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Cara gente branca – Reflexões sobre “lugar de fala”, “homens feministas” e alguns neocolonialismos

Cara gente branca – Reflexões sobre “lugar de fala”, “homens feministas” e alguns neocolonialismos
André S. Musskopf 13 de janeiro de 2020

Empresto a expressão “cara gente branca” de um seriado (Dear white people), embora não pretenda discutir o seriado em si. Também contraponho “lugar de fala” e “homens feministas” a neocolonialismos e não considerando essas expressões ou seu uso como suas expressões. Na verdade, escrevo, eu mesmo, como homem branco cisgênero (e todas as contradições implicadas nessas categorias) principalmente para outras pessoas brancas, cisgêneras e heterossexuais – particularmente homens. Poder-se-ia dizer, inclusive, que esse é o meu lugar (ou um dos meus lugares) de fala. Mas se eu estou falando desde esse lugar específico não é necessário reivindicá-lo, pois, via de regra, ele já está garantido.

Fonte: Rovena Rosa/Agência Brasil (Protesto contra e a favor de filósofa Judith Butler em SP)

Com certa frequência tenho acompanhado ou estado envolvido em discussões sobre esses temas tanto na sua relação com pautas e reivindicações políticas quanto com questões teóricas e conceituais no âmbito acadêmico. Confesso que, de modo geral, não gosto de me envolver e procuro evitar essas discussões, pois prefiro utilizar minha energia ativista e intelectual em pautas que considero mais produtivas. Mas também entendo que, como alguém envolvido de alguma forma com essas questões e como alguém com determinado posicionamento sobre elas, possa dar alguma contribuição, embora, de verdade, não tenha a pretensão de acrescentar muitas coisas a quem efetivamente debate e reflete sobre elas, mas apenas tentar discorrer sobre alguns pontos que, talvez, sejam úteis para alguém.

O tema dos “homens feministas” me acompanha desde muito tempo. Já bem cedo no movimento e na produção acadêmica feminista a pergunta “pode um homem ser feminista?” esteve presente. As respostas dadas a essa pergunta, particularmente pelos movimentos e estudiosas feministas – que é o que me importa – são diversas. Há quem não veja problema nessa identificação e há quem a rejeite visceralmente – por vários motivos e com argumentações diversas. Para mim a questão principal aqui é: por que um homem iria querer ser identificado ou se auto identificar como “feminista”? – e é com essa pergunta que geralmente respondo a quem me faz essa pergunta.

Não coloco em discussão, aqui, o fato de que homens possam concordar, apoiar e incorporar elementos (políticos e teóricos) produzidos no campo dos estudos e dos movimentos feministas – embora seja debatível de que modo isso ocorra. Como homem – que tem se dedicado aos estudos feministas e acompanhado os movimentos feministas de alguma forma – me pergunto, eu mesmo, por que eu me auto identificaria como um “homem feminista”, por que eu buscaria essa identificação ou por que ela seria usada para referir-se a minha atuação e ao meu trabalho? De que forma isso contribuiria para o avanço dos movimentos feministas (que seria, para mim, possivelmente a única justificativa) ou em que lugar isso me colocaria no âmbito da produção acadêmica (de forma a contribuir, também, para o avanço das pautas feministas)?

Fazer-me (e a outros homens) essa pergunta não significa que eu tenha (de antemão) problema em ser identificado como “feminista” (para algumas pessoas ainda uma forma de diminuir ou estigmatizar) ou mesmo que o meu trabalho acadêmico seja catalogado dentro dessa perspectiva (embora em geral se prefira campos mais genéricos como “gênero”, “queer”, “diversidade”). E isso acontece com uma certa frequência. Em geral, no entanto, essa identificação vem de fora e não de mim mesmo. Raramente eu reivindico ou reivindicaria esse lugar para mim mesmo e meu trabalho (talvez mais o meu trabalho) a menos que eu entenda que essa reivindicação terá algum efeito em quem está em interlocução comigo num dado momento. Economizarei os exemplos para não me alongar.

Voltando à questão posta – por que um homem desejaria se auto identificar ou ser identificado como feminista – me pergunto, para que fique totalmente evidente, por que, afinal, um homem desejaria se auto identificar ou ser identificado como feminista? Para que todas as pessoas saibam que não apenas apoia a causa das mulheres e a superação do patriarcado, mas, efetivamente, entende e incorpora suas questões teóricas e políticas em sua atuação (política e acadêmica)? Para que seu trabalho e sua atuação política sejam reconhecidas (por quem?) como pertencentes a esse campo político e teórico? Como uma estratégia discursiva que amplie a discussão e diminua a estigmatização desse marcador?

Me pergunto (e, muitas vezes, tenho essa sensação quando esse tema entra em pauta) se essa não pode ser uma forma de esvaziamento do próprio feminismo (enquanto pauta política e perspectiva teórica e metodológica) ou um de seus efeitos in/desejados? Afinal, todo mundo pode ser feminista – e pode ser feminista do jeito que quiser (o que, em princípio, não estaria equivocado) e, sendo feminista, questionar o próprio feminismo (especialmente quando parece “radical” demais). Numa perspectiva decolonial, não seria essa uma outra forma de colonialismo, uma forma de transmutar uma determinada realidade em outra fazendo parecer que “é para o seu bem” ou “vamos civilizar essa porra toda”? São perguntas.

De minha parte, prefiro que as feministas, apesar, inclusive ou precisamente por causa de suas contradições, continuem com o poder de definir quem é ou não feminista, particularmente quando isso se refere aos homens. E o fato de ser homem, no meu caso, raramente me impediu de dialogar com as feministas, talvez porque eu sempre busque fazê-lo consciente – ainda que possivelmente nem sempre consiga – do lugar que ocupo como homem branco cisgênero na sociedade e na academia de modo geral e nos movimentos políticos e sociais de modo específico. E isso me leva ao outro tema – “lugar de fala”.

Embora essa expressão tenha se popularizado no Brasil mais recentemente, particularmente a partir dos movimentos e reflexões no âmbito do feminismo negro, a questão do “lugar de fala” tem estado presente tanto nos movimentos sociais quanto nas discussões teóricas já há algum tempo. Em algumas correntes se prefere falar sobre “lugar social”, “perspectivas nativas”, “olhar ou leitura situada” (no campo da hermenêutica), “elementos contextuais” e outras expressões que indicam questões semelhantes. O que todas essas expressões indicam é uma preocupação e um questionamento com qualquer perspectiva universalista e essencialista (geralmente associada a homens, brancos, cisgêneros e heterossexuais, mas podendo incluir outros marcadores) e seu poder de definir os parâmetros de análise, avaliação e intervenção na realidade.

Não há postura ou conhecimento neutro – fora do conjunto de relações sociais estabelecidas a partir do ab/uso do poder. A política e o conhecimento se produzem, precisamente, nos embates cotidianos entre diferentes indivíduos e grupos sociais, geralmente marcados por violência e dominação de uns sobre os outros. Falamos em “conhecimentos situados”, “saberes tradicionais”, “ecologia de saberes”, “perspectivas rizomáticas”, mas, por incrível pareça, essas questões são raramente associadas a movimentos e pesquisas feministas e de perspectiva étnico/racial – precisamente de onde, no geral, emergem – e não da cabeça de algum homem branco iluminado sentado em seu escritório. Desenvolvidas em contextos e lutas específicas e particulares, são alçadas (geralmente por grandes teóricos – homens brancos) a categorias universais e essenciais facilmente aplicáveis e degustáveis por “qualquer” pessoa que fala de “qualquer” lugar.

Em um – dos muitos – textos recentes sobre “lugar de fala” publicado na Folha de São Paulo, o colunista questiona a utilização do “lugar de fala” como “argumento de autoridade”[1]. Valendo-se de um exemplo esdrúxulo de uma estudante que entrou em contato com um ativista gay que a questionou sobre o seu interesse enquanto mulher heterossexual em pesquisar temas relacionados ao universo LGBTI+ ele utiliza expressões como “universalidade racional” (como único lugar de fala admissível), “campo inseguro das paixões” (um lugar para onde podemos “desabar”) e “domínio da razão”. Sério?! Cara pálida!?

Embora sua escrita e argumentação sejam prudentes – antecipando críticas que efetivamente surgiram, como no caso de Yara Frateschi[2] – me pergunto, novamente, por que geralmente são pessoas brancas – e homens – cisgêneras e heterossexuais que têm um problema com o uso do “lugar de fala” como “argumento de autoridade”? Não é justamente isso que tal perspectiva teórica propõe? A “universalidade racional” e o “domínio da razão” – em contraposição ao “campo inseguro das paixões” (adoro essa parte) – não é justamente o que se tem questionado ao introduzir a perspectiva do “lugar de fala” e outras semelhantes na discussão política e acadêmica? Que todo mundo têm um lugar de fala (inclusive pessoas brancas, cisgêneras e heterossexuais) e que esse lugar de fala é um elemento a ser considerado em qualquer análise e reflexão?

Não é esdrúxula a situação da estudante e nem o seu interesse no tema de pesquisa (quem nunca?). Mas acreditar e defender que esse interesse e o lugar específico de fala não podem ser questionados por quem efetivamente conhece e participa do universo pesquisado (a ponto de ser contactado como possível fonte) e, mesmo, relativizado, não é uma outra forma de autoritarismo e neocolonialismo? Especialmente quando acionados por aqueles indivíduos e grupos que sempre questionaram esses mesmos indivíduos e grupos por transitarem no “campo inseguro das paixões” e não cumprirem com os requisitos da uma tal “universalidade racional” – que eles, em geral, não ajudaram a definir? Por que pessoas brancas, cisgêneras e heterossexuais parecem se sentir tão incomodadas quando o seu lugar de fala é questionado? Seguramente não é porque abundem pesquisas sobre temas tão exóticos e extravagantes como branquitude, masculinidade, cisgeneridade e heterossexualidade.

Não tenho estudo e atuação política com movimentos e pesquisas relacionadas a questões étnico/raciais (embora esteja me esforçando para isso) assim como tenho no campo do feminismo ou, mais ainda, no âmbito dos movimentos e pesquisas sobre diversidade sexual e de gênero (LGBTI+) como homem gay (outro lugar de fala). Mas, como com relação ao feminismo, não me recordo de ter tido problemas em dialogar com quem está envolvido ou envolvida com essas questões. Geralmente porque são pessoas e espaços que me conhecem por meu trabalho e atuação nessas outras áreas e, quero crer, porque me veem como um possível aliado e alguém com envolvimento suficiente para ser digno de alguma confiança. Também porque, assim como em relação ao feminismo, procuro escutar mais que falar e tentar entender mais do que explicar ou aplicar minhas teorias e opiniões. O envolvimento e a participação – mais do que alguma autoridade acadêmica ou política exógena atribuída – fazem toda a diferença quando a questão é diálogo.

Afinal, por que indivíduos e grupos sociais subalternizados não desconfiariam e questionariam indivíduos e grupos sociais que, ainda que tenham boas intenções (daquelas, inclusive, que o inferno está cheio), historicamente têm participado e representado, voluntaria ou involuntariamente, dos processos que resultaram nessa mesma subalternização? Ou, parafraseando Paulo Freire, como poderiam as pessoas oprimidas ser acusadas de provocar uma violência da qual são elas mesmas o resultado? Considerando que determinados indivíduos e grupos sociais foram historicamente privilegiados e o seu lugar de fala assumido como lugar de fala de todo mundo, e considerando tudo que isso provocou, não estaria na hora, justamente, de ouvir e privilegiar outros lugares de fala, não como únicos, infalíveis ou definitivos, mas como forma de superar as desigualdades evidentes em termos de representação política e produção de conhecimento (especialmente em termos de gênero, raça/etnia e sexualidade) e gerar algum tipo de equilíbrio, igualdade e justiça?

Me parece que quando o assunto é diálogo o que falta é: diálogo. Particularmente para quem trabalha com educação, produção de conhecimento e atuação política comprometida perguntar, ouvir e desenvolver laços de confiança e parceria seriam os primeiros passos para entrar em diálogo. Depois disso, com os lugares de fala reconhecidos e negociados, me pareceria que a reivindicação do lugar de fala como argumento de autoridade não seria um elemento de discórdia como parece que algumas pessoas querem fazer crer – pelo menos essa é minha experiência. É só na luta (política e acadêmica) que a gente pode reconhecer os privilégios e as subalternidades e saber quando falar e quando silenciar – não de maneira linear ou inequívoca, mas como amorosidade e afeto – daqueles que só os grandes processos revolucionários são capazes de forjar.

Notas

[1] https://www1.folha.uol.com.br/colunas/jorge-coli/2019/06/lugar-de-fala-nao-pode-ser-confundido-com-argumento-de-autoridade.shtml

[2] https://www1.folha.uol.com.br/ilustrissima/2019/07/lugar-de-fala-combate-um-universalismo-silenciador-diz-professora.shtml

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