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Kardec e a proposição de uma espiritualidade livre

Kardec e a proposição de uma espiritualidade livre

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O espiritismo não é um movimento homogêneo que mantém uma unidade de tendências. Como todas as tradições espirituais, é multifacetado, ainda mais pelo fato de ter sido transplantado da França para o Brasil, atualmente o país mais espírita do mundo. Aqui gestou-se um espiritismo mais catolicizado, como o praticado pelo famoso médium Chico Xavier (1910-2002) e liderado pela Federação Espírita Brasileira (ver o trabalho de Sandra Jacqueline Stoll, Espiritismo à Brasileira, Edusp, 2003); fez-se um sincretismo com as tradições afro e nasceu a Umbanda; houve outras inúmeras dissidências e divisões, como a Legião da Boa Vontade e o Racionalismo cristão e ainda outros amálgamas com contornos New Age e de autoajuda. Entretanto, há aqueles que se querem mais profundamente enraizados em Allan Kardec (pseudônimo de Hippolyte Léon Denizard Rivail) (1804-1869), o fundador do espiritismo.

Entre os que poderíamos chamar e se auto intitulam de espíritas kardecistas, há aqueles que aceitam que o espiritismo tem um aspecto religioso e outros, representados pela CEPA (Antiga Confederação Espírita Panamericana e hoje Associação Espírita Internacional), que adotam a ideia de um espiritismo laico.

Mas o que de fato pensava Kardec?  Em diversas passagens de suas obras, o professor Rivail, discípulo de Pestalozzi, mostra rejeição ao termo religião. Não queria que o Espiritismo fosse instituído como tal. Fundou a Sociedade de Estudos Espíritas de Paris, onde os fenômenos mediúnicos eram pesquisados, onde se discutiam teses filosóficas e sociais. Mas qualquer evocação dos Espíritos era precedida por uma prece. 

As primeiras perguntas e repostas do Livro dos Espíritos são sobre Deus – considerado “a inteligência suprema do Universo e causa primária de todas as coisas”. Entre as leis naturais que esse livro propõe, como constitutivas do mundo físico e espiritual e do ser humano em sua estrutura psíquica, está a “lei da adoração”. Kardec vê a imanência de Deus em nós, o que faz todos os seres humanos apresentarem em qualquer época e em qualquer cultura alguma forma de reverência ao divino. Uma centelha da divindade no espírito nos orienta em direção a Deus, que é ao mesmo tempo presente em todo o universo e transcendente a tudo o que existe.

Depois de O Livro dos Espíritos (1857) e de O Livro dos Médiuns (1861), Kardec lançou O Evangelho segundo o Espiritismo (1864). Nessa obra, inspirada pelo Espírito da Verdade, que muitos espíritas acreditam ser o próprio Cristo, Kardec e os espíritos que com ele dialogam, em sua maioria santos e padres da Igreja Católica, fazem uma releitura dos ensinos de Jesus, propondo um cristianismo reencarnacionista e puramente centrado na ética. Nem dogmas de fé, nem sacramentos, nem igrejas, nem rituais, nem sacerdócio organizado.

Assim, Kardec se alinha com seu mestre Johann Heinrich Pestalozzi (1746-1827), com quem estudou no Instituto de Yverdon, e com Jean-Jacques Rousseau (1712-1778) que procuraram pensar Jesus não como um Deus encarnado, mas como um mestre de ensinos morais, como uma inspiração para o caminho do aperfeiçoamento humano. Ambos entendiam a possibilidade de uma religião inteiramente moral – algo também presente na obra de Immanuel Kant (1724-1804): A religião nos limites da simples razão.

Kardec propõe a prática espírita de forma livre e intimista. Essa prática consiste em conversar com os Espíritos, colher deles instruções morais (jamais para consultas de ordem material, fútil ou de curiosidade), estudar e debater obras espíritas e as mensagens recebidas e orar sem nenhum tipo de ritualismo. Pode-se fazer isso num centro espírita, mas também individualmente e em grupos familiares, dentro de casa. Os médiuns não têm nenhum status hierárquico, mesmo porque qualquer pessoa pode desenvolver a mediunidade. E jamais a mediunidade ou qualquer assistência espiritual pode ser mercantilizada.

Kardec democratiza e dessacraliza o contato com o espiritual, tornando as relações com os Espíritos algo horizontal, porque são seres humanos desencarnados e nós somos Espíritos encarnados. Adoração, em espírito e verdade, sem culto ou templo, só a Deus.

Entretanto, ele não achou em seu tempo uma palavra que pudesse traduzir de forma consistente essa proposta original. Essa palavra temos hoje e ela se encaixa perfeitamente aqui: espiritualidade.

Pode-se dizer que a espiritualidade idealizada por Kardec é:

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  1. Uma espiritualidade livre, não depende de nenhuma intermediação institucional ou sacerdotal. Podemos adorar a Deus em casa, em contato com a natureza, num centro espírita ou em qualquer culto com que simpatizemos (sim, Kardec admitia e deixava livre se os espíritas quisessem e gostassem de frequentar cultos com que se identificassem).
  2. Uma espiritualidade racional, pensada, analisada, com uma articulação filosófica e uma base científica. Kardec procurou estabelecer a veracidade dos fenômenos mediúnicos e da tese da reencarnação (os dois princípios nucleares do Espiritismo) através da observação repetida e minuciosa do que achou como evidências da veracidade de tais fenômenos.
  3. Uma espiritualidade crítica, porque tudo o que se experimenta, se observa e se faz no contato com os Espíritos deve ser analisado e criticado, para se apurar se a origem foi legítima, se o Espírito comunicante era bom, se o médium não interferiu demais na comunicação (embora sempre interfira de alguma forma). 
  4. Uma espiritualidade desierarquizada, porque todos podem participar, sem nenhum requisito de iniciação – embora o estudo seja sempre recomendado – sem nenhum tipo de reverência a um ser humano e mesmo aos seres espirituais, a não ser o respeito e o amor fraterno que devemos uns aos outros.
  5.  Uma espiritualidade socialmente engajada, que implica em participar da transformação do mundo, seja pela solidariedade com os desfavorecidos, pelo ativismo social, pela educação popular, de que Kardec foi um ardente defensor.

Como se vê, essas proposições de Kardec foram grandemente esquecidas por aqueles mesmos que se dizem seus seguidores no Brasil, dada a aclimatação do espiritismo na cultura brasileira. Médiuns passaram a ser venerados e escutados como oráculos, a ação social se tornou quase sempre meramente assistencialista, criaram-se instituições hierarquizadas e desencorajou-se largamente o cultivo íntimo, familiar da mediunidade, que Kardec propunha como o mais seguro, pela afinidade de sentimentos e pelo saudável anonimato dos médiuns.

Focos de resistência dentro do movimento hegemônico, conservador, ligado à organização  federativa, sempre existiram no Brasil, sobretudo no movimento espírita de São Paulo, onde intelectuais, como o filósofo Herculano Pires, adotaram posturas independentes, procurando manter as raízes kardecistas. 

 Mais recentemente, diante da polarização política que tomou conta de nosso país, com o avanço da extrema direita no poder, ficou claro que esse movimento hegemônico, federativo, se mantém e  se manteve, ao longo do século XX, ao lado das tendências sociais e políticas mais conservadoras e autoritárias. Sempre houve figuras, lideranças e grupos que se afastaram desse modelo e mostraram a face de um espiritismo progressista, voltado à transformação política e social e à educação de vanguarda como Anália Franco (1853-1919), educadora, feminista, fundadora de mais de 100 escolas-abrigos no Estado de São Paulo ou como Eurípedes Barsanulfo (1880- 1918), educador, vereador de sua cidade, Sacramento (MG), que fundou uma escola livre, experimental e absolutamente original em seu contexto. Na trilha desses pioneiros, nesses últimos anos, coletivos, associações, lideranças têm se levantado para resgatar uma leitura progressista e crítica do espiritismo. 

Ainda no final do ano de 2021, a Editora Comenius, com o apoio da Associação Brasileira de Pedagogia Espírita e do coletivo Espíritas à Esquerda, lançou o livro Espiritismo, Sociedade e Política – Projetos de transformação, organizado por mim e por Sergio Mauricio Pinto, com a participação de outros 13 autores, além dos organizadores. A obra veio justamente marcar esse território histórico de um espiritismo progressista, engajado socialmente, com uma espiritualidade comprometida com a crítica social e a liberdade de consciência.

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