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Que tipo de cura pode curar quem quer curar gay? A profecia do cuidado LGBTQI+

Que tipo de cura pode curar quem quer curar gay? A profecia do cuidado LGBTQI+

Sem dúvida, a arrogância dogmática fundamentalista, as posturas discriminatórias e o uso indevido do nome divino para rejeitar as diversidades de gênero e de sexo têm algo de doentio e precisam de cura. Como pode não estar com a mente doente um pastor que diz orar pela morte do ator Paulo Gustavo, ainda imaginando estar defendendo a causa de Deus?

No Pentecostalismo pouco pentecostal que, infelizmente, vigora em muitas congregações, há pastores que, para se considerarem evangélicos, devem se declarar ex-gays. Há também os que ainda aproveitam e unem homofobia e racismo religioso1Cf. algumas publicações da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Por exemplo: nos anos 1990, um pastor da Assembleia de Deus, então casado com uma serva de Deus e com um filho, sustentava em livro que tinha sido na Umbanda que uma legião de demônios fizera dele homossexual. Cf. XAVIER, João Carlos, O dia em que nasci de novo. Rio de Janeiro, CPAD, 1993; Ver também: ANDRADE, Claudionor Correia, Há esperanças para homossexuais. Rio de Janeiro, CPAD, 1987. 2Ver também: MACHADO, Maria das Dores; BARROS, Myriam; PICCOLO, Fernanda, Judaísmo e homossexualidade no Rio de Janeiro: notas de uma pesquisa, in Religião & Sociedade, vol.30 no.1 Rio de Janeiro,  July 2010. Acessível em: https://doi.org/10.1590/S0100-85872010000100002. Uma autoridade nacional das Assembleias de Deus classificou a homossexualidade como “perversão satânica dos instintos sexuais do ser humano”.

Na Igreja Católica, vários documentos emitidos pelo Vaticano condenam a homossexualidade como “corrupção dos costumes” (Congregação da Doutrina da Fé, 1975) e “ato desordenado” (2003). Este mesmo modo de olhar se estende também por círculos representativos do Judaísmo e do Islã 3http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591150-homossexualidade-e-religiao.

Sem dúvida, a maioria das Igrejas cristãs e algumas das outras religiões que se propagam pelo mundo precisam urgentemente ser curadas da sexofobia. É doença perigosa e tem consequências graves para a própria pessoa e a humanidade.

Quando, na década de 1980, era diretor do Institute in Culture and Creation Spirituality do Holy Names College em Oakland, na Califórnia, o teólogo Matthew Fox escreveu um livro que se concluía com um sonho no qual o papa tomava a iniciativa de reunir líderes de todas as religiões do mundo em um concílio ou fórum mundial de todas as tradições espirituais. Entre outros assuntos urgentes, estaria na pauta o reconhecimento de que a sexualidade e suas práticas são caminhos de misticismo e de intimidade com o Divino, propostas amorosas para todo ser humano 4FOX, Matthew, A vinda do Cristo Cósmico, A cura da Mãe Terra e o surgimento de uma Renascença Planetária. Rio de Janeiro, Editora Record  Nova Era, 1988, p. 345..

Provavelmente, é mais um ponto sobre o qual essas religiões institucionais que se consideram “do livro” podem aprender das tradições ancestrais de diversos povos indígenas e comunidades afrodescendentes. Essas comunidades vivem inseridas na sociedade dominante e a maioria delas provém de culturas patriarcais. Atualmente, há autores que defendem que, na África, a homossexualidade teria sido um vício trazido pelos ocidentais. Ainda há países nos quais a homossexualidade é considerada crime passível de punição. No entanto, no seu trabalho, os antropólogos Stephen Murray e Will Roscoe fornecem evidências claras que sustentam que, por toda a História da África, a homossexualidade tem sido uma “constante e lógica característica das sociedades africanas e das suas crenças5Cf. MURRAY, Stephen and ROSCOE, Will, Boy-Wives and Female Husbands, Studies in African Homosexualities, London, Palgrave Mac Millan ed., 1998. apud CARREIRA, Pedro, A Homossexualidade Africana Pré-colonial, no site Esqrever, 18 de maio 2015. Ver: https://esqrever.com/2015/05/18/a-homossexualidade-africana-pre-colonial/.

Também Thabo Msibi, da Universidade de Kwazulu‐Natal, documentou muitos exemplos na África de relacionamentos entre pessoas do mesmo sexo serem acomodados pelas sociedades pré-coloniais”. Deborah P. Amory fala de “uma longa história de diversos povos africanos envolvendo-se em relações do mesmo sexo”.

Nesta sociedade doente, quem precisa de cura é essa gente que segrega a bênção divina da corporalidade e separa a sensualidade e o prazer da espiritualidade. Evidentemente, não há nenhum sentido em falar em cura gay. No entanto, podemos ressignificar a cura gay não no sentido de curar os gays de sua homoafetividade e sim ver na orientação afetivo-sexual diferente e na proclamação tranquila da diversidade de gêneros e sexos a cura da humanidade. A cura gay não seria mais a fantasia de curar as pessoas gays e sim possibilitar que a homoafetividade e toda a diversidade sexual sejam elementos curadores de uma humanidade ferida pela intolerância e pelo colonialismo que não é só social e político, mas também dominação e repressão aos corpos e à própria vida.

É bom lembrar que, nas culturas antigas e mesmo em idiomas atuais como o italiano, o termo cura significa cuidado. Isso daria à cura gay o sentido de que a diversidade sexual merece ser cuidada, aprimorada e valorizada como tesouro da humanidade. É sensibilidade que pode ser caminho de reconstrução da humanidade e das feridas que fazem sofrer a Mãe Terra.

Não é por acaso que, mesmo sem que isso seja divulgado, desde os tempos mais antigos, alguns ritos de caráter mistéricos estimulavam uniões homoafetivas como expressões de cultos a divindades como Eros, Himeros, a deusa celta Brigit e outras.

Há indícios de que não é mera coincidência que nas diversas tradições religiosas, é forte a presença de pessoas maravilhosas e excepcionais que, por seu modo de ser, vão além do cisgênero e da heteronormatividade. Na África pré-colonial, “entre populações banto, durante séculos, o lesbianismo era considerado como sinal de vocação para mulheres que se tornavam adivinhas” (isanuses)6CARREIRA, Pedro, idem..

Há estudos que revelam que, entre povos indígenas da América do Norte, as pessoas que se denominavam de “Two Spirit”, o que dá a pessoas que vão além da heteronormatividade o caráter de pessoas sagradas (é o espírito que é duplo não no sentido da duplicidade e sim do dobro, o que na Bíblia, o jovem Eliseu pediu ao profeta Elias: “a porção dupla do teu espírito” (1 Rs 2). Do mesmo modo, estudos tradicionais revelam que, desde tempos coloniais, entre alguns povos indígenas brasileiros, homens que gostavam de homens eram vistos como sagrados e eram inclusive escolhidos como chefes. Alguém afirmou que entre os Lakota no leste dos Estados Unidos e os Cherokee no Canadá, ainda é normal pensar que existem até cinco sexos, ou cinco modos diversos de viver a sexualidade. Todos esses modos são aceitos como normais.

Na história, os colonizadores sempre usaram o argumento do pecado para, ao condenar a diversidade sexual, reprimir e matar as pessoas. A repressão sexual foi a arma mais cotidiana do genocídio praticado pela colonização. Por isso, ao retomar, em nossos dias, essa classificação de “two spirit”, os povos indígenas norte-americanos assumem uma postura anticolonial, por não mais aceitarem as categorias ocidentais de classificação de determinadas práticas.

Seria cair na armadilha do colonialismo continuarmos falando de homossexualidade entre os povos indígenas. Não podemos aplicar a esses povos óculos avaliativos e critérios valorativos da sociedade ocidental. As culturas são outras e o modo de compreendê-las tem de ser diverso.

 leia também

É urgente avançarmos no que chamamos de olhar decolonial e “epistemologias do Sul7SANTOS, Boaventura de Sousa, Epistemologias do Sul. São Paulo, Ed. Cortez, 2017.. Contudo, temos de convir: não existe um Sul único. Há vários e são plurais e cada um, em si mesmo, já é diverso. As teologias decoloniais, cristãs, afrodescendentes e xamânicas precisam assumir o trabalho de “decolonialidade interna”, necessária nas comunidades oprimidas, ainda deslumbradas com o mundo do opressor. No entanto, indo além disso, esses olhares decoloniais precisam curar a sociedade, as Igrejas e religiões (essa será a nossa cura gay) da “heterossexualidade compulsória”8RICH, Adrienne, Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence Signs: Journal of Women in Culture and Society, n. 5/ 1980, p. 631- 660.. E descobrir o sagrado nos corpos queer que são das divindades e das humanidades9MIRAMONTES, Conrado Zepeda y RAIUTO, Reynaldo, Teologías Queer: Devenir el Cuerpo Queer de Cristo. revista Concilium 383, noviembre 2019,  Navarra, Ed. Verbo Divino, 2019 (tradução brasileira Ed. Vozes)..

No México, pessoas como Angie Rueda e Jéssica Marjane, mulheres trans propõem um transfeminismo político ou que a transmasculinidade seja vivida de modo subversivo e revolucionário10Cf. MENDOZA-ALVAREZ, Carlos, A ressurreição como antecipação messiânica. Luto, memória e esperança a partir dos sobreviventes, Petrópolis, Vozes, 2019, pp. 106-108.. No sudeste do México, os índios Zapoteca sempre tiveram a categoria que chamam de muxe. A muxeidade é vista como resistência epistêmica contra os estereótipos ocidentais, inclusive até comum em meios homoafetivos.

“A muxeidade é uma prática cultural da diversidade sexual vivida por homens zapotecas em diferentes papeis sociais, que podem ser identificados pela cultura ocidental como masculinos ou como femininos. Na maioria dos casos, designa papéis sociais de cuidado” (ou, como expliquei acima, de cura). Podem ser tarefas tradicionalmente atribuídas a mulheres (o cuidado da casa), como podem ser tarefas de proteção, segurança, provedoria e comando. Atualmente, muxes desenvolvem uma espiritualidade da muxeidade baseada na Teologia da Libertação”11idem, p. 110- 111..

É claro que não podemos convidar os/as muxes para curar nossas Igrejas e religiões da doença do desamor e da praga de todas as discriminações que impedem a comunhão. Provavelmente, ao liberar o sagrado dessa prisão do desamor, descobrirão que por trás da maioria dos clérigos e pastores homofóbicos, provavelmente, há um espírito homoafetivo, duramente reprimido que está gritando para sair do armário. É ele que precisa urgentemente de cura gay.

O amor que Jesus Cristo propôs como caminho, a compaixão que Buda semeou como itinerário de iluminação, a misericórdia que é o próprio nome divino revelado pelo Corão islâmico, assim como o Axé da tradição iorubá e o Bem-viver indígena são medicinas eficazes contra a epidemia do desamor e da indiferença e nos chama para vivermos o testemunho de um Deus que, por ser Amor, só pode amar.


Notas

  • 1
    Cf. algumas publicações da Casa Publicadora das Assembleias de Deus. Por exemplo: nos anos 1990, um pastor da Assembleia de Deus, então casado com uma serva de Deus e com um filho, sustentava em livro que tinha sido na Umbanda que uma legião de demônios fizera dele homossexual. Cf. XAVIER, João Carlos, O dia em que nasci de novo. Rio de Janeiro, CPAD, 1993; Ver também: ANDRADE, Claudionor Correia, Há esperanças para homossexuais. Rio de Janeiro, CPAD, 1987.
  • 2
    Ver também: MACHADO, Maria das Dores; BARROS, Myriam; PICCOLO, Fernanda, Judaísmo e homossexualidade no Rio de Janeiro: notas de uma pesquisa, in Religião & Sociedade, vol.30 no.1 Rio de Janeiro,  July 2010. Acessível em: https://doi.org/10.1590/S0100-85872010000100002
  • 3
    http://www.ihu.unisinos.br/78-noticias/591150-homossexualidade-e-religiao
  • 4
    FOX, Matthew, A vinda do Cristo Cósmico, A cura da Mãe Terra e o surgimento de uma Renascença Planetária. Rio de Janeiro, Editora Record  Nova Era, 1988, p. 345.
  • 5
    Cf. MURRAY, Stephen and ROSCOE, Will, Boy-Wives and Female Husbands, Studies in African Homosexualities, London, Palgrave Mac Millan ed., 1998. apud CARREIRA, Pedro, A Homossexualidade Africana Pré-colonial, no site Esqrever, 18 de maio 2015. Ver: https://esqrever.com/2015/05/18/a-homossexualidade-africana-pre-colonial/
  • 6
    CARREIRA, Pedro, idem.
  • 7
    SANTOS, Boaventura de Sousa, Epistemologias do Sul. São Paulo, Ed. Cortez, 2017.
  • 8
    RICH, Adrienne, Compulsory Heterosexuality and Lesbian Existence Signs: Journal of Women in Culture and Society, n. 5/ 1980, p. 631- 660.
  • 9
    MIRAMONTES, Conrado Zepeda y RAIUTO, Reynaldo, Teologías Queer: Devenir el Cuerpo Queer de Cristo. revista Concilium 383, noviembre 2019,  Navarra, Ed. Verbo Divino, 2019 (tradução brasileira Ed. Vozes).
  • 10
    Cf. MENDOZA-ALVAREZ, Carlos, A ressurreição como antecipação messiânica. Luto, memória e esperança a partir dos sobreviventes, Petrópolis, Vozes, 2019, pp. 106-108.
  • 11
    idem, p. 110- 111.