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O Exorcismo de Oliver Black (ou quase isso) – um relato LGBT+

O Exorcismo de Oliver Black (ou quase isso) – um relato LGBT+

Prometi a mim mesmo que essa história jamais seria contada para preservar a minha mãe. Mas promessas, sobretudo as que limitam indivíduos, servem para serem quebradas. E acho que após 10 anos do acontecido, todos nós já nos tornamos pessoas melhores e mais esclarecidas para lidar com alguns fantasmas.

Fui “descoberto” aos 18 anos. Alguns meses após me mudar para BH. Eu havia ido a um show de rock (sim, sou pirigótico) e meus pais, que vieram do interior, ficaram no meu apartamento. Porém, o show que começaria às 14h da tarde, se iniciou às 22h e, em razão disso, eu só consegui pisar em casa às 1h da manhã.

Sem celular e incomunicável durante um bom período, a minha mãe, desconfiada de que eu estava envolvido com drogas, começou a vasculhar o meu quarto em busca de alguma ligação sobre o meu sumiço. E quem procura, acha. Mas não foram ilícitos que ela encontrou, mas sim algumas cartas enviadas pelo primeiro cara com que namorei. Coisas que ele me enviava aleatoriamente, com leves traços insinuando que a gente era algo um do outro – e honestamente, lendo-as hoje eu poderia ter contornado a situação facilmente. Mantido uma mentira. Mas não quis.

Ao abrir a porta bêbado e cansado, minha mãe, que já me esperava no quarto com as cartas, disse: – O que são esses recados?

É isso mesmo que você está lendo. – Concluí

Você está se envolvendo com um HOMEM?! – ela berrou

Puto, com sono e cansado (tanto do show quanto de viver mentido), conclui: – A senhora é analfabeta? Não está claro?

Mal sabia eu que, no impulso, tinha tomado uma das maiores decisões da minha vida e, obviamente, iniciado a pior e maior saga infernal que viveria até então. Antes de dormir, lembro-me que a minha mãe voltou ao meu quarto e gritou, em alto e bom som: – Quisera eu ter achado crack nesse quarto ao invés disso.”

Minha mãe quis me trazer de volta para o interior. Meu pai criou planos mirabolantes para que eu não me assumisse, continuasse a sair com mulheres e contou, inclusive, que eu poderia viver de fachada como muitos dos amigos dele fizeram. Não surtiu efeito. Me mantive firme. Mas a firmeza às vezes se faz presente só na postura física, porque o abuso emocional dos meus pais foi tão forte que, talvez, se não tivesse um namorado que abdicou de tudo, inclusive do então noivado hétero, para passar essa barra comigo, eu não teria conseguido.

Fiquei 6 meses sem visitar a minha cidade natal. 6 meses sem ouvir a voz do meu pai (por decisão dele). 6 meses engolindo sapo e pedra para sobreviver mergulhado no ódio. Foi então que minha mãe me pediu uma última tentativa de “conversão gay”. Disse que se eu topasse fazer ela nunca mais iria falar sobre aquele assunto. Claro que eu topei mesmo sabendo que era uma babaquice sem fim. Afinal, para quem estava atolado de TERROR psicológico até a boca, qualquer respiro era ouro.

Era um ex-padre Exorcista. De Sete Lagoas. Excomungado da igreja católica. Era (e ainda é) conhecido na região por ter tirado grandes encostos de fazendeiros e magnatas. Se tirou de fato, não sei. Fato é que eu entrei no carro rumo ao destino com um misto de ceticismo e medo – porque apesar de ter segurança sobre mim, eu não tinha segurança sobre os procedimentos que porventura o profissional exorcista aplicaria em mim.

Era uma fazendinha. O lugar de atendimento ficava nos fundos. Não sei se era o meu receio ou se as minhas percepções eram reais, mas me remeteu ao casebre em que Charles Manson se reunia com seus seguidores. Naquela altura do campeonato, onde um menino de 18 anos é levado pra ser exorcizado da doença “gay”, tudo era possível.

Entrei com minha mãe e o padre nos mandou sentar:

– O que seu filho tem? Ele me parece bem – questionou o padre a minha mãe.

– Sabe, padre, ele está se envolvendo em um mundo de perversão – disse chorando

– De quais tipos? – Sério, ele olhava pra mim avaliando se poderia descobrir por telepatia

– Ele está se envolvendo com um HOMEM! E eu não sei mais o que fazer! – as lágrimas desciam.

Ficamos mudos por 1 minuto. Achei que fosse este o momento em que me prenderiam no banco e tirariam Satanás da minha garganta.

– Senhora, eu já limpei hordas de espíritos. Já tive que reconstruir inúmeras famílias por problemas de possessão. Já perdi meu emprego e minha dignidade por isso. E se eu tivesse unicamente que atender meninos com o problema que o seu filho tem, a minha vida seria perfeita.

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– E o que podemos fazer então? – questionou ela esperançosa (e eu, na ponta da mesa, já aguardando o velho discurso catolicista fascista…)

– Pelo seu filho? Nada. Por você? Muita coisa.

– Padre, como assim? – olhou assustada.

Então ele pegou na mão da minha mãe sobre a mesa e continuou: – Não é o seu filho que tem problemas a serem resolvidos, é a senhora. Ser gay é uma condição humana e não um martírio. Quem faz sê-lo são pessoas como você, que deviam estar estendendo a mão e não trazendo o seu filho para uma sessão de descarrego.

[Queria ter levantado e batido palmas, mas estava perplexo demais com esse discurso disruptivo em pleno 2011. Mal respirei.]

Por fim, o padre pegou um papel e escreveu uma oração de “conexão com o divino”. “Para ser lida toda noite”, ele disse. Deixando sobre a mesa.

– Oliver, pegue a oração – minha mãe disse.

– Não é para o seu filho, é para você – conclui majestosamente o ex-padre – ou homem responsável por dividir as águas entre o que foi e o que seria a partir daquele momento a minha vida.

Claro. Tivemos outras inúmeras discussões após esse episódio. Mas os meses de embate foram ficando mais brandos e a água se fez vinho.