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Espiritualidades seculares, ateísmos e equívocos sobre o Estado laico

Espiritualidades seculares, ateísmos e equívocos sobre o Estado laico
24 de agosto de 2017 Clarissa de Franco

Até pouco tempo, eu nunca tinha ouvido falar em Crenoterapia ou Termalismo social. Poderia apostar todo meu rico cofrinho que muitos leitores e leitoras deste texto provavelmente também não tenham conhecimento sobre estes termos. No entanto, em diversas unidades do SUS espalhadas pelo Brasil, já se pode usufruir destes e de outros tratamentos e terapias não convencionais, como Dança Circular, Ayurveda, Medicina Antroposófica, Meditação, Naturopatia, Fitoterapia, Reiki, Yoga, Musicoterapia, Osteopatia, dentre outros.  

Trata-se de uma oferta interessante, que traz abertura para se compreender a espiritualidade como uma das dimensões humanas, associadas à saúde e bem-estar, conforme aponta a Organização Mundial de Saúde há quase duas décadas. Este movimento de abertura de órgãos públicos oficiais à espiritualidade pode parecer contrastante com outros dados de nosso país, como o número de pessoas sem religião crescendo, debates sobre laicidade cada vez mais presentes na esfera pública (lembremos que o tema da Parada Gay deste ano foi Estado Laico), uma conhecida associação ateísta, a ATEA, que vem ganhando espaço nas redes sociais… Que mecanismo permite que a espiritualidade se desenvolva socialmente e ao mesmo tempo redesenha em bases mais disputadas o espaço que a religião ocupa em nossas vidas? 

O filósofo André Comte-Sponville chama esse contraste de “espírito do ateísmo”, indicando que não é necessária a renúncia à espiritualidade ao renunciar a Deus, deuses, deusas ou às religiões. Este autor, junto com outros, como Alain de Botton, Luc Ferry, Robert Solomon, Michel Onfray, dissociam aspectos éticos da religião e apresentam uma reivindicação secular: a de que é possível o exercício espiritual desvinculado de qualquer cenário religioso. Alguns destes autores propõem aproveitar a expertise das religiões e seu patrimônio acumulado em áreas como: vida em comunidade, prática da gentileza e solidariedade, sistemas de ensino, arte e arquitetura, reflexões e rituais sobre aspectos fundamentais da existência como amor e morte… Reconhecendo, portanto, que as religiões tiveram historicamente (e, em alguns contextos, ainda têm) um papel social organizativo, produtivo e de orientação, propõe-se um diálogo entre as necessidades seculares e esta carga histórica.  

A exceção entre os autores citados é Michel Onfray, que coloca ênfase em estabelecer uma ética sem resquícios da moral judaico-cristã. Sua proposta de ateísmo vem acompanhada de uma “laicidade pós-cristã”, que deve “descristianizar a ética, a política e o resto”. Onfray faz duras críticas ao relativismo do pensamento laico atual, que tem base, segundo ele, em uma moral judaico-cristã. 

Reconhecemos em sua escrita ateísta um estilo mais agressivo que os demais autores citados e um discurso no qual fica evidente o desejo de eliminação das religiões, que seriam expressões de “patologias mentais pessoais” dominando a esfera pública. O autor coloca a razão como uma alternativa de contraste ao mundo fantasioso da religião. Chega a dizer que “só o ateísmo possibilita sair do niilismo”, colocando o ateísmo e a razão como fontes de salvação humana.  

O pensamento de Onfray aproxima-se do que se costuma denominar de ateísmo militante, uma forma entusiasmada de defesa da ciência e da racionalidade que ressalta os malefícios sociais das religiões majoritárias. Dentre os tipos militantes, o neoateísmo, baseado em pressupostos neodarwinistas e cognitivistas, filho tardio de formas de pensamento como o positivismo e o iluminismo, tem ganhado adeptos e tem como maior expoente o biólogo Richard Dawkins, criador do termo meme, ávido debatedor contra o Design Inteligente e grande incentivador do ateísmo como forma de libertação da mente.  

Um de seus principais argumentos contra as religiões é que seu processo de transmissão e adesão seria similar a de um vírus, infectando mentes humanas. Considera também que um dos malefícios sociais das religiões (além do terrorismo, guerras, brigas entre povos e países) é o convencimento de pais religiosos a seus filhos e filhas, fenômeno que Dawkins chega a chamar de abuso infantil. Desmistificando conceitos clássicos das religiões, Richard Dawkins, considera a hipótese de Deus possível de ser debatida dentro do âmbito da ciência. Sob este respaldo científico, o neoateísmo tem apontado a ilegitimidade do caminho religioso, como forma de pensamento “primitiva”, “maléfica” e “delirante”.

Em Deus, um delírio, Dawkins compara o neoateísmo ao movimento gay. Trata-se de uma identificação que não é fortuita, mas que revela o núcleo do reconhecimento dos ateus sobre si mesmos como minorias que precisam se organizar em grupo e reivindicar espaços antes ocupados por religiosos. O ateísmo militante passa a apoiar causas desaprovadas pelas religiões tradicionais, como o casamento entre pessoas do mesmo sexo, o uso de pesquisas com células-tronco, o uso de preservativos, entre outras, que acabam por identificar o ateísmo como um movimento cool, aberto, em contraste com os religiosos, entendidos pelo público leigo como fechados em dogmas. A religião tradicional vê-se pressionada a abrir-se a valores de um momento secular, em que as grandes narrativas que vêm de fora já não servem a todos os indivíduos.

Nesse contexto, cabe ressaltar que a laicidade de Estado tem sido interpretada por uma parcela da sociedade como sinônimo de eliminação das religiões dos espaços públicos, um equívoco conceitual importante, já que é função do Estado laico proteger a pluralidade de crenças e não-crenças e suas manifestações, normatizando as relações com base em tolerância e respeito. Isso, em nenhum momento, indica ausência de religiões dos órgãos e espaços públicos, e sim regulamentação de sua participação, tornando-se uma das vozes dentro do debate democrático. Este fenômeno, que chamamos de ‘vingança moral dos ateus”, faz com que a bandeira da laicidade seja levantada como uma aliada do ateísmo, quando ela deve ser uma aliada das relações sociais que permeiam os universos das crenças e não-crenças. 

Claro que sempre devemos evitar as generalizações. O neoateísmo de Richard Dawkins não representa todos os ateus contemporâneos. Assim como há religiões, no plural, também podemos falar em ateísmos. De um modo geral, ateus e ateístas contemporâneos apresentam-se como descolados de qualquer tipo de dogma ou orientação externa, reivindicando autonomia de pensamento.  

Não é de se estranhar que após séculos de História de dominações religiosas e intolerâncias ligadas ao tema, surjam clamores por uma sociedade sem religião. Além das tragédias religiosas mundiais, no Brasil, até hoje sofrem intolerâncias os adeptos/as de religiões de matrizes afro, bem como os ateus e ateístas diante de um país marcadamente religioso como o nosso.  

No entanto, é desse delicado cenário que trata a laicidade e os debates entre ateísmo, religião e espiritualidade. Considerando um amplo espectro de crenças, podemos compreender um gradiente entre as religiões tradicionais, a espiritualidade que o SUS tem abraçado, e os ateísmos, na ponta da não-crença. O que une tais posições são as possibilidades de adesão a diferentes visões de mundo. Binômios como: evolucionismo e criacionismo, religião e ciência, racionalidade e superstição, verdade e ilusão, fatos e delírios, literalidade e relativismo, empobrecem a grandiosidade da tarefa que é fazer conviver estes universos com base no respeito e reconhecimento mútuos.

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