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Ensino Religioso sem religião – Por uma educação da alteridade

Ensino Religioso sem religião – Por uma educação da alteridade

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A educação é um forte componente na formação cidadã. No Brasil há, tradicionalmente, a cadeira de Ensino Religioso. No entanto, não poucas vezes, ela é instrumentalizada pelas religiões. O presente trabalho propõe um “ensino do religioso” (TEIXEIRA, 2011), sem necessariamente, ser ligado a uma religião. Com base epistemológica nas Ciências da Religião, estruturado a partir do modelo da religiosidade, o ensino do religioso busca a construção de um Estado democrático e de uma sociedade fundada na ética da alteridade1.

A discussão a respeito da educação formadora de cidadãos está cada vez mais em voga. Nos últimos anos têm-se acompanhado a contribuição do Ensino Religioso nesta formação. Mobilizações contra ou a favor da permanência do Ensino Religioso nas escolas públicas ainda não deram conta de resolver este impasse. Um dos motivos dessa discussão deve-se ao fato do entendimento do Ensino Religioso como “ensino de religião”.

Entretanto, justifica-se o Ensino Religioso na escola por seu valor educativo cultural. Ensinar o “religioso” não é ter monopólio das religiões. O fator “religioso” não se encontra exclusivamente no que é comum a todas as religiões ou no fenômeno religioso. O fator religioso está naquilo que é comum a todas as pessoas e em sua procura pelo sentido da vida. Não é posse, é busca (GRUEN, 1994, p. 23-24). O acesso ao fato religioso e às grandes referências espirituais (TEIXEIRA, 2011, p. 857) é direito de todos.

O Ensino Religioso, cuja concepção epistemológica ancora-se nas Ciências da Religião, busca diálogo inter-religioso provocado pelas discussões em sala de aula. No modelo da religiosidade, entendida como abertura ao sentido radical da vida, as relações tornam-se a construção de responsabilidade pelas pessoas. O Ensino Religioso torna-se, assim, abertura para a ética da alteridade, reconhecimento do outro como outro, sem dominação. Portanto, formar crianças, adolescentes e jovens, visando crescimento e desenvolvimento pessoal, social e transcendental, tornam-se fatores essenciais no ensino do religioso.

Assuntos do mundo inteiro podem ser trazidos para a sala de aula, mas, no fim das contas, os assuntos do coração é que comandam a aula. Neste lugar privilegiado se insere o Ensino Religioso. Uma mudança paradigmática na educação reflete uma mudança também no modelo de Ensino Religioso escolar. Isso porque, inteligência e coração, como dizia Santo Agostinho, não podem ser separados. Refletir sobre o que faz a vida valer a pena, o sentido da vida, de onde viemos, nossa finitude e infinitude, são os grandes eixos desta disciplina que se propõe a ver o ser humano como ser capaz de demonstrar ternura, abertura e reverência.

Com Moraes e Navas (2010, p. 15) acredita-se num novo paradigma educacional e numa nova visão de educação baseados no desenvolvimento integral da pessoa humana e na realização plena de todas as suas capacidades e possibilidades. Para tal modelo de educação, afirma-se que é preciso uma educação do sentimento e de uma melhor compreensão das emoções, além de uma educação do religioso, dirigida a conhecer-se melhor, a respeitar-se, a ajudar-se mutuamente, a admirar e admirar-se. O que se pode desejar numa educação integral é que essas energias, do sentimento e do religioso, sejam valorizadas e direcionadas para o espaço da alteridade em que a singularidade das pessoas seja reconhecida.

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Esse ponto de partida é primordial. Desperta para observar e ouvir o outro, compreendendo-o e assim compreendendo a si mesmo. Neste espaço de conhecimento faz-se urgente o respeito à sociedade brasileira, laica e plural, fundamental para todo e qualquer componente curricular subsistir no espaço escolar nacional (JUNQUEIRA, 2015, p. 24). Portanto, esse insubstituível fator educativo, o ensino do religioso, sejam quais forem suas opções em termos de religião, não visa ensinar uma religião, mas educar a “religiosidade”, enquanto abertura ao outro, à solidariedade com os sofredores, aos valores, à plenitude, ao Transcendente (GRUEN, 1994, p. 9). Assim, o Ensino Religioso é, antes de tudo, ensino do religioso, sem monopólio de religiões, conduzido pela ética da alteridade.

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Notas

1 Cf. O termo “alteridade” significa responsabilidade pela diferença. Com Emmanuel Lévinas (2010, p. 246) vê-se o outro como único e pertencente a uma multiplicidade dessemelhante. Exatamente por ser único no mundo é também responsável por todo o universo.

Referências

GRUEN, Wolfgang. O ensino religioso na escola. Rio de Janeiro: Vozes, 1994.
JUNQUEIRA, Sérgio Rogério Azevedo. Uma ciência como referência: uma conquista para o Ensino Religioso. Rever, PUC São Paulo, ano 15, n.02, jul./dez./ 2015.
LÉVINAS, Emmanuel. Entre nós: ensaios sobre a alteridade. 5. ed. Petrópolis, RJ: Vozes, 2010.
MORAES, Maria Cândida; NAVAS, Juan Miguel Batalloso. Complexidade e transdisciplinaridade em educação: teoria e prática docente. Rio de Janeiro: Wak Ed., 2010.
TEIXEIRA, Faustino. O “ensino do religioso” e as Ciências da Religião. Revista Horizonte, Belo horizonte, v. 9, n.23, p. 839-861, out./dez. 2011.
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