SEJA ASSINANTE APOIADOR(A)

SEJA ASSINANTE APOIADOR(A)

Apoie a produção de conteúdo gratuito

Êxtase religioso ou frenesi macabro?

Êxtase religioso ou frenesi macabro?
22 de julho de 2020 Emanuel Freitas da Silva

Uma multididinha (um pequeno aglomerado com pretensões de multidão) aguardava ansiosamente pela visão de sua divindade. Ignorava o perigo de contagio de um vírus que circulava pelo mundo; tudo valia para estar diante do “mito”. Tão logo avistou aquele corpo se deslocando, foi tomada por uma euforia que a fez trocar, por descuido ou não, a clássica frase: “eu, sou brasileiro, com muito orgulho, com muito amor” por “eu, sou Bolsonaro, com muito orgulho, com muito amor”. Era isso mesmo: depois de tanto proclamar “Brasil acima de tudo”, aquela multididinha foi aos poucos convencida de que “Brasil” significa “ele”, o “mito” (pois, o que importa, mesmo, para ela é “ele”).

A aproximação daquele corpo, que um dia se entregara a ela jorrando sangue do lado (faltando, apenas, a “água” para se igualar ao outro messias), fazia com que a multididinha mudasse o refrão e passasse a gritar “mito, mito, mito”, quase como uma glossolalia, um “falar em outras línguas”, línguas que só ela, e ele, compreendia.

Entre ela e ele havia um curto espelho d’água, como a sugerir que, tal como o outro messias, ele andaria nas águas e cairia em seus braços, numa espécie de comunhão com o corpo sagrado do mito. Muitos de joelho, alguns de pé, em busca do melhor registro fotográfico.

Gritos eufóricos substituíam os sussurros de oração no templo. Nova glossolalia. Êxtase, ante a visão beatífica do fim de tarde.

“Deus é contigo”, podia se ouvir. Na verdade, o que se percebia era que “deus era ele”.

De repente, o grande gesto místico: o messias tira do bolso a materialização de seu poder miraculoso – a cloroquina! Contra tudo e contra todos, contra a Ciências, contra o saber médico, contra os infectologistas, contra a OMS, desde março o messias recomendava o seu uso. O messias levara seus seguidores, desde março, a cumprir o texto de Romanos: “esperar contra toda esperança”, pois “a fé é uma certeza do que não se vê”. Era isso o que ele ofereceria com o medicamento: “contra toda descoberta científica, eu vos ofereço um remédio sem comprovação”. Tomai-o. Crede nele. É o que eu vos digo. Tomai-o e recomendai-o. Levai-o aos confins, como outrora outros discípulos levaram a Boa-Nova. Essa é minha boa nova, disse e redisse, em atos, o líder.

Agora, ali estava ele, desta vez erguendo a promessa de cura e salvação aos seus. Eis o meu medicamento, tomai e vivei!

Bolsonaro celebra cloroquina com apoiadores - Foto: Reprodução/Redes Sociais

A multididinha, com pretensões de representar o país de mais de 200 milhões de habitantes, ajoelhou-se, rendeu graças e saiu dali disposta a, fundamentalisticamente, impor sua crença ao conjunto da nação. O que não corroborar a mensagem de salvação será declarado fake, e compor o index do século XXI. Heresia.

Antes de acabar o culto, um irmão toma a palavra para dar uma palavra de ciência, ou de profecia, ou de sabedoria.

Aleluia, dizem os liderados. Dali partiriam para suas casas, prenhes da mensagem de salvação do messias.

Fim do conto.

Cada vez mais mostra-se grave a condução do presidente no assunto pandemia. Em breve chegaremos a dois milhões de mortos, e sua preocupação continua a ser agitar e contagiar seus seguidores, a cada dia em menor número mas com mais som na garganta.

Com o ato deste domingo, outro elemento religioso parece ter se juntado ao movimento bolsonarista: ao elevar uma caixa do medicamento cloroquina, o presidente repetiu o ato sacerdotal católico de erguer o cálice e a hóstia, símbolos do corpo e do sangue de Cristo; ou melhor, símbolo/sinal da presença de Cristo entre os seus. “Eis o meu corpo e o meu sangue”, lembra o ritual católico. “Eis o que vos recomendo”, “eis uma parte de mim”, “eis a cura”, diz Bolsonaro a seus seguidores.

Na tradição cristã, a comunhão foi a forma com a qual Jesus estabeleceu sua presença entre os seguidores: “estarei com vocês todos os dias, até o fim do mundo”, lê-se no Evangelho. O ato de Jair vai no mesmo sentido: com a cloroquina, permanecerá entre os seus, seja na ingestão como pretensa prevenção (o que não serviu para o próprio presidente), seja como “memória” da cura operada, seja como símbolo da força mágica de suas palavras.

Enquanto isso, nenhuma política eficaz se desenha para os contaminados pela covid. O bem público passou a ser aquilo que, macabramente, excita e põe em frenesi seus seguidores.

SEJA ASSINANTE APOIADOR(A): Apoie a produção de conteúdo gratuito

APOIE A SENSO
Inscreva-se na newsletter da Revista Senso e receba as novidades exclusivas em seu e-mail!