela o gráfico a seguir:

Fonte: Latino Barômetro (2018)

Quanto menos confiança interpessoal, menor se torna a capacidade associativa e menor, também, se torna a confiança nas instituições sociais. De acordo com os resultados da pesquisa sobre o Índice de Confiança Social (ICS), calculado pelo IBOPE Inteligência (2017), os brasileiros depositam seu maior nível de confiança institucional no Corpo de Bombeiros (86 por cento) e nas Igrejas (72 por cento), enquanto o Governo (14 por cento), o Parlamento (18 por cento) e Partidos Políticos (17 por cento) apresentam baixíssima adesão popular.

Esses dados podem nos levar ao seguinte questionamento: dentre as diversas possibilidades de associação, seria a vivência religiosa um exemplo viável para o fomento democrático? Ou seja, se existe uma adesão religiosa tão grande no Brasil seria possível imaginar efeitos positivos desse fato sobre a experiência associativa, e, por consequência, no fortalecimento da própria democracia?

Em algumas dimensões é possível dizer que sim. As comunidades religiosas tendem a promover uma experiência comunitária envolvente, aglutinando indivíduos em torno de valores, ritos e ideias em comum, fortalecendo os laços locais. Potencialmente, a formação de comunidades locais coesas e ativas pode favorecer uma cultura política mais engajada e participativa. Um exemplo claro desses efeitos pode ser encontrado nas chamadas “comunidades eclesiais de base”, oriundas do contexto religioso católico na década de 1970, que contribuíram decisivamente na construção de um cenário político e social de forte associação popular na época, em torno das lutas por inclusão econômica, distribuição de renda e de terras, bem como promoção da justiça e da liberdade. Tudo isso em meio a um regime ditatorial que restringia as liberdades civis e políticas.

Por outro lado, é possível questionarmos se alguns valores e práticas religiosas não poderiam ter um efeito contrário à disseminação de um senso de comunidade plural e inclusiva. Acredito que o crescimento da religião evangélica no Brasil – especialmente a vertente neopentecostal – pode nos trazer algumas reflexões importantes nesse sentido.

De acordo com pesquisa do Datafolha (2020), 31% por cento dos brasileiros se declararam evangélicos no país, e destes, 69% por cento tem renda de até três salários-mínimos. Outra informação importante é a de que os grupos evangélicos que mais crescem são os chamados neopentecostais, que já se configuram como 60% entre os evangélicos no país. Esses dados nos revelam que, atualmente, a maioria dos neopentecostais no Brasil habitam espaços periféricos das grandes cidades, enfrentando condições estruturais precárias para a vida, com desafios de sobrevivência diários. Nesse contexto, é possível indagarmos se a proliferação de igrejas evangélicas nessas localidades contribuiria na construção de um tecido cívico mais denso, com ampliação de capital social, confiança interpessoal e, consequentemente, avanço de práticas e lutas democráticas. A pergunta que pode ser realizada é a seguinte: se uma comunidade religiosa pode representar uma forma de associativismo válida, a atuação das comunidades neopentecostais representaria um efeito democratizante nos espaços periféricos brasileiros?

Alguns autores vêm apontando que as igrejas neopentecostais nesses espaços urbanos vêm cumprindo uma função social importante de mediação de algumas crises e carências clássicas, intervindo em situações que em o Estado se mostra ausente, como no resgate social de famílias, na inibição de violência e mesmo na assistência material (Rivera 2010). Porém, a atuação dessas igrejas não necessariamente efetiva um vínculo democrático entre a comunidade de fiéis e o espaço político no qual estão inseridas. Se a coletividade religiosa se baseia em princípios e crenças exclusivistas, por exemplo, os laços entre o grupo e a comunidade mais ampla se tornam enfraquecidos.

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Nesse sentido é preciso destacar dois pontos presentes no ethos e doutrina neopentecostal que potencialmente podem prejudicar a ampliação do tecido democrático nas periferias. Tais características seriam a chamada “guerra espiritual” e a “teologia da prosperidade” (Mariano, 1995).

A guerra espiritual parte do pressuposto de que a realidade mundana está povoada por ameaças demoníacas que se expressam em crenças, práticas e posturas sociais que seriam contrárias aos parâmetros morais de santidade afirmados pelos fiéis neopentecostais. Sendo assim, a necessidade de enfrentar esses males seculares faria com que os adeptos dessas comunidades mantivessem uma postura de separação e distanciamento do restante da sociedade. As relações sociais empreendidas fora do ambiente religioso acabam, portanto, marcadas pela tentativa de conquista de novos fiéis e não pela abertura para o convívio com as diferenças. Essa predisposição excludente prejudica a criação de vínculos sociais, criando fraturas profundas entre os indivíduos no espaço local. Além disso, acentuam-se rivalidades religiosas, e se enfraquece o exercício da tolerância, com consequente corrosão da confiança entre as pessoas.

Já a “teologia da prosperidade” apregoa a ideia de que o sucesso material e simbólico do fiel é determinado pelo fortalecimento de sua fé pessoal bem como por sua disposição em manter-se santo, ou seja, separado do mundo e suas ameaças. O pressuposto básico dessa noção é o de que a mente humana pode controlar a esfera espiritual, que, por sua vez, determina a realidade material. Assim, os benefícios espirituais (saúde e prosperidade) podem ser reivindicados pelo fiel através do uso correto da mente (Siepierski, 1997). Essa lógica racional individualista acaba gerando uma postura pouco afeita a vínculos que não se encaixem em uma trajetória pessoal e espiritual rumo ao sucesso econômico e à distinção social.

Atualmente as igrejas neopentecostais multiplicam-se em espaços que o Estado, os partidos, e outras tradicionais formas de organização política não conseguem mais se inserir. Sua força, influência e poder crescem a cada dia. Ainda há muito que se compreender sobre tal fenômeno e seus impactos políticos, mas as reflexões aqui expostas objetivam apontar que a relação entre associativismo religioso e fortalecimento democrático não é um dado e, muito menos, óbvia. É importante perceber que as comunidades evangélicas tendem a alcançar um número cada vez maior de fiéis, especialmente nas localidades periféricas em nosso país. A atenção às consequências que esse processo vem trazendo para a realidade democrática brasileira é crucial para compreendermos melhor o complicado cenário político atualmente e em um futuro próximo.


Referências 

MARIANO, Ricardo. Neopentecostalismo: os pentecostais estão mudando. São Paulo: USP, 1995.
RIVEIRA, Paulo Barreira. Pluralismo Religioso e Secularização: Pentecostais na periferia da cidade de São Bernardo do Campo no Brasil. Revista de Estudos da Religião. pp. 50-76, março, 2010.
SIEPIERSKI, Paulo D. Pós-pentecostalismo e política no Brasil. In: Estudos Teológicos. v. 37, n. 1, 1997.
WARREN, M (2001), Democracy and association. Princeton, NJ, Princeton University Press.