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Casa das Matas do Reis Malunguinho, o corpo-território e a sabedoria produzida nas frestas.

Casa das Matas do Reis Malunguinho, o corpo-território e a sabedoria produzida nas frestas.
28 de junho de 2019 Clédisson Geraldo dos Santos Junior

Foto: Bruno Sant'Ana

Já passavam das 19 horas da noite, era sexta feira e eu ainda me encontrava preso dentro do ônibus que me levaria até Olinda (PE) para participar da minha primeira atividade na Casa das Matas do Reis Malunguinho. Assim como foi em todo o mês de março, Recife (PE) se encontrava parado devido às chuvas intensas que sempre marcam o fim do verão nordestino. A cidade de Olinda sempre me trouxe sensações ricas em memorias afetivas. Sou mineiro e a arquitetura colonial de Olinda me lembra a cidade de Ouro Preto (MG). Passear pelas ruas e ladeiras de ambas as cidades é uma verdadeira viagem no tempo.

E desta forma, encantado, segui pelo trajeto que me levou até a Casa das Matas. Quando chego à pequena entrada do casario onde funciona o “terreiro”, ouço de longe um chamado pelo meu nome. É Alexandre L’Omi L’Odò, zelador da Casa, que estava acompanhado dos seus afilhados Henrique e André em um bar nas vizinhanças. Fui ao encontro deles.

A jurema sagrada é remanescente da tradição religiosa dos indígenas que habitavam o litoral dos estados da Paraíba, Rio Grande do Norte e o Sertão de Pernambuco. O encontro da tradição religiosa africana e indígena se deu quando os negros fugidos dos engenhos onde se encontravam escravizados foram abrigados nas aldeias indígenas, ou no encontro dos indígenas com os negros nos quilombos onde através desse contato, ambos trocavam o que detinham de conhecimento. O panteão da jurema é ordenado pelos caboclos, divididos em índios, personagens do sertão nordestino ou sertanejos, o boiadeiro e ainda aqueles que simplesmente viveram nas matas, pelos mestres e mestras e pelos exus, também chamados de trunqueiros.

Os últimos demonstram a influência do universo africano dentro da jurema. Quanto aos mestres, esses são pessoas que viveram e que depois de sua morte se apresentam como entidades que auxiliam os juremeiros e todos aqueles que procuram a ajuda da jurema por alguma razão.

Os mestres e mestras da Jurema Sagrada são descritos como espíritos curadores, muitos deles em vida, trabalharam nas lavouras e possuíam conhecimento de ervas e plantas medicinais. O mestre ou mestra incorpora no juremeiro, faz as consultas e transmite aos afilhados os segredos do culto. Por tudo isso esse mestre é carinhosamente chamado de padrinho. Cada mestre ou mestra está associado a uma cidade espiritual.

Em muitos casos esses mestres e mestras foram figuras reconhecidas da História do Brasil, como o mestre Pilão Deitado, que em vida, possivelmente foi um afamado cangaceiro, e Malunguinho, hoje visto como uma das principais entidades da jurema.

Malunguinho  é uma entidade de grande poder, que se manifesta de quatro formas bastante distintas. Trunqueiro/exu, caboclo, mestre e reis. (L’ODÒ, 2017) O primeiro representa o mensageiro, fazendo o elo de ligação da linha da Jurema com as pessoas. O segundo é a figura do guia, o principal protetor dos praticantes do culto. O terceiro representa alguém que teve existência real na terra. Notei nas oportunidades em que estive diante de Malunguinho, que ele é uma entidade que fala pouco e não se demora muito quando incorporado.

Malunguinho preservou suas características de guerreiro líder do Quilombo do Catucá, transpondo de forma mítica sua história real para sua cosmologia própria preservada em cânticos, rituais, dança e personalidade. 

O território não se separa das linhas que o atravessam.

Logo na minha primeira visita a Casa das Matas do Reis Malunguinho, eu me recordo bem que na entrada do primeiro cômodo da casa, havia uma belíssima imagem de Oxum, esta imagem me chamou bastante a atenção assim como no decorrer deste dia outros elementos, simbólicos religiosos como, por exemplo, a presença de imagens de santos católicos, em particular a imagem do Padre Cicero Romão Batista – O Padim Ciço, assim como imagens de figuras indígenas simbolizando o caboclo das matas, como também a disposição de taças preenchidas com agua e dispostas ao longo de um altar. Alexandre L’Omi me explicou, que as taças chamavam-se de príncipes e havia também um recipiente com água que chamava-se de princesa. Pude observar também, inúmeros assentamentos de Trunqueiros, habitando o mesmo espaço.

O encontro de diferentes referenciais cosmológicos, a saber, o culto as entidades que outrora vivenciaram suas experiências terrenas e que arrebatados se tornaram encantadas, o culto a trunqueiros, assim como o culto de entidades “caboclas” (mestres, mestras, cangaceiros, prostitutas, etc) e de santos católicos, ou seja, a confluência entre referências cristãs, somada a referencias ameríndias e africanas tornam a Jurema Sagrada uma religião da linha cruzada.

Segundo José Carlos dos Anjos (2006) a linha cruzada, não implica mistura, os cultos de uma e outra entidade são mantidos separados ocorrendo em paralelo nos terreiros. Segundo a lógica rizomática da religiosidade afro indígena brasileira em lugar de dissolver as diferenças conecta o diferente ao diferente deixando as diferenças subsistirem enquanto tal.

A noção de linha cruzada, presente em praticamente todas as religiões de matriz africana no Brasil, permite pensar um espaço de agenciamento de diferenças enquanto diferenças, sem a necessidade de pressupor nenhum tipo de síntese ou fusão. As diferenças são intensidades que nada têm a ver com uma lógica da assimilação, mas sim com a da organização de forças, que envolve a modulação dos fluxos

Nas religiões afro indígenas brasileiras, no momento em que o cavalo de santo (médium) passa pelo transe e é incorporado por uma entidade (orixá, caboclo, encantado), ele passa por um devir, assumindo assim a identidade da entidade que o dominou. Este processo promove a inserção do passado mítico, remoto desta entidade, que aflora no presente para se mostrar vivo.

As percepções sobre a temporalidade nos terreiros ganham um sentido diferenciado daquele que estamos acostumados a vivenciar em nossos cotidianos. Nos terreiros, é possível vivenciarmos o tempo não por sua linearidade e sim por “saltos, acelerações, rupturas e diminuições de velocidades” (GUALANDI, 2003) em detrimento, a uma linha temporal, isto é, o tempo é duração, e nele não há mais uma relação de linearidade, nem de sucessão; passado e presente coexistem, são contemporâneos, havendo aí um paradoxo de contemporaneidade entre esses dois momentos heterogêneos e de naturezas distintas

É preciso sustentar o tombo.

A Jurema Sagrada é detentora de uma sabedoria produzida nas frestas do mundo (RUFINO, 2014) invenção dos seres e suas formas de comunicação nas margens, e que reconfigura a dinâmica da relação colonial de forma dialógica, polifônica e ambivalente. Reinventar, reconstruir, recriar-se a partir dos fragmentos, produzir conhecimento, perspectivas, fazendo uso dos saberes cruzados é parte da contribuição passada pelos mestres e mestras, encantados e caboclos da Jurema Sagrada, desta forma, para a Jurema, ressignificar as formas de enunciação não é uma simples ação de subversão, mas de transgressão, é a absorção do outro para a reinvenção do eu como um terceiro elemento não ajustável a ordem dicotômica proposta pela colonialidade.

A potência da Jurema Sagrada se encontra no desvio, na dobra, sua ciência é resultado de séculos de conhecimentos produzidos, sua manutenção e sobrevivência se dão na reinvenção do viver, em sua capacidade de adaptação, de remontagem, sua batalha não se dá em campo aberto, sua tática é a guerrilha.

REFERÊNCIAS

ANJOS, Jose Carlos Gomes dos. No territorio da linha cruzada: a cosmopolítica afrobrasileira. Porto Alegre, 2006.
GUALANDI, Alberto. Deleuze. São Paulo: Estação Liberdade. 2003.
L’ODÒ, Alexandre L’omi. Juremologia: uma busca etnográfica para sistematização de princípios da cosmovisão da Jurema Sagrada. 2017. 276 f. Dissertação (Mestrado) – Universidade Católica de Pernambuco. Mestrado em Ciências da Religião, 2017.
RUFINO, Luiz. Histórias e saberes de jongueiros. Rio de Janeiro: Editora Multifoco, 2014.

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