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Umbanda e orientação sexual: Uma decisão própria!

Umbanda e orientação sexual: Uma decisão própria!

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Começo este texto dizendo que o amor é o sentimento mais puro, mais acolhedor e talvez o mais antigo, mas ainda assim, o mais questionado pela nossa sociedade machista/patriarcal é o amor LGBTQIA+1LGBTQIA+ = Comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, trans e travestis, queers, intersexuais, assexuais e todas as demais existências de gêneros e sexualidades..

As formas de afeto não normativas ou descritas na bíblia não são aceitas independentemente do quanto você ame, por quantas dificuldades passou e de como você se sente.  Ainda assim, será um crime amar alguém do mesmo gênero, um crime julgado e sentenciado. Quem ama ao inverso, como dizem os mais antigos, muitas vezes são contaminados por essa doença fóbica que além de reproduzir o discurso de ódio, se esquecem de se perguntarem se amam para si ou para o outro.

Aqui não posso deixar de passar pela Umbanda, já que ela me atravessa todo tempo e, enquanto religião, é reflexo social desse tipo de discriminação também.

Quando precisamos dar nosso corpo aos guias para que eles transmitam seus recados para a consulência ou, para nós, perdemos brevemente (não totalmente!) o controle dos pensamentos, ou seja, se você é alguém que julga, que impõe verdades e não aceita o que é diferente, com certeza vai passar isso para frente, inclusive no momento do atendimento. E quem estiver na sua frente pode encontrar mais tristeza, incertezas e dúvidas ao invés do acolhimento que procura. Se nós, que um dia também buscamos acolhimento por alguma razão, não pudermos dar àquela pessoa, o que estaríamos fazendo então? Pregando o contrário do que nos foi passado, mostrado e exemplificado, estaríamos julgando o outro.

Uma vez entrei em um debate com outra irmã umbandista, também lésbica, sobre as vestimentas do terreiro. Ela me disse: “Seu Orixá nunca vai te aceitar usando calças nos trabalhos, pois é obrigatório o uso de saia para respeitar o santo e também sua ‘natureza feminina.’”

O julgamento foi de que talvez, por eu ser “apenas uma ogã”, fosse mais aceitável o uso de calça, camiseta e filá. Mas, eu não sou “APENAS OGÔ, porque Ogã é o movimento da gira e o único capaz de modificar a energia de um terreiro. Eu sou a ponte e a conexão dos médiuns com seus ancestrais, seus guias. E mais, também dou passagem aos meus guias, independentemente de estar de calça, saia, pano de cabeça ou filá. O que nem todos entendem é que o Sagrado é maior que tudo isso.

Uma vez ouvi do meu Pai de Santo que poderia me vestir como me sentisse bem e que ele jamais me obrigaria a usar saia ou pano de cabeça se isso me ferisse, e isso é respeito e amor pelos nossos, além disso, a questão não é ferir e sim sentir. Maria Padilha bem me disse que: “Ser como eu sou não me faz menos mulher.” E Dama da Noite me disse: “Que sou a que mais honra minha ancestralidade feminina, porque nunca vou deixar macho nenhum encostar na minha cara”.

Quando você ouve da sua Mãe ou Pai de Santo que por ser mulher você DEVE usar a vestimenta de tal forma, isso diz mais sobre Ela/Ele do que sobre sua espiritualidade. Significa que quem deveria te respeitar, respeitar sua orientação sexual, não se importa com você e com o que te machuca, não te protege e não é um dos seus.

Meu Axé é o que move minhas mãos e isso está para além dos julgamentos e pré-conceitos formados de quem nunca me ouviu levantar e cantar o Axé dos meus ancestrais. Digo para vocês que a Umbanda nunca teve um livro sagrado com regras a serem seguidas, o Sagrado para o nosso povo está em fazer suas próprias escolhas e lidar com a dor e o amor em ser responsável por elas.

Cada terreiro tem seu conjunto de fundamentos, o que torna essa religião plural e sem dogmas; não sendo justificável ataques de quaisquer natureza de uma casa à outra.

Mas por que isso ainda deve ser dito sempre? Porque, se valendo disso, muitos adeptos se acham no direito de impor suas doutrinas a outros solos quando questionam sobre mulher não tocar atabaque, sobre mulher usar calça, sobre homem não poder incorporar Pombagira, sobre sacrifício animal, culto à Orixá e tantas outras situações, trazendo à tona a vontade de julgar para mostrar ser melhor que o outro.

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E a Umbanda deve refletir o que Ela realmente é: É amor, cuidado, zelo e principalmente o respeito e a empatia, para que assim como os mais velhos diziam: “Não fazer para o próximo o que não quero que façam comigo.”

A Umbanda não tem opinião sobre LGBTQIA+, sobre cultos diferenciados e sobre vestimentas, pessoas tem opiniões, religião não. A dificuldade é que o ser humano corrompe a religião. O amor deve ser transbordado, falado, compartilhado e gritado aos ventos. O Sagrado, deve ser vivo nas nossas vidas, dentro e fora do terreiro.

Achamos justa toda forma de amor pois somos liberdade e quem não acredita que a comunidade LGBTQIA+ também precisa de respeito não vive a Umbanda, não sente a Umbanda e muito menos pratica a Umbanda.


Notas

 

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    LGBTQIA+ = Comunidade de lésbicas, gays, bissexuais, trans e travestis, queers, intersexuais, assexuais e todas as demais existências de gêneros e sexualidades.