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O Monoteísmo e a Intolerância Religiosa

O Monoteísmo e a Intolerância Religiosa
21 de janeiro de 2020 Nelson Lellis

Segue uma pequena problematização (ou provocação, como queira) acerca do monoteísmo em relação à sua estrutura teológica diante de matrizes religiosas diferentes da sua. Porque a questão não é apenas a luta por direitos iguais, mas a intolerância teológica monoteísta velada.

21 de janeiro… o Dia Nacional de Combate à Intolerância Religiosa.
Lei nº 11.635, de 27 de dezembro de 2007, sancionada pelo ex-presidente Lula.

Até a década de 1980, práticas distintas ao catolicismo, sobretudo, de matriz africana, eram tidas como caso de polícia ou de saúde pública (por causa de determinados rituais). Igrejas evangélicas também eram apedrejadas. Eu mesmo fui membro de uma igreja no interior fluminense. No início, católicos da cidade apedrejavam o pequeno templo.

Stefan Keller por Pixabay

Com o avanço, não numérico (porque é pequeno), mas, sobretudo, de coletivos engajados na sociedade com o objetivo de lutarem por direitos constitucionais, houve uma pequena percepção acerca de religiões que compõem a minoria.

O quadro violento ainda existe. E muito. Casos de destruição de terreiros, violência física contra pessoas, preconceito e demonização de tradições de fé… tudo isso, velado ou não, está presente no Brasil.

Ainda assim… há esforços de alguns católicos e evangélicos na luta contra a chamada “intolerância religiosa”. Vejo, com gosto, esses fiéis buscando um diálogo cada vez mais profícuo com outras religiões. Mas essa manifestação de paz do monoteísmo carrega dois elementos interessantes. É o que gostaria de refletir aqui:

  1. Um autoengano acerca do movimento de aceitação (plena) do outro.

Teológica e historicamente, o monoteísmo não demonstra tanta afinidade a outras expressões religiosas (mono ou politeísta). O monoteísmo é, por si, uma plataforma excludente. A menos que se pretenda construir outra narrativa (segundo ponto)…

Seguindo estudos do prof. Osvaldo L. Ribeiro, o monoteísmo é violento (cf. “Em nome de Deus”, de Karen Armstrong; ainda que a autora defenda a tese de que o problema da violência não se encontra na religião, e sim, no Estado que adota determinado segmento confessional).

O politeísmo tem muito mais condições de aceitar o diferente, pois o deus do outro é apenas mais um que, inclusive, pode também ser o dele. No monoteísmo não. Apenas um. Os outros são ídolos, são nada, são engano, são (para muitos ainda) seres demoníacos.
Óbvio que no sistema judaico, havia a crença em outros deuses (a chamada “monolatria”, termo provavelmente cunhado por Julius Wellhausen… cria-se na existência de outras divindades, mas adorava-se apenas uma). Mas, ainda assim, as demais forças sobrenaturais eram inferiores e do “mal”.

Portanto, quando um fiel monoteísta aceita a expressão de fé de outro, ele vai até onde? Até a não violência física? Até a porta de entrada do culto alheio? Porque se é monoteísta, como encarar essa plataforma? O deus do outro sempre estará sujeito ao deus dele. Ou… não é monoteísta… ou… está partindo para uma nova concepção de monoteísmo.

A tolerância religiosa tem seus limites. Ela não abrange a aceitação plena. Ela tolera mesmo. E a palavra é esta: tolerância. Porque no diálogo inter-religioso não há necessidade de se “desconstruir”, como defende tantos estudiosos sobre o tema. E essa não desconstrução se dá no plano teológico. E se não há desconstrução teológica, o monoteísmo é tudo isso que consideramos acima… a não ser que a concepção do monoteísmo esteja sendo, de fato, reconstruída por alguns poucos.

 

  1. A construção de uma outra concepção sobre o monoteísmo cristão.

Nas narrativas evangélicas, Jesus é monoteísta. Ele não viveu as relações democráticas do século XXI. O que se pode fazer disso é tomá-lo como exemplo de inclusão daqueles que são desfavorecidos na sociedade. Dificilmente isso se daria na questão religiosa. Nas narrativas bíblicas, outras divindades tinham o “poder” de “escravizar” e retirar a condição humana do indivíduo. Portanto, forçar o diálogo a partir de Jesus seria uma percepção do monoteísmo inexistente.

Um monoteísmo que aceita a divindade de outros está para além de uma estrutura traditiva da fé. O monoteísmo-raiz não tolera.

Percebe-se hoje uma aparente reconfiguração para uma comunidade de paz, mais ampla, mais dedicada ao ser humano, como já refletiu Edgar Morin.

Mas… como entender o monoteísmo assim?

Ele respeita o outro na sua maneira de cultuar, respeita o seu espaço e até luta pelos direitos. Mas o monoteísta-raiz não crê na teologia do outro como legítima. Ele não a tolera, não a inclui em seu cardápio. É preciso uma força contra si mesmo. É aqui que questiono: busca-se uma nova concepção do monoteísmo nessa relação com outras matrizes religiosas?

No fundo desse sistema todo, por mais que o sujeito decida “amar” o diferente e respeitá-lo em seus ritos, por dentro, o monoteísta (de fato!, o “raíz”) olha tudo aquilo e o condena… Por mais que ele lute em favor do outro, por dentro, ele (o raiz) desaprova a teologia porque tem a dele (a de um deus superior).

Volto a dizer: a menos que ele, assim como outros, esteja construindo uma outra percepção do monoteísmo. Mas, aí, já não seria mais.

Quem sabe uma outra classificação? Eu não saberia dizer.

Alternativas?…

Karen Armstrong diz que as religiões monoteístas deveriam servir como alternativa ao Estado, cuja função é fazer política – e para isso, está presente o uso da força, da violência, do domínio, da conquista… E o papel da religião seria o de afastar-se do Estado (para não legitimar as ações citadas) e oferecer uma alternativa de convívio sem agressão ou exploração, com mais justiça, igualdade, gentileza…

Ok, mas isso resolve o problema da intolerância teológica monoteísta velada?

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