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Vacina, pastores e indígenas: a desinformação que mata

Vacina, pastores e indígenas: a desinformação que mata

Em meio a críticas, o plano de vacinação do Brasil estabeleceu prioridade às comunidades indígenas, dada a vulnerabilidade destas populações no país. Sonia Guajajara, da Articulação dos Povos Indígenas do Brasil (Apib), justificou tal prioridade, em um tom que demonstra a seriedade do tema: “Nós estamos sendo vacinados primeiro porque somos vulneráveis, corremos o risco de extermínio com essa pandemia”. No entanto, Sonia complementou: “O plano de vacinação ainda é muito excludente e acaba não contemplando metade da população indígena porque considera apenas os que estão nas aldeias, cadastrados no sistema da Sesai”1Pastores afastam indígenas da vacinação, relatam lideranças (terra.com.br). Acesso em janeiro de 2021..

Além de todas as dificuldades envolvidas na demarcação dos povos indígenas e no reconhecimento da população em geral sobre as necessidades destes grupos, as controvérsias de discursos em torno das vacinas estão afetando a adesão dos povos originários. Em meio às dificuldades em garantir o plano de vacinação, na Terra Indígena Araribóia, na Amazônia maranhense, pastores da Igreja local da Assembleia de Deus estariam desencorajando os grupos originários a tomar as vacinas, sob argumentos como o fato de que ela viria com um chip ou que a “vacina não é de Deus”2Idem à nota anterior., como afirma Nara Baré, coordenadora-geral da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), em relação a regiões como Itacoatiara, região do rio Urubu, Manaus, Xingu (Mato Grosso) e Rondônia.

Pensar sobre o papel das lideranças religiosas nesse contexto é também refletir sobre a história da modernidade e da colonialidade. A manutenção e quebra das relações de subalternidades também vêm sido sustentada historicamente pelas religiões. Jorge Rieger (2008, p. 100) indica que “todos os impérios coloniais modernos foram justificados religiosamente. Por este motivo o estudo crítico da religião é crucial para investigações pós-coloniais”.

Nesse contexto, ao analisar a dialética entre as práticas discursivas de lideranças cristãs e de lideranças indígenas sobre a Covid-19 e suas implicações sociais, adentramos o campo da colonialidade do saber (MALDONADO-TORRES, 2007), relativo à produção do conhecimento, que envolve os processos de apropriação cultural, aculturação, silenciamento, imposição de conhecimentos universalizantes e hegemônicos. Evidente que tais processos não ocorrem de forma unilateral e unívoca, como indica Homi Bhabha (1998) e assim como já afirmava Roger Bastide (1970), a aculturação não desemboca em uma dominação total de uma parte e uma submissão e servilismo da outra. Tais relações e processos são frequentemente ambíguos, complexos, dialéticos e mutuamente interferentes. Cabe considerar também que cultura não é um sistema fechado de valores, em especial quando levamos em conta o contexto da globalização.

Compreendemos que a descolonização não é um fenômeno consolidado, pelo contrário, a “matriz de poder colonial” (QUIJANO, 2005) se mantém nas estruturas, atos, práticas discursivas, mentalidades e em vários âmbitos das relações cotidianas, constituindo-se como uma “colonialidade global” (GROSFOGUEL, 2008, p. 117). O tríplice processo de colonialidade: do ser, do saber e do poder (MIGNOLO, 2005; 2007b) é engendrado nas narrativas e práticas sociais, dentre elas as práticas discursivas, que acabam por produzir relações de apagamentos epistêmicos.

Boaventura de Sousa Santos (2006) chama atenção para o epistemicídio das expressões culturais, religiosas e linguísticas dos povos subalternizados, dentre eles podemos destacar os povos originários. Ele aponta ainda, um tipo de pensamento desenvolvido no Ocidente, denominado por ele de pensamento abissal (SANTOS, 2007), que opera no estabelecimento de fronteiras cognitivas que impedem o diálogo e o reconhecimento da alteridade.

Beto Marubo, da União dos Povos Indígenas do Vale do Javari (Unijava), afirmou que: “aldeias já disseram à Sesai (Secretaria Especial de Saúde Indígena) que não irão aceitar a vacina”3Pastores afastam indígenas da vacinação, relatam lideranças (terra.com.br). Acesso em janeiro de 2021.. Essa “colagem” de discursos de pessoas nativas subalternizadas que se mantêm fortemente conectadas à matriz da colonialidade é conhecida como mimetismo. Homi Bhabha (1998) aponta a mimese como uma atuação ambivalente dos povos colonizados que acabam por reproduzir os discursos e modelos culturais dominantes, no entanto, tal reprodução não é uma cópia, configurando-se como uma retórica que eventualmente “escorrega” e acaba por utilizar algum tipo de estratégia comunicacional perturbadora como a ironia. Assim como Roger Bastide (1970) já observava, não se trata de uma forma de imitação servil. Outras estratégias discursivas que acompanham o mimetismo são a camuflagem e a dissimulação, orientadas para as cópias subversivas, que conferem algum grau de poder aos povos colonizados, mantendo-os, no entanto, na matriz de submissão.

Tal retórica tem ressonância também em lideranças de grupos cristãos conservadores da América Latina. O pastor argentino Alberto Savazzini, da Igreja Deus é amor, sediada em Buenos Aires, que fez coro com os memes circulados nas redes sociais: “É muito provável que com essa vacina nos queiram meter dentro do corpo um nanochip de geolocalização”. Tal narrativa, além de desqualificar o saber científico, entrando em um campo de disputas discursivas, também resvala na compreensão – muito estudada nos estudos de gênero – de que o corpo humano faria parte de um projeto divino de criação e, a partir de tal perspectiva, as transformações ou interferências humanas no corpo tornam-se deformações ou afrontas ao projeto divino. A pesquisadora Maria José Rosado-Nunes (2005), pensando no contexto das relações de gênero, chama atenção para um fundamento que pode servir também às reflexões sobre a vacina e sobre a fala do pastor argentino Alberto, por se tratar de uma diretiva dogmática religiosa cristã acerca do corpo:

Essas linhas diretivas do pensamento feminista têm nas religiões suas principais antagonistas, uma vez que estas definem ‘a natureza humana’ como resultado de uma determinação divina intocável. (…) O fundamento dessa visão encontra-se em uma ordem não humana, não histórica, e, portanto, imutável e indiscutível. (ROSADO-NUNES, 2005, p. 363).

Também chamamos atenção para os silenciamentos discursivos que ocorrem nessa dinâmica. Nara Baré, da Coordenação das Organizações Indígenas da Amazônia Brasileira (Coiab), afirma: “a grande questão é que os que são seguidores dessas igrejas não falam. São os familiares desses parentes que contam porque eles estão muito preocupados”4Idem à nota anterior.. A indiana Gayatri Spivak (2010) questiona quem tem legitimidade para falar em determinados contextos e quem é sistematicamente silenciada(o).

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Finalmente, dentre as várias desinformações sobre a vacina, Marubo indica ainda que a comunicação de líderes evangélicos é feita muitas vezes por rádio, o que torna ainda mais efetiva e espraiada a mensagem. Ele diz: “Na comunicação que eles fazem por rádio, que todas as aldeias escutam, eles dizem que a vacina foi fabricada muito rápido para os indígenas virarem cobaia”5Pastores afastam indígenas da vacinação, relatam lideranças (terra.com.br). Acesso em janeiro de 2021..

Considerando, portanto, o cenário que envolve a dialética da colonialidade entre narrativas cristãs e indígenas, alertamos, com este texto, para os apagamentos epistêmicos que têm sido realizados, bem como para os processos de colonialidade do saber que têm se estabelecido entre tais grupos, em especial no cenário dos grupos indígenas amazônicos. A despeito da multiplicidade de posturas de lideranças religiosas acerca da Covid-19 e de suas implicações sociais, que vão desde um alinhamento e respeito às normas sanitárias e regras de distanciamento social, até às mais afrontosas e irresponsáveis posições quanto à quarentena e as orientações científicas, é possível observar que a pandemia tornou-se pano de fundo para a manutenção de um lócus de poder de grupos evangélicos conservadores. Lembrando que não se trata de identificar automaticamente o discurso cristão como colonialista e hegemônico, mas compreender como a narrativa cristã tem legitimado estratégias de manutenção de lócus de poder epistêmico ao longo da história e, infelizmente, como tais relações seguem sendo sustentadas.


Referências

BASTIDE, Roger. “L´Acculturation Littéraire: Sociologie et Littérature”. Dans: Le Prochain et le Lointain. Paris: Cujas, 1970, p. 201-209.
BHABHA, Homi K. O Local da Cultura. Belo Horizonte: UFMG, 1998.
MALDONADO-TORRES, Nelson. Sobre la colonialidad del ser: contribuições al desarrollo de um concepto. 2007.
MIGNOLO, Walter. Introduction. Coloniality of power and decolonial thinking. Cultural Studies, v. 21, n. 2-3, p. 155-167, mar./maio 2007b.
MIGNOLO, Walter. A colonialidade de cabo a rabo: hemisfério ocidental no horizonte conceitual da modernidade. In: LANDER, Edgardo. (Org.). A colonialidade do saber: eurocentrismo e ciências sociais: perspectivas latino-americanas. Buenos Aires: Clacso, 2005.
QUIJANO, Anibal. Colonialidade do poder, eurocentrismo e América latina. Em: A Colonialidade do saber, eurocentrismo e Ciências sociais. Buenos Aires: CLACSO, 2005.
RIBEIRO, Claudio de Oliveira. Religião, decolonialidade e o princípio pluralista. Numen, Revista de Estudos e Pesquisa da Religião, v. 23, no. 1, 2020.
RIEGER, Jorge. Libertando o discurso sobre Deus: pós-colonialismo e o desafio das margens. Estudos de Religião, Ano XXII, n. 34, 84-104, jan/jun. 2008
SANTOS, Boaventura de Sousa. Para além do Pensamento Abissal: das linhas globais a uma ecologia de saberes. Revista Crítica de Ciências Sociais, 78(1), 3­46, 2007.
SANTOS, Boaventura de Sousa (Org.). A gramática do tempo: para uma nova cultura política. São Paulo: Cortez, 2006.
SPIVAK, Gayatri. Pode o subalterno falar? Belo Horizonte: Editora UFMG, 2010.
WALSH, Catherine. Interculturalidad Crítica/Pedagogia decolonial: apuestas (des)de el in-surgir, reexistir y re-vivir. In: Memórias del Seminário Internacional “Diversidad, Interculturalidad y Construcción de Ciudad“, Bogotá: Universidad Pedagógica Nacional, 2007.
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Notas