Inflexões éticas: Um pequeno grande livro

Inflexões éticas: Um pequeno grande livro
Marcelo Barros 19 de março de 2020

Para se ver o horizonte é preciso sair do lugar fechado ou ao menos abrir uma janela que nos permita descortinar o caminho em frente. Mais ainda quando se trata daquilo que Márcio Paiva, no prefácio do livro Inflexões éticas, muito bem denomina o horizonte do outro. Nada mais atual, nada mais urgente em uma sociedade autocentrada e ególatra do que esse apelo a uma abertura axiológica à alteridade. O querido amigo e grande intelectual Thiago Teixeira nos propõe uma Ética formulada e vivida, como em uma genuflexão amorosa, diante do outro.

No seu excelente prefácio, Márcio Paiva nos recorda que a Ética da Alteridade já nos tinha sido delineada, entre outros, por filósofos  como Emmanuel Levinas e, aqui no Brasil, Henrique Lima Vaz. No entanto, na escrita de Thiago Teixeira, a alteridade tem rosto e corpo muito concretos e que nos aparecem como na nudez de toda a sua realidade: é a realidade do corpo negro que resiste e, em sua resistência, transgride os códigos dogmatizados pela sociedade dominante. É essa coragem profética de Thiago que dá a esse livro a sua força própria e original.

Fonte: Jonathan Félix

Na América Latina, desde os anos 70, o argentino Enrique Dussel já tinha formulado a sua Ética da Libertação, como parte da grande obra Filosofia da Libertação que ele dedicava “aos povos do terceiro mundo, que vencem o fratricídio; à mulher camponesa e proletária, que suporta o uxoricídio; à juventude do mundo inteiro que se rebela contra o filicídio e aos anciãos sepultados vivos nos asilos pela sociedade de consumo”. Thiago se coloca nessa vertente e toma essa palavra para o outro, que, aqui e agora, toma o rosto dos irmãos e irmãs afrodescendentes e todas as tribos da população LGBTI.

Ao tomar esse ponto de partida concreto e situado nas trincheiras das lutas pelo direito de ser e se dizer, Thiago supõe a diferença entre Ética e Moral. Essa é compreendida como o conjunto das normas e costumes que a sociedade interioriza como universais, mas são simplesmente legitimadoras das discriminações e exclusões nossas de cada dia. Desde a introdução,  Thiago propõe uma ética, cuja intenção é desarticular os valores morais que subjugam o outro e enfraquecem a promoção do encontro (p. 17). O primeiro capítulo trata justamente da Moral e das teias de violência que ela contém. Essa reflexão se aprofunda ainda mais no 2º capítulo: “A moral e o efeito perigoso da verdade versus a subversão necessária”. Aí a subversão significa a libertação do racismo, da homofobia e o direito de viver a dignidade no modo de ser plural das existências livres. A partir daí se revela o desacerto do monólogo, a necessidade da escuta do outro e a subversão como horizonte de uma ética da diferença.

No seu belo e sóbrio posfácio, Jonathan Felix deixa claro que, ao nos provocar para o diálogo que nos tensiona, esse livro é convite à construção de novos pactos pela humanidade.

Para mim, a maior surpresa dessa leitura foi ver como Thiago Teixeira é capaz de propor essa reflexão exigente e transgressora, como irmão e companheiro que tem coragem de nos dar as mãos e como que nos conduzir pelos meandros, questões e desafios dessa ética flexível e nem por isso menos radical. E ele nos conduz de tal modo que nos deixa sentir o seu compromisso apaixonado pela causa libertária e consegue ir muito além da discussão acadêmica sobre esses temas. Em cada linha do seu texto, dá para sentirmos o seu jeito de mistagogo nos abrindo as portas do mistério da liberdade e do coração negro de tanto amar.

De forma laical e secular, tinha a impressão de estar lendo um livro de teologia trans-religiosa da libertação não por falar de Deus, mas porque, ao nos convidar às lutas pelo direito à liberdade e a todas as formas de expressão de amor, Thiago Teixeira nos conduz  ao próprio mistério último do Amor.

Parabéns, meu querido e vamos em frente.

Seu irmão (seu outro Eu)