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Isolamento social por Covid-19 cria ponte com passos de Jesus em quarenta dias de errância no deserto

Isolamento social por Covid-19 cria ponte com passos de Jesus em quarenta dias de errância no deserto
7 de maio de 2020 Douglas Caputo

Para fiéis de diferentes religiões, internet vira igreja em tempos de pandemia. Se para Jesus deserto foi o espaço de reflexão, para os confinados pelo coronavírus do século 21, o ambiente virtual inaugura a interatividade peregrina para aqueles que não abrem mão de professar fé institucionalizada.    

A narrativa bíblica relata a quarentena de Jesus pelo deserto da Judeia, há mais de dois mil anos. Entre o jejum e as investidas de Satanás, Cristo teria cumprido a provação com êxito, conforme consta em três dos quatro evangelhos do Novo Testamento, descritos por Mateus, Marcos e Lucas.

A tentação messiânica parece profecia para a comunidade global do século 21. Cercada pela pandemia do coronavírus, a sociedade tenta cumprir medidas de isolamento social também chamada de quarenta, embora a reclusão já dure bem mais tempo dos que os 40 dias de errância de Cristo pelo deserto.

Diante da curva ascendente de Covid-19, professar a fé por meio de diferentes religiões tem sido um desafio imposto pelo embargo às aglomerações sociais. Nem mesmo as tradicionais celebrações da Semana Santa puderam ser encenadas nas ruas em 2020, o que trouxe frustração para muitos fiéis.

Praticante do catolicismo, a professora aposentada Carlita de Castro, pela primeira vez na vida, não participou presencialmente dos rituais de Paixão, Morte e Ressureição de Cristo. Moradora do distrito de Mercês de Água Limpa, em São Tiago (Campos das Vertentes), Carlita, que também é secretária paroquial, usou a tecnologia para acompanhar a Semana Santa.

Isolamento social obriga práticas religiosas dentro de casa (Foto: Douglas Caputo)

Isolamento social obriga práticas religiosas dentro de casa (Foto: Douglas Caputo)

“Confesso que foi muito difícil aceitar essa situação, mas através da acessibilidade aos meios de comunicação modernos e, sabendo que a CNBB sugeriu que os bispos orientassem os padres a celebrarem via internet, compreendi que cada casa se tornaria verdadeiramente uma Igreja doméstica”, enfatiza Carlita, que segue diariamente os ritos católicos por meio de lives e grupos sacros nas redes sociais.

Estudos bíblicos e louvores também estão no lar da são-tiaguense Rita de Cássia Lara. Crooner de bandas locais por 12 anos, a praticante da religião Cristã Protestante trocou a agitação dos palcos noturnos pelo repertório gospel da igreja que frequenta. Apesar dos ensaios com irmãos estarem suspensos pela Covid-19, Rita diz que as canções religiosas continuam em casa, como forma aliviar a tensão trazida pela pandemia.

“Não vivo mais aquela agitação de todo final de semana ter que arrumar malas para viajar, tocar em várias cidades, o glamour das roupas de palco, os repertórios variados. Hoje, minha voz é instrumento de adoração e louvor a Deus. Canto no chão ou em pequenos altares fora do período de quarentena, mas vivo muito melhor”, completa Rita, que justifica a ausência de lives durante a pandemia pelo tamanho reduzido da congregação.

Já as Testemunhas de Jeová adotaram a comunicação on-line para não interromperem a pregação durante a quarentena. Segundo o ancião [líder] do Salão do Reino de São Tiago, José Pedrozo, foi criada uma logística virtual para chegar às pessoas neste momento que ele classifica como “Grande Tribulação” e prenúncio para a “Guerra do Armagedom” [Juízo Final].

“Antes do julgamento final, Jesus avisa a população com alguns sinais. Por isso, não podemos parar nossa missão. Fazemos reuniões on-line todas as quintas-feiras e sábados e os estudos bíblicos têm sido por telefone. Também temos usados números telefônicos aleatórios para tentar pregar para as pessoas, já que nosso trabalho de campo parou durante a pandemia”, explica Pedrozo.

Sincretismo religioso une religiões em altar doméstico (Foto: Carlos Lara)

Sincretismo religioso une religiões em altar doméstico (Foto: Carlos Lara)

Espiritualidade    

O belo-horizontino Carlos Henrique Lara, impossibilitado de frequentar o terreiro umbandista por conta do isolamento social, também criou um ambiente em casa para professar a religião durante a quarentena. “Uma forma de preservar os corpos material e espiritual bem como o espaço onde vivo”, diz o funcionário de uma empresa de Tecnologia da Informação.

“Tenho um altar em casa com imagens e outros itens associados à Umbanda e acendo velas quase diariamente. Faço as mesmas orações dos dias de giras [nome dado aos rituais de atendimento] e, quando sinto necessidade, ouço pontos cantados [tipo de oração Umbanda] para acalmar a mente e o espírito. Viver a religião sozinho tem ajudado a ter esperança em algo melhor no futuro”, completa Lara.

Sem também poder ir a templos budistas em BH por conta da pandemia, o gerente jurídico Eduardo Iandê Castro e Resende defende a espiritualidade a partir de meditações diárias e de yoga. Além disso, acompanha transmissões on-lines da monja Coen e do monge Satyanatha. Para o advogado, a crise sanitária é o momento para se dedicar ao tempo presente.

“O Budismo prega a atenção no aqui e no agora. Isso ajuda os praticantes a controlarem a ansiedade, a depressão e outros males, deixando de viver o passado e tentar prever o futuro para experienciar cada instante de forma plena. A pandemia é um momento importante para olharmos para dentro, repensarmos nossa vida e nossas certezas”, sentencia Resende.

A espírita kardecista Iara Romeiro concorda. Sem poder frequentar a Casa Espírita Chico Xavier, em São Tiago, ela crê que o período pode ser muito produtivo para as relações familiares, já que antes do Coronavírus a convivência em casa estava esvaziada em função da rotina atribulada fora do espaço doméstico. Iara descarta ainda que a Covid-19 seja prenúncio de Apocalipse.

“Minha crença sempre me fez acreditar que a morte já tem sua hora marcada na nossa programação de existência e que, portanto, basta fazer a prevenção e continuar a vida sem pânico”, pondera a espírita. Embora participe de grupo virtual do Centro, Iara acentua que “sinto falta de reuniões com grupos maiores, já que temos as mesmas crenças, ajudando uns aos outros”, comenta ao mesmo tempo que torce para a quarentena terminar logo.

Ainda sem previsão de retomada de atividades consideradas não-essenciais, o Governo de Minas Gerais segue os decretos editados pelo Governo Federal, conforme consta no site da Secretaria de Estado de Saúde mineira.

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