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Tentativas religiosas de repressão da sexualidade e as terapias de conversão

Tentativas religiosas de repressão da sexualidade e as terapias de conversão

Imagem de JF do Pixabay

Repressão das Vivências Sexuais e a Moral Sexual Cristã Conservadora

Historicamente é possível perceber que a sociedade ocidental foi permeada, em diferentes níveis, pela influência de sistemas de crenças religiosos que desejavam exercer domínio sobre relações sociais inseridas no campo da sexualidade. Nesse sentido, as religiões impactaram na vida social dos indivíduos, sendo capazes de influenciar densamente todos os tipos de pensamento e visões de mundo de quem as pratica, ou até mesmo quem possui alguma identificação com elas. Assim, essa influência foi responsável por institucionalizar conjuntos de crenças que detêm legitimidade como produtores e reguladores de discursos assumidos como “verdadeiros” sobre a sexualidade humana.

Dentro da esfera cristã conservadora, há uma visão de que as práticas sexuais devem ser contidas e recatadas, já que essa é a “visão bíblica” assumida como verdadeira. Foi preciso, historicamente, que os indivíduos submetessem a sexualidade às condições “puras” e “divinas”, condenando o erotismo, mas glorificando o ato sexual condicionado aos órgãos reprodutores. Por isso, houve a criação e institucionalização de uma moral cristã que se preocupou em organizar códigos de conduta que definiram comportamentos proibidos e permitidos. De acordo com o filósofo francês Michael Foucault (2004), essa “moral” compilou e universalizou os preceitos que assumia como verdadeiros, possibilitando a legitimação de técnicas e mecanismos de controle religiosos capazes de exigir e impor a obediência.

Com a chegada do século XX, inúmeras mudanças ocorreram na organização social, econômica, produtiva, jurídica e privada da sociedade ocidental. Essas mudanças fizeram com que instituições religiosas se encontrassem diante de novas identidades, questionamentos e possibilidades sexuais. A moral cristã precisava ser adaptada a estratégias “modernas” que fossem eficazes para a tarefa de caracterizar os comportamentos sexuais como “normais” e “anormais”, baseando-se, ainda, nos preceitos originados na Idade Média. Para isso, a Igreja, junto das Ciências Médicas, criou manuais médicos e psicológicos que se baseavam na moral cristã conservadora para reprimir práticas como o adultério, o envolvimento sexual com mais de uma pessoa e “qualquer ato sexual não monogâmico”, de acordo com a autora e psicóloga Bruna Suruagy Dantas (2010). Junto disso, houve a patologização das práticas sexuais que eram determinadas como sendo “contra a natureza” e “contra a lei” divina, gerando temor e caracterizando tais manifestações como “anormais” e abomináveis.

A psicóloga e doutora em psicologia clínica Adriana Nunan (2007) afirma que foi nesse contexto que as ciências médicas, legitimadas pela sociedade e influenciadas por discursos religiosos, elaboraram novas teorias, intervenções e tratamentos para “desvios sexuais” já considerados “anormais” pela moral cristã desde a Idade Média. Assim, a homossexualidade foi incluída como “homossexualismo” na Classificação Internacional de Doenças (CID), da Organização Mundial de Saúde (OMS), em 1948, como “personalidade patológica” e, em 1965, como “desvio e transtornos sexuais”.

As Terapias de Conversão

A partir da ideia de que a homossexualidade era uma patologia, surgiram, em 1952, as terapias de conversão, que visavam a mudar comportamentos sexuais “desviantes”. Esses procedimentos estavam entre os mais agressivos e clínicos, como sessões de eletrochoque e lobotomia, até aqueles não clínicos que utilizavam a religião como elemento condutor e transformador, tais como aconselhamento religioso, cura espiritual e renúncia pessoal. Incentivadas pelas igrejas conservadoras cristãs, as organizações exclusivas de terapia de conversão religiosas começaram a aparecer nos Estados Unidos em 1973 com a criação do ministério Love In Action (LIA), que foi o primeiro ministério cristão dedicado exclusivamente à restauração de gays e lésbicas. Com isso, começaram a surgir outros ministérios semelhantes como a NARTH (Associação Nacional de Pesquisa e Terapia da Homossexualidade) e a Exodus International (International Exodus), que tratava das mesmas questões a nível internacional.

Apesar do forte patrocínio de igrejas evangélicas fundamentalistas, também houve outras denominações religiosas que investiram em práticas que, de certa forma, eram empenhadas na conversão de pessoas homossexuais, como a igreja católica romana, organizações judaicas, adventistas e mórmons. Apesar de todos esses esforços, o combate a essas terapias também existia, em parte pela comunidade científica e em parte pela comunidade LGBTQ+, que argumentavam sobre os danos que esses aconselhamentos poderiam causar aos indivíduos. Com o tempo, surgiram denúncias de violências, abusos e relatos de ineficácia desses tratamentos que deram mais força aos movimentos que lutavam contra eles, e, em todo mundo, começaram a ser pensadas e votadas leis que proibiam procedimentos que tentassem mudar a sexualidade dos indivíduos. No Brasil, em fevereiro de 1985, o Conselho Federal de Medicina retirou a homossexualidade da Classificação Internacional de Doenças (CID), antes mesmo da Organização Mundial da Saúde (OMS), que só fez o mesmo em 1990. Seguindo as diretrizes internacionais, em 1999, o Conselho Federal de Psicologia proibiu qualquer tipo de tratamento ou cura para a homossexualidade.

Hoje, apesar dessa proibição do tratamento clínico, o que se vê no país é a mesma proposta de cura para “desvios sexuais” ligada, novamente, a certos grupos religiosos que propõem a fé e a palavra de Deus para oferecer a “libertação” da homossexualidade. A Exodus Brasil, o Movimento Cores da Igreja Batista Lagoinha e o Movimento Ex-Gays do Brasil (MEGB) ligados a várias denominações, entre outros, são exemplos de instituições que oferecem abertamente a possibilidade de tratamento para questões de sexualidade consideradas desviantes por meio de oração, leitura da bíblia, adoração, submissão espiritual, jejum, aconselhamento pastoral, entre outras práticas.

Dentro das linhas de pensamento dos grupos religiosos, e em suas relações com a homossexualidade, é possível perceber que o comportamento homossexual é reprimido e contido de diferentes maneiras. Alguns, mais conservadores tradicionais, interpretam a Bíblia, definindo o que é “natural” e reprimem tudo o que foge disso. Assim, as tentativas de tratamento do comportamento homossexual dessa linha de tradição cristã tentam restaurar esse princípio da naturalidade, reconhecendo no indivíduo a causa de seu comportamento antinatural para poder, assim, tratá-lo. As causas identificadas por esses grupos podem ser uma infância sem a presença do pai ou da mãe, um abuso sexual na infância, uma permissividade excessiva durante o crescimento ou qualquer outro trauma.

Outras igrejas mais pentecostais e carismáticas já não veem a homossexualidade como uma “alienação da natureza”, mas como um infortúnio sobrenatural, entendendo o “pecado sexual” do comportamento homossexual como uma “possessão diabólica” passível de “remoção”. Assim, as pessoas que passam pela terapia de conversão propostas por esses grupos são submetidos/as a sessões de exorcismo, jejum e oração que podem durar vários dias na tentativa de fragilizar o corpo e, dessa maneira, desestruturar as entidades malignas que ali estão. Após isso, essa pessoa passa por aconselhamento pastoral para aprender como “reprimir” os instintos promíscuos que a vida “gay” pode incentivar e “fugir” das tentações e armadilhas que o diabo pode oferecer.

Conclusão

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É possível perceber que o meio cristão ainda é permeado por uma diversidade de eventos que promovem discussões sobre sexualidade com o intuito de oferecer a cura, tratamento e aconselhamento de indivíduos que sofrem com suas questões sexuais. As terapias de conversão que tinham o objetivo de reparar a homossexualidade, apesar de sua atual proibição, podem ter suas nuances encontradas em ministérios e igrejas pelo Brasil que oferecem a libertação de “desvios” sexuais por meio da religião. Com isso, mesmo não possuindo métodos específicos e catalogados de tratamento da homossexualidade, ainda é possível encontrar uma infinidade de grupos cristãos religiosos que afirmam ser possível mudar a orientação sexual por meio de um processo de renúncia, entrega e fé. Uma terapia em Cristo.


Referências

DANTAS, Bruna Suruagy do Amaral. Sexualidade, cristianismo e poder. Estud. pesqui. psicol., Rio de Janeiro, v. 10, n. 3, p. 700-728, dez. 2010.

FOUCAULT, M. História da Sexualidade I: a vontade de saber. Trad. M.T. C. Albuquerque e J. A G. Albuquerque. Rio de Janeiro: Graal, 1977.

NUNAN, Adriana. Influência do Preconceito Internalizado na Conjugalidade Homossexual Masculina. In: Grossi, Miriam; Uziel, Anna Paula; Mello, Luiz. (Org.). Conjugalidades, Parentalidades e Identidades Lésbicas, Gays e Travestis. 1ed.Rio de Janeiro: Garamond, 2007.