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Eu e minha professora de religião

Eu e minha professora de religião

Sempre passei a vida dentro da igreja católica a ponto dos meus pais me matricularem em escolas confessionais desde o jardim de infância. Passei por todos os sacramentos e alternei minha vida estudantil entre uma escola de freiras e uma de irmãos, Maristas. Foi ali que boa parte do meu ser foi moldado e da forma como olho para os seres humanos e o impacto que a desigualdade foi promovendo em nossa sociedade.

Quando estava na oitava série, com quinze anos, pois eu tinha repetido um ano, passei a frequentar retiros espirituais na fazenda em Mendes que pertencia à congregação da escola. Havia um grupo de professores que coordenavam as atividades e todos eles pertenciam ao Serviço de Orientação Religiosa – SOR.

Nesse final de semana de três dias, fomos guiados por um casal de professores André e Clarissa. Clarissa era uma professora de 29, 30 anos e já tinha uma filha, que havia sido noviça, mas desistiu da vida religiosa para casar. Tinha uma personalidade forte, um humor ácido e cortante, mas uma alegria contagiante que invadia o peito de qualquer adolescente que ainda não tivesse compreendido o que é ser humano alegre e feliz.

Numa das inúmeras fotos que tiramos em grupo, fizemos uma em que todos os alunos se sentam em uma escada. Numa fração de segundos, posso me lembrar da cena como se fosse hoje e lhe disse: Clarissa, sente aqui. Encaixei minhas pernas em suas costas e lhe abracei por trás na altura dos ombros e nas semanas seguintes, meu diário passava a ter páginas e mais páginas que elogiavam àqueles dias e o quanto as vivências com ela tinham sido especiais.

Os anos se passaram, perdi Clarissa de vista, apenas soube que havia se separado de André, o que para todos os alunos era algo impensado. Eles pareciam o tipo de casal perfeito que jamais se separariam ao longo da vida. Certo dia, andando pela praça Saens Peña, no bairro onde morávamos, deparei-me com Clarissa, num encontro cheio de sorrisos, alegria e palavras sensíveis. Naquele dia, ela me deu seu cartão e disse que seu consultório era ali.

O cartão foi parar num porta-cartões que tinha em casa, eu sempre fui organizada com assuntos de papeis e escrita. Até que um dia meu pai pediu que eu arrumasse uma terapeuta para o meu irmão. Lembrei-me de Clarissa e fui em busca do tal cartão. Naquela época os números haviam sido acrescidos de um dígito e não foi fácil a localização, até que após algumas tentativas, consegui o telefone.

Isso pode parecer do tempo das cavernas, mas deixei um recado em sua secretária eletrônica e passados alguns minutos, ela me retornou. Sim, era ela mesmo. Clarissa, com a mesma voz de taquara-rachada que oscilava entre o grave e o agudo repentino, quase desafinado e estridente. Ficamos por duas horas conversando e marcamos de nos encontrar na manhã seguinte para uma caminha na Lagoa. Combinei de passar para buscá-la, a adulta de carro, buscando a professora. Quando ela me viu na porta do seu prédio, ela me reconheceu. Afinal, cada série nossa tinha mais ou menos quatrocentos alunos. Seria quase impossível ela ligar minha voz à minha imagem.

Clarissa estava casada com seu terceiro marido, que naquele dia estava fora fazendo uma prova e por isso ela estava livre para caminhar com uma aluna ou mais nova amiga. Demos a volta na Lagoa e naqueles quase 7,4 quilomêtros, um turbilhão de sentimentos foi me tomando.

Eu tinha 29 anos, estava prestes a comemorar 30, solteira, sem namorado e me escondendo num corpo fora do peso, para que minha sensualidade não pudesse aflorar. Tinhas muitas questões sobre minha sexualidade, mas tentava adiar as perguntas que teria que me fazer e encontrar as respostas que eu não saberia dar.

Alguns anos antes, quando fui cantar numa Igreja Presbiteriana a convite de uma Professora de Canto, costumava pedir nas orações que me libertasse desses desejos mais secretos. Cheguei a comprar um livro na livraria da Igreja sobre a “cura da homossexualidade” e na hora de pagar, mandei a célebre frase: estou comprando para um amigo.

Durante aquela caminhada despretensiosa, Clarissa soltou uma frase que parecia me libertar de todas as angústias que trazia comigo até ali: “eu me apaixono por gente, pela pessoa, isso não tem sexo”. Em questões de segundos passou um filme na minha cabeça das paixões por “pessoas” que tinha tido ao longo da vida, sem entender direito tudo o que sentia.

Depois daquele domingo, as conversas com Clarissa e eu foram se tornando mais rotineiras e assíduas. Falávamos muitas vezes pelo ICQ e as horas passavam sem que notássemos. O meu aniversário de 30 anos chegou, fiz um show para comemorar e Clarissa me presenteou com a participação do seu marido, saxofonista em um número. Como já disse anteriormente, ela tinha uma personalidade marcante e ainda levou os bolos confeitados que ela mesmo fazia para a festa. De um jeito ou de outro, ela sempre queria chamar a atenção para si, mas essa era ela.

Os dias, semanas e meses foram passando. Em alguns momentos, Clarissa não podia me dar atenção, porque ia sair com o marido e eu sentia uma ponta de ciúmes, por não estar com ela. Tentava me ocupar com outras coisas.

Os dias foram passando e nosso convívio foi ficando cada vez mais constante e percebia que havia algo diferente naquela amizade. Até que um dia recebi um e-mail dela, dizendo que estava apaixonada por mim. Isso nunca havia me acontecido, mas percebi que era recíproco. E, tentamos ainda fugir disso, mas foi impossível.

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De repente, o marido foi embora, eu fui acolhê-la na separação e, passado algum tempo, nosso primeiro beijo aconteceu. Fomos embaladas pela música de Paulinho Moska: meu amor, o que você faria se só te restasse esse dia? Viver aquela paixão seria nossa resposta. Vivemos, nos jogamos e nos machucamos muito também.

Clarissa tinha muitos conflitos, afinal, ela era uma mulher de 44 anos, saída do terceiro casamento, com uma filha jovem e eu nunca havia me casado na Igreja, construído família como as tradições religiosas nas quais acreditávamos esperavam que eu fizesse. Ela sentia culpa, de tempos em tempos fugia, queria que eu arrumasse namorados, mas quando acontecia, não conseguia bancar e morria de ciúmes.

Desde o dia em que nos encontramos até passarmos a morar juntas, passaram-se pouco mais de três meses. Achamos prudente, uns meses depois, que eu alugasse um apartamento perto e acabou acontecendo. Só que acabei alugando uma pequena cobertura na Tijuca, que era o sonho de Clarissa, ou seja, passamos a ter duas casas, mas viver só em uma.

Quando recebíamos visitas, ela fingia que havia dormido no quarto de hóspedes. Colocava lençol e travesseiro como se ali tivesse passado a noite. Comprei um quadro que representavam duas bailarinas e num certo dia que sua filha lhe chamou a atenção para o fato, ela não sossegou enquanto o quadro fosse colocado na sala.

Essa montanha-russa, esse esconde-esconde, durou alguns anos, mais precisamente SEIS, muitas vivências, muita intensidade e queria que ela assumisse, que pudéssemos ser um casal ao olhar das pessoas. Até que um certo dia, numa viagem conheci uma outra moça e me encantei. Era mais jovem, livre, não tinha questões com a própria sexualidade e resolvi investir.

Clarissa percebeu toda a movimentação e quase enlouqueceu. Resolveu me pedir em casamento, com o CD da Isabella Tavianni – Diga Sim para mim. Recuei, afinal, era tudo o que sempre quis, viver e casar com ela. Mas os desgastes já tinham corroído nossa relação e tivemos apenas uma sobrevida.

Então, meu primeiro casamento foi com minha professora de religião, que sofria pela culpa de estar tirando do caminho a ex-aluna. Mas fico me perguntando o que teria sido de nós sem esse conflito moral, religioso e castrador? Nem sempre o amor vence, às vezes o autopreconceito ganha e é muito triste assistir isso.