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Igreja des/viada: breve narrativa sobre a fundação das Igrejas da Comunidade Metropolitana

Igreja des/viada: breve narrativa sobre a fundação das Igrejas da Comunidade Metropolitana

Pois minha imaginação não tem estrada.

E eu não gosto mesmo da estrada.

Gosto do desvio e do desver.

(Manoel de Barros)

Este é um artigo de memórias. Grande parte da narrativa faz parte do vídeo-documentário “Call Me Troy” (2007), que apresenta a história do Reverendo Troy Perry, fundador da Fraternidade Universal das Igrejas da Comunidade Metropolitana, considerada a primeira denominação cristã inclusiva do mundo. O documentário conta que, na edição de setembro de 1968 da revista The Advocate, Troy Perry publicou um anúncio para que as pessoas comparecessem ao que seria o primeiro encontro da Metropolitan Community Church (Igreja da Comunidade Metropolitana, ICM), em Los Angeles, nos Estados Unidos.

O ano de 1968 foi marcado por um período de efervescência social simbolizado pelo “Maio de 1968”. A data passou para história devido à importância do movimento estudantil francês que, no dia 2 de maio de 1968, fez um protesto contra a divisão dos dormitórios entre homens e mulheres na Universidade de Nanterre. Estava por trás da ação a revolta contra o conservadorismo da época. O que começou como reivindicação contra pauta de costumes, culminou na luta pela renúncia do então presidente francês, Charles de Gaulle. O dia 18 de maio foi marcado por uma greve geral que contou com a adesão de cerca de 9 milhões de trabalhadores.

O “espírito de 1968” foi um espírito revolucionário cuja mística não se limitou ao cenário francês. Segundo Sean Purdy, no artigo “1968: a rebelião estudantil nos Estados Unidos” (2010), o ano foi marcado pela contracultura da juventude, pelo movimento operário de base, pelo movimento militante negro “Black Power”, pela “Segunda Onda” do feminismo e pela efervescência do movimento pelos direitos de lésbicas e gays. Purdy conta que “ao longo de 1968, aconteceram importantes mobilizações, como a da Universidade Columbia. Além do protesto contra o envolvimento da universidade com pesquisas militares usadas na Guerra do Vietnã, os estudantes também reivindicaram o fim dos planos para construir um prédio no campus em terras expropriadas do bairro pobre negro do Harlem”.

Esse foi um período de efervescência pelos direitos civis na luta pela liberdade e pelas garantias para os indivíduos. Segundo André Musskopf, em seu livro “Via(da)gens teológicas: itinerários para uma Teologia Queer no Brasil” (2012), esse foi um momento histórico de rupturas e continuidades, que propiciaram a formação de um novo sujeito. A forte repressão contra a cultura homossexual incentivou o fortalecimento de subculturas homossexuais, que se articulavam em redes de sociabilidade. Essas redes facilitaram a organização dos grupos e a reivindicação de seus direitos civis. Eram movimentos sociais liderados por negros, mulheres e gays.

Foi nesse ambiente que o jovem Troy Perry, com 28 anos à época, decidiu publicizar um convite para a igreja que decidiu fundar depois de uma luta intensa para a reconciliação de sua homossexualidade com o cristianismo. Chris Glaser, no livro “Troy Perry: pastor and prophet” (2005), conta que, segundo o próprio fundador, a denominação deveria ter o nome igreja, pois seria uma nova denominação religiosa cristã; deveria ter o nome comunidade, pois alcançaria a comunidade gay. E, além disso, havia o interesse de servir a uma comunidade mais ampla, abrangendo toda a área de Los Angeles, por isso, o nome metropolitana.

O horário do culto levanta alguns questionamentos, pois, por ser apenas um culto dominical, se esperaria que fosse em um horário tradicional da manhã ou da noite, mas o horário logo após o almoço sugere que sua igreja não entraria em disputa com outras igrejas, assim um membro poderia continuar frequentando sua comunidade de fé de origem. Além disso, daria a liberdade para que o frequentador fosse ao culto sem parecer que estivesse indo a uma igreja, já que uma “igreja gay”, naquele momento histórico, poderia ter que ser frequentada às escondidas.

A ICM ficou por cerca de seis semanas tendo seus cultos sendo realizados na casa de seu líder, até quando essa já não comportava mais o número de frequentadores. Glaser conta que em um ano e meio da fundação, já eram cerca de mil participantes. Um ano depois, em 19 de outubro de 1969, a igreja já estava construindo um templo próprio, mas com certa dificuldade financeira. Assim, Troy Perry convocou para que as pessoas, naquele dia, fizessem uma oferta comunitária. Foi levada à frente do templo uma lixeira na qual os membros depositavam suas ofertas. Segundo Glaser, a meta foi alcançada com alguma sobra. Assim, com as ofertas que se seguiram, em 1971, a ICM consagrava seu primeiro templo, sendo considerada a primeira propriedade de uma organização LGBT nos Estados Unidos.

Troy Perry narra que o rápido crescimento da denominação se deu devido a algumas questões: “eram visitados por curiosos, eram visitados por incrédulos, eram jovens, eram uma novidade, eram um item no mundo gay e eram ignorados pela comunidade heterossexual”. Diante do crescimento denominacional, que os fez sair da pequena casa para procurar um novo espaço, o Reverendo deparou-se com questões teológicas para o seguimento da igreja, pois o que ele outrora propusera ser uma “igreja protestante inclusiva” também recebia pessoas de diferentes tradições religiosas. Inclusive, dentre as pessoas que frequentaram o primeiro culto da ICM havia católicos, episcopais e protestantes de diferentes denominações e correntes teológicas. O Reverendo Troy Perry explica que sabia que não estava fundando outra igreja protestante, mas sim uma “igreja ecumênica”.

Troy Perry, por meio do que era considerado “desvio sexual”, criou desvios em sua própria história e na história do cristianismo. Afinal, como afirma o preâmbulo da Declaração de Fé das Igrejas da Comunidade Metropolitana: “somos um capítulo na história da Igreja, o Corpo de Cristo”. Esses desvios não evitaram encruzilhadas ou estradas sem saída, mas criaram possibilidades outras de experiência de si, nas quais o que era verdade e libertação para o próprio Reverendo precisaria ser compartilhado como um anúncio messiânico de Boas Novas. “O Senhor é meu pastor e ele sabe que sou gay!”, afirmava Troy. A convicção de um homem que ousou afirmar-se homossexual e cristão em um contexto histórico no qual a homossexualidade era crime, patologia e pecado, criou novas rotas na pavimentada estrada do cristianismo tradicional e hegemônico. Rotas que levaram milhares de pessoas a uma igreja no desvio, uma igreja des/viada.

Para mais informações sobre a fundação da ICM ver: FREIRE, Ana Ester Pádua. Armários queimados: igreja afirmativa das diferenças e subversão da precariedade. Doutorado (Tese). PUC Minas, Programa de Pós-graduação em Ciências da Religião, Belo Horizonte, 2020.

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Referências

GLASER, Chris. Troy Perry: pastor and prophet. Metropolitan Community Churches. California. 2005. s/e.

MUSSKOPF, André Sidnei.  Via(da)gens teológicas: itinerários para uma Teologia Queer no Brasil. São Paulo: Fonte Editorial, 2012.

PERRY, Troy. Call me Troy. YouTube. Scott Bloom, 2007. 1º de agosto de 2012. Disponível em: www.youtube.com. Acesso em: 1º jul. 2016.

PERRY, Troy. Rev Elder Dr Troy D Perry. The Life and Times of the Founder of Metropolitan Community Churches. Disponível em: www.revtroyperry.org. Acesso em: 4 jul. 2016.

PURDY, Sean. 1968: a rebelião estudantil nos Estados Unidos. In: Cult. 14 de março de 2010.  Acesso em: 18 set. 2019.