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Sementes miudinhas lá no pé do juremá: A ciência ancestre da Jurema Sagrada como ferramenta educacional para as crianças de axé

Sementes miudinhas lá no pé do juremá: A ciência ancestre da Jurema Sagrada como ferramenta educacional para as crianças de axé
28 de junho de 2019 Júnior de Odé

Foto: Laila Santana

“Ele é tão pequenininho/que ninguém não lhe conhece, mas quando chega na Jurema/os caboclos lhe obedecem”. (cântico tradicional da Jurema Sagrada)

Para os praticantes da Jurema Sagrada, a infância, significa uma fase privilegiada na transmissão das práticas, saberes e memórias, por meio da vivência comunitária. Para as crianças pertencentes às tradições do culto à Jurema Sagrada o sentido de vida está relacionado a duas dimensões de mundo: i) o mundo espiritual estabelecido pelas sete cidades sagradas que servem de morada dos Encantados (caboclos, trunqueiros, mestres, príncipes, princesas, reis e pretos velhos) e ii) o mundo físico, estabelecido pelo planeta terra, habitado pelos seres viventes, cuja regência fica a cargo do(a) criador(a) divino(a) e de suas manifestações naturais, a água, a terra, o fogo e o ar.

A ciência ancestral herdadas dos povos originários (índios e africanos) permitiu que esta religião, e todo o seu complexo cultural, pudesse ser utilizada como ferramenta de formação educacional para as crianças pertencentes às comunidades de terreiros, possibilitando o aprendizado da concepção de cidadania e de direitos e deveres desde muito cedo. O universo mágico espiritual da Jurema, mágico não apenas no sentido de magia, daquilo que não se explica pela racionalidade, mas principalmente no sentido de poder e força de realização, é um ambiente extremamente potente na perspectiva de respeito às diversas formas de manifestações da natureza. A liturgia da Jurema Sagrada ensina as crianças valores como respeito, primariamente à mãe Terra, pois segundo os Encantados é dela que tudo nasce, e dela obtemos o necessário para vivermos bem, tanto no campo espiritual, quanto físico. Não respeitar esse princípio, significa contrariar toda a cosmovisão, pois o corpo do juremeiro, templo das mais diversas energias, troca com a terra as forças necessárias para poder cumprir seu destino. Na prática ritual, as crianças vivenciam estes valores cotidianamente, por exemplo, quando tiram os sapatos e ficam descalças, em contato com a terra, para adentrar espaços sagrados e participar das oferendas e giras, quando dançam em círculos que giram no mesmo sentido anti-horário do movimento da terra, assim como, quando pedem licença para entrar nas matas, nos rios, nas fontes e nos demais espaços sagrados, cuja matéria brota da terra. Estes pequenos atos e gestos representam os valores educacionais que são transmitidos, na infância, pelas mestras e mestres, de forma lúdica, por meio da oralidade e na vivência comunitária.

A oralidade é a forma mais utilizada na transmissão dos conhecimentos na dinâmica ritual da Jurema. A palavra, junto aos diversos outros elementos sagrados do culto, toma corpo nos conselhos, previsões e orientações, dando direcionamento ao desenvolvimento psicológico e espiritual das crianças. Na metodologia da transmissão oral a inteligência está intimamente relacionada à memória, e as mais velhas e os mais velhos são os mais sábios, pelo conhecimento acumulado ao longo dos anos vividos.

Neste sentido, as memórias fonética, auditiva e visual são recursos importantes aos quais as mestras e mestres dispõem para o armazenamento e a transmissão dos conhecimentos entre as gerações. O corpo, ritualmente preparado, é instrumento para as manifestações sagradas dos cânticos, das danças e da alimentação. Estes elementos ajudam no desenvolvimento dos sentidos cognitivos das crianças, imbricando o viver religioso com a capacidade de propagação memorialística e de preservação da identidade.

As danças e os cânticos, por exemplo, recontam histórias de vida dos Encantados, suas lutas, feitos e costumes, apresentam seus territórios e a sabedoria do uso de seus recursos para a cura dos males. Já a alimentação comunitária desperta nas crianças o sentido sublime do compartilhamento, repartir o alimento com a comunidade é também uma forma de aprender a lidar com o individualismo e a posse.

O desenvolvimento espiritual das crianças de axé, ocorre, muitas vezes ainda no ventre. É comum que os Encantados acompanhem as gestações: receitando banhos de folhas, realizando benzeduras, rezas e limpezas para a boa formação do feto e para um bom nascimento. Em contrapartida, às vezes os nomes dados às crianças são nomes de origem indígenas em homenagem a caboclas e caboclos, ou ainda a mestras e mestres que trataram de acolher a família e o bebê durante o processo gestacional, criando-se importantes laços afetivos e de familiaridade com as entidades.

Segundo a tradição da Jurema Sagrada, o sentido da palavra herança é amplo, pois há também a noção de herança espiritual, muitas crianças recebem ainda no ventre, ou já crescidas, a proteção espiritual de encantados cultuados pelos seus antepassados. São caboclos de bisavós, mestras e mestre de avós, pais e mães, entre tantos outros, que escolhem continuar sendo zelados pelos descendentes, inclusive podendo ficar na corrente da mesma família há séculos, manifestando-se nos novos discípulos escolhidos para darem continuidade ao legado cultural. Neste caso o valor da herança, não é no sentido monetário ou de bens patrimoniais, mas sim de riqueza imaterial, elemento central na continuidade da expressão religiosa familiar.

Sendo as expressões religiosas de matrizes afro-indígenas as mais perseguidas e violentadas, sobretudo no que tange a intolerância religiosa e o racismo religioso, são nestes valores ancestrais que as crianças e seus pais se apegam para lutarem contra um sistema de violação de direitos e de negação de identidade. A árvore da Jurema Sagrada e sua ciência é o símbolo maior da resistência de todo um povo que cotidianamente batalha para se manter vivo. Os trabalhos de valorização dos símbolos da Jurema Sagrada se dão também no campo político, por isto, é fundamental a realização de ações que trabalhem com a autoestima das crianças pertencentes a estas religiões. Neste sentido, o Terreiro Ilé Àse Òrìsànlá Tàlàbí (Terreiro Axé Talabi) construiu e realizou o I Encontro Nacional de Crianças de Axé (abril de 2017), uma atividade que reuniu crianças pertencentes a comunidades tradicionais de terreiros de diversos estados brasileiros, e tornou-se um marco histórico na luta pelos direitos na infância e pela salvaguarda do patrimônio cultural dos povos tradicionais.

Em setembro do mesmo ano (2017), a convite do Quilombo Cultural Malunguinho e em parceira o Terreiro Axé Talabi realizou o I Kipupinha Malunguinho, atividade lúdica infantil ocorrida dentro da programação do XII Kipupa Malunguinho – Coco na Mata do Catucá, cujo objetivo fora proporcionar aos participantes uma vivência lúdica que fortalecesse o sentido de pertencimento cultural, possibilitando, a partir da valorização dos símbolos e histórias dos Reis Malunguinho, o empoderamento coletivo das crianças pertencentes à Jurema Sagrada.

As sementes miúdas do pé da jurema têm muito as nos ensinar, nos revela Malunguinho. As crianças são parte da representação desta força contínua de espiritualidade. A continuidade dos saberes e fazeres, dos modos e costumes e dos territórios sagrados estão nos pés, nas mãos e nas cabeças das crianças e jovens, serão eles os futuros guardiões dos encantos das sete cidades sagradas da jurema e de toda a sua força e ciência. Que todas as lanças os protejam, que todas as flechas sejam lançadas contra qualquer mal que lhes ameacem, que todas as folhas, cascas, sementes, frutos e raízes possam lhes servirem como remédio nas horas necessária, que a fumaça sagrada da Gaita Mestra sirva de farol e ilumine os mais diversos  caminhos e que os encantos e segredos da Jurema lhe sirvam de escudo na guerra em busca da Paz.

 

“Minha fumaça um dia há de transformar,

todo Brasil na força do Catucá.

É um chamado invisível,

de uma luta possível,

que num só pensamento vai ecoar pelos ventos

a grande força deste povo de além-mar,

de além-mar…”

(Cântico sagrado do Mestre João das Matas)

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