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Judaísmo e Homossexualidade na Antiguidade e na Contemporaneidade

Judaísmo e Homossexualidade na Antiguidade e na Contemporaneidade

O judaísmo, uma das três religiões monoteístas da atualidade, a mais antiga delas, nas classificações de Saussaye, a única religião verdadeiramente monoteísta, mãe do cristianismo e islamismo (SAUSSAYE, Pierre-Daniel Chantepie de la. História das Religiões. Lisboa: Editorial “Inquérito” Ltda, 1940. p. 24.), berço da moral e cultura ocidental, tem tradicionalmente uma visão conservadora da homossexualidade e apresenta alguns impedimentos à sua prática.

A homossexualidade ainda é um tabu em algumas comunidades judaicas. Apesar de uma tentativa antiga por parte das comunidades liberais americanas de aceitação de casais formados por pessoas do mesmo sexo, o que ainda prevalece hoje é uma opção pela diversidade, mas não uma aceitação da diferença como propõe a teoria Queer.

A discussão quanto à inclusão e aceitação de homossexuais e casais homossexuais nas comunidades judaicas liberais americanas começou no final do século XIX. No Brasil, a questão é bem mais recente. Vem com uma das ondas do feminismo dos anos 60.

Os estudos Queer, no âmbito dos estudos culturais, buscam um lugar de afirmação para os chamados “desviantes” ou “abjetos”, aqueles que fogem à norma vigente, à “heteronormatividade” ou “heterossexualidade compulsória”: homossexuais, bissexuais, lésbicas, travestis e transgêneros. O tema é polêmico e exige de nossa parte uma reflexão sobre a tradição judaica, as dinâmicas religiosas do judaísmo contemporâneo e as noções de moral que carrega em seu discurso e sua práxis. Claro que me refiro primordialmente à ala liberal.

O judaísmo, apesar de ser uma das três religiões abraâmicas juntamente com o islamismo e o cristianismo, e tradicionalmente, assim como as outras duas, se opor à homossexualidade, é uma religião constantemente “reformada”, pois, apesar de ter um cânone fechado, o Tanach ou Bíblia Hebraica, existem os Talmudes, ou talmudim, em hebraico,  da Palestina e da Babilônia, que fazem extensos comentários sobre os mais diversos assuntos e as contemporâneas responsa rabínicas que versam sobre as mais variadas e polêmicas questões. Ou seja, pouco está cristalizado nessa religião. Tudo está sujeito a opiniões diferentes e contrárias ao pensamento prevalente.

No Brasil, caminhamos a passos mais lentos do que nos Estados Unidos. Aqui, grande parte das sinagogas liberais já não fazem restrições para mulheres subirem à bimá, e ler na Torá, assim como tampouco fazem restrições a homossexuais. Todavia, só foi oficiado um casamento judaico gay no nosso país (Ocorreu na Comunidade Shalom, uma sinagoga do movimento conservador, na cidade de São Paulo, SP. Foi oficiado pelo Rabino Adrián Gottfried com protestos de judeus ortodoxos do lado de fora do prédio. O movimento conservador no judaísmo é parte da ala liberal assim como o movimento reformista.)  e não temos sinagogas que têm como alvo alcançar um público gay.

Tradição e modernidade, frequentemente, estão em conflito no judaísmo. Dito isso, entende-se que cabe aos atuais professores, rabinos, criarem novas regras para as polêmicas da nossa contemporaneidade. E ainda, conforme o rabino Steven Greenberg,  no seu livro “Wrestling with God and Men: Homosexuality in the Jewish Tradition “, “a era profética acabou. A Torá não está nos céus, mas nas mãos dos sábios de todas as gerações cuja responsabilidade é implementar a lei no seu devido momento pela decisão da maioria”.(GREENBERG, 2004, p.143, tradução nossa). Essa é uma grande responsabilidade para uma religião que foi berço da moral, cultura e legislação ocidental.

O assunto é de grande relevância para mim, pois além de judeu também sou homossexual. Isso não diz respeito apenas à militância, mas também à aceitação. O tema como já foi visto acima é contemporâneo. É necessário entender se o estigma de pecado da homossexualidade na tradição judaica devido ao versículo 22 de Levítico 18: “E com homem não te deitarás como se fosse mulher; é uma abominação” ainda prevalece em algumas comunidades ou se já foi desmistificado na maior parte delas. Além disso, o tabu cultural ainda existe nessas comunidades? Os gays são tolerados ou existe uma aceitação da diferença? Algumas comunidades judaicas brasileiras estão de fato abertas para acolher gays, no entanto a abertura não é plena. A troca de afeto em público não é bem vista; se o homossexual é afeminado ele tampouco é bem visto e aí existe o preconceito e a discriminação. No Brasil ainda não existem homossexuais rabinos. E o casamento homoafetivo judaico ainda é um desafio a ser enfrentado. Comunidades judaicas ditas liberais rejeitam a possibilidade de ter um rabino gay. Não querem! Colocam como pré-requisito que ele não seja gay e tampouco querem uma rabina. Ou seja, ainda engatinhamos. É fato que temos apenas uma única rabina no Brasil, Fernanda Tomchinsky-Galanternik, em São Paulo, na CIP, em atividade desde março de 2017. Enquanto nos Estados Unidos há diversas sinagogas gays, rabinos gays e até transexual, Elliot Kukla, aqui o percurso está cheio de obstáculos. Eu sou um pesquisador inserido na comunidade judaica que desejo participação e compreensão das questões judaicas acerca do casamento judaico homoafetivo e da real aceitação de gays e casais gays numa das quatro maiores comunidades judaicas brasileiras: São Paulo, Rio de Janeiro, Porto Alegre e Belo Horizonte.

Pelo senso comum, religião e sexo não deveriam ser discutidos. Não é o caso do judaísmo, pois nos Talmudim até a autopenetração é discutida.

O notório rabino da CJB e escritor gaúcho, que já vive no Rio há muitos anos, Nilton Bonder, em entrevista à Revista Ela, do jornal “O Globo” do dia 06 de junho de 2021, ressalta “que a discussão em torno da questão de gênero, tão em evidência nos dias de hoje, acompanha a Humanidade há muitos séculos. Está presente desde a Antiguidade. (…) Atualmente, tem sentido mais amplo, libertário e de autonomia do corpo. O fato de termos biologia binária não determina nossa sexualidade. A minha leitura mostra que, ao alcançar a dimensão intelectual, vem a vontade de encontrar um parceiro sexual identitário que não é, necessariamente, binário”. A esse desejo o autor dá o nome de “nubilidade”, o desejo núbil, de se casar. Bonder ainda afirma que “mesmo na diversidade de gênero, essa busca permanece, não ficou ultrapassada”. (Revista Ela, “O Globo”, p. 27, 06/06/2021)

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Steven Greenberg, novamente, primeiro rabino ortodoxo norte-americano a se declarar publicamente gay, no seu livro Wrestling with God and Men: Homosexuality in the Jewish Tradition (“Lutando contra Deus e os Homens: Homossexualidade na Tradição Judaica”) apresenta quatro justificativas que poderiam corroborar essa proibição de Levítico 18:22.

1 – A justificativa da reprodução. A lei proíbe essa forma de expressão sexual pois o casal não pode gerar filhos. 2 – A justificativa do rompimento social. A lei tenta impedir que maridos abandonem suas esposas por uma aventura com homens. 3 – A justificativa da confusão entre categorias. A lei proíbe uma forma de relacionamento sexual que confunde as categorias do feminino e do masculino. 4 – A justificativa da humilhação e violência. A lei proíbe uma forma de expressão sexual que é, por definição, guiada pelo poder, controle, e dominação. (GREENBERG, 2004, p.144-145, tradução nossa).

As duas últimas merecem considerações. No livro de Gênesis, o homoerotismo sempre aparece em contextos violentos. Cam, filho de Noé, estupra seu pai. A violência sexual entre homens continua na história de Sodoma. Os filhos de Sodoma não podem ser culpados por perversão sexual, mas sim pela humilhação de estrangeiros. O estrangeiro que deveria ser convidado para a proteção do lar (no caso, eram anjos em corpos de humanos), é saudado por um clamor de muitos para ser submetido a violentos favores sexuais. O que Levítico então proíbe é a humilhação de um camarada pela penetração sexual, o desejo de humilhar o outro através da violação do seu corpo. Concluindo, o verso proíbe o estupro e não o sexo consentido entre homens adultos. E há ainda a questão hierárquica, a terceira justificativa da confusão entre categorias: feminino e masculino.

Na antiguidade judaica Deus está no topo, homens na base; homens no topo e mulheres na base. Em relação a Deus, humanos são receptores; em relação aos homens, mulheres são receptores. Assim como Deus governa os homens, os homens governavam as mulheres. Elas eram seres de segunda categoria. A ordem foi criada para ser benéfica, mas seu potencial para a violência está implícito. No midrash sobre quatro governantes da antiguidade, entre eles Nabucodonosor, e um dos faraós do Egito; todos os quatros se fizeram deuses, quiseram ser como Deus, e por isso foram punidos e foram penetrados como mulheres. Tudo por causa da altivez deles. E por terem violado a hierarquia de poder, terem se promovido ao status divino, sua punição foi o rebaixamento ao status feminino, ao status de mulher. É uma punição típica de humilhação devido a arrogância. E como humilhar um homem? Através da penetração sexual. E por que isso é humilhante? Porque isso é o que um homem faz com uma mulher, de acordo com (GREENBERG, 2004, p. 192-194, tradução nossa). Então concluímos que “se deitar com um homem como se fosse mulher” significa humilhá-lo, rebaixá-lo, estuprá-lo. Não há relação alguma com a forma contemporânea de homossexualidade entre dois adultos, algo consentido. Todavia, esse significado de humilhação, rebaixamento e estupro na antiguidade para o sexo entre iguais ainda permanece para muitos nos dias de hoje. Isso Greenberg não menciona. É motivo de chacota entre heterossexuais e até entre gays em referência aos homossexuais passivos.