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Quando eu trouxer nuvens sobre a terra e nelas aparecer o arco-íris

Quando eu trouxer nuvens sobre a terra e nelas aparecer o arco-íris
Ana Ester 23 de junho de 2020

As bandeiras geralmente são reconhecidas por serem símbolos nacionais. Sua origem remete à Idade Média, quando um pedaço de pano era amarrado a um estandarte para evitar que a tropa inimiga atacasse seus próprios compatriotas. Desde então, as bandeiras têm sido usadas das mais diversas formas. Quem nunca viu uma bandeirinha com as cores do arco-íris dando pinta por aí? Em grandes manifestações nacionais, içada em uma barraca na praia (Viva o Posto 9 de Ipanema), em concertos musicais. Ela está por todo lugar, como uma entidade no meio de nós.

Gilbert Baker foi quem criou, para o Dia de Liberdade Gay de São Francisco, na Califórnia, EUA, em 1978, a bandeira do movimento LGBTI+, ou, mais comumente reconhecida, a “bandeira gay”, originalmente com oito cores. Cada cor tinha um significado próprio: rosa – sexualidade; vermelho – vida; laranja – cura; amarelo – luz do sol; verde – natureza; turquesa – mágica, arte; anil – harmonia, serenidade; violeta – espírito humano.

Photo credit: stockcatalog on Visual Hunt / CC BY

A bandeira ficou mundialmente conhecida e passou a ser usada como símbolo da comunidade LGBTI+ após o assassinato de Harvey Milk, supervisor da cidade de São Francisco, aos 27 de novembro de 1978. No filme que narra sua história (Milk: a voz da igualdade, 2008), é possível ver a bandeira atrás dele em uma de suas manifestações públicas. Como a demanda ficou muito grande pelo estandarte, após sua morte, a Paramount Flag Company começou a vender uma versão de sete cores, sem o rosa, que era um tecido mais difícil de ser encontrado.

Foi, então, que, em 1979, a bandeira foi modificada novamente. A história conta que, ao ser pendurada verticalmente, a faixa central da bandeira ficava obscurecida, por isso retiraram o turquesa e a hoje reconhecida como bandeira LGBTI+ ficou com suas cores oficiais: vermelho, laranja, amarelo, verde, azul e violeta.

Apesar do arco-íris ser um símbolo que remete à narrativa bíblica do livro de Gênesis, de forma alguma esse foi o intuito das cores em uma bandeira. Pelo contrário, o Movimento Gay dos anos 1970 se opunha profundamente aos discursos religiosos que o oprimia. Era uma época de “caça às bruxas” – e as bruxas eram afeminadas e purpurinadas – por isso, o arco-íris muito bem representava toda a pluralidade e diversidade do Movimento Gay. Como símbolo das minorias sexuais, a bandeira do arco-íris lançou cores em meio às nuvens pesadas daquele tempo.

Nuvens escuras, que naquele momento histórico, foram criadas, principalmente, pelo fundamentalismo religioso cristão. Vozes, “em nome de Deus”, se levantavam contra as lutas e conquistas civis do Movimento Gay. Um embate que marcou a época, também narrado no filme Milk, foi a “Proposição 6”, criada em 1978, no Estado da Califórnia, também conhecida por “Iniciativa Briggs”, por ter sido patrocinada por John Briggs. A Proposição proibia gays e lésbicas de serem professores em escolas públicas, e não somente eles, mas qualquer heterossexual simpatizante da causa. A iniciativa teve o apoio de Anita Bryant, líder do movimento conservador de sua época.

Na luta contra o ultraconservadorismo, o cristianismo não-hegemônico se uniu ao movimento social em uma relação complexa entre religião, política e luta pelos direitos civis. Um dos líderes desse movimento foi Troy Perry, fundador das Igrejas da Comunidade Metropolitana, denominação cristã inclusiva. O pastor-gay, contrário à Iniciativa Briggs, jejuou e orou em frente a um prédio federal de Los Angeles, solicitando a doação de dinheiro em prol da fundação de um comitê para reforma jurídica pelos homossexuais. Seu lema foi “jejum pela justiça”. Troy Perry jejuou por 16 dias somente com água, até que recebeu o valor solicitado de uma única doadora. Com o dinheiro, financiou a primeira pesquisa nos Estados Unidos sobre o que as pessoas pensavam sobre os gays e lésbicas e sobre a Iniciativa Briggs. O referendo recebeu grande cobertura da mídia, o que colaborou com a realização do primeiro debate nacional sobre os direitos dos homossexuais nos Estados Unidos. De um lado, John Briggs, do outro Harvey Milk junto à professora Sally M. Gearhart. A “Proposição 6” foi derrotada por mais de 1 milhão de votos de diferença.

Atravessar as densas nuvens da história entre cristianismo, dissidência sexual e direitos civis permite rever momentos como esses, nos quais a reivindicação pelos direitos religiosos e políticos era fundamental para a construção da democracia. Foi assim, que o arco-íris da diversidade foi tomando novas cores e formatos permitindo que outras dissidências religiosas, sexuais e de gênero ousassem lançar mão da promessa: “Quando eu trouxer nuvens sobre a terra e nelas aparecer o arco-íris, então me lembrarei da minha aliança com vocês e com os seres vivos de todas as espécies. Nunca mais as águas se tornarão um dilúvio para destruir toda forma de vida” (Gênesis 9:14,15).

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