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Um olhar à margem, os sem religião no Brasil

Um olhar à margem, os sem religião no Brasil
9 de agosto de 2017 Sandson Rotterdan

 É inegável a presença da religião em nossa sociedade. Nas ruas, nas casas, no parlamento, nos tribunais, na constituição, nos pescoços, no dinheiro, nas expressões idiomáticas, na canga que se usa nas praias, no cimo das portas dos fornos na roça. A religião é algo praticamente onipresente em nossa cultura brasileira.

Essa onipresença, em alguma medida, faz com que pensemos que a religião, ou pertencer a alguma religião é algo natural. Não é incomum as pessoas colocarem a sua pertença a uma instituição religiosa como algo absolutamente necessário para que elas possam viver. Não é incomum que, em nome de suas crenças religiosas, queiram intervir na sociedade como se as afirmações das religiões fossem portadoras da verdade, de maneira que, tudo aquilo que escapa ao que fora em algum momento como normativa moral por aquela religião devesse ser vivido por toda a sociedade, independentemente da pertença das pessoas ou não a essa instituição religiosa.

Essa onipresença se faz sentir quando, no parlamento, se erigem bancadas religiosas para defenderem os valores católicos e evangélicos, afim de que esses se tornem leis e, dessa maneira, toda a sociedade viva, em alguma medida, as tais leis de Deus.

Por fora desse arranjo, dessa naturalização da religião corre os sem religião. Esse grupo ainda não faz parte das maiores preocupações dos pesquisadores de religião, não têm representação política, mesmo quando o Estado deveria garantir a laicidade.

Em âmbito de senso comum não é incomum ouvir da boca de pessoas religiosas, cheias de boa intenção mas também de uma dose de preconceito, encherem a boca que o mundo está do jeito que está por falta de Deus ou mesmo por causa da falta de religião. Esquecem-se, contudo, que este grupo de pessoas sem religião não correspondem à décima parte da população.

Neste terceiro número, a Senso traz para o debate para o conhecimento de nossos leitores exatamente este grupo pouco conhecido, mesmo nos meios acadêmicos, afim de dar voz e visibilizar, dentro de um Estado laico na lei, mas confessional em suas práticas, essa parcela da população brasileira que deixou os redis das igrejas, deixaram de ser ovelhas de pastores e fazem seu caminho ouvindo outras vozes ou mesmo suas próprias vozes, o que não quer dizer que estejam errantes por aí, perigando ser atacadas por lobos.

Assim, a Revista Senso, por meio da contribuição de vários estudiosos brasileiros e internacionais, quer convidar seus leitores a olhar para a margem da religião e, assim, visibilizar esta parcela da população que, via de regra, cultiva sua espiritualidade, sua crença e sua descrença, para além das religiões.

Com isso, nosso intento é continuar um processo de profundo diálogo entre religião, cultura e sociedade para,nessa forma, contribuir com a construção de uma sociedade tolerante e respeitosa para com as diversas formas de crença e de não crença.

Iniciando este terceiro número de Senso, não poderia deixar de ecoar o Livro do Desassossego, de Pessoa: “nasci em um tempo em que a maioria dos jovens haviam perdido s crença em Deus, pela mesma razão que os seus maiores a haviam tido – sem saber porquê”. Se no Brasil o sem religião não perdeu a crença em Deus perdeu pelo menos a pertença àquela que se coloca como administradora dos bens divinos, a Igreja. Deixam-na pelo mesmo motivo pelo qual a maior parte da sociedade diz a ela pertencer: sem saber porquê. Fato é que, se por aqui Deus ainda não morreu, as Igrejas, pelo menos para alguns, estão doentes. Entender os sem religião  é salutar. Olhar à margem é fundamental para compreender saídas laicas para uma sociedade que a religião adoece. Às margens, este é o nosso convite.

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