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Entre o Arco-íris e a estrela de David: Como viver um judaísmo LGBT sem contradições

Entre o Arco-íris e a estrela de David: Como viver um judaísmo LGBT sem contradições

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Representativo da enorme diversidade existente no mundo moderno, assim há de ser também as religiões na contemporaneidade. Mais do que alimentar estereótipos e conceitos pré-determinados, as religiões devem ser uma forma de conexão entre o presente e o passado; entre tradição e mudança; entre conservar e alterar; entre o sagrado e o profano.

Mais do que as cerimônias e os momentos de culto, os valores que a sua religião te traz (e faço questão de conjugar tal pronome possessivo no singular, com o intuito de mostrar a unicidade e individualidade das diversas formas de ser religioso) devem estar presentes no seu cotidiano e nas suas atitudes. Desde os mais conservadores até os mais liberais, é preciso achar uma forma de viver a sua religião de modo que realmente faça sentido com o que você é e com o que você preza. Caso contrário, a distância existente entre o seu eu metafisico e a religião que você cultua impedirá uma vivência plena e coerente. É partindo desse pressuposto que começo a escrever sobre o meu judaísmo e minha experiência enquanto judeu gay.

Eu cresci na comunidade judaica carioca, inserido nos seus mais diversos meios. Frequentei escola judaica, movimento juvenil judaico e sinagogas. Formei minha identidade entendendo que o judaísmo era parte essencial de quem eu era e também de quem eu viria a ser.

O judaísmo pode ser visto como algo muito além de uma religião. É uma cultura. Um vínculo com seus antepassados. Uma história que te une a outras pessoas. Um povo. Nesse sentido, me formei como judeu. Muito próximo do judaísmo, ao mesmo tempo que um tanto quanto distante de práticas religiosas constantes. Sempre foi muito mais importante para mim lembrar a história do meu povo do que rezar e ler livros sagrados.  E a explicação disso é simples: era o que fazia mais sentido. O que me tocava.

Quando eu me entendi LGBT, tal distanciamento da religião pareceu ainda maior. Eu sabia que existiam fontes judaicas que condenariam vivências homoafetivas. Eu sentia que de alguma forma essas duas identidades, partes essenciais de quem eu sou, se contrapunham. Eu sentia que elas não poderiam viver harmonicamente. Eu sentia que eu teria que escolher. Como bem sabemos, ser LGBT não é uma escolha. Logo, em minha cabeça, o afastamento do judaísmo parecia ser o caminho natural.

Foi nesse momento que eu resolvi fazer conexões com pessoas que viviam o mesmo dilema que eu. Descobri outros jovens judeus que buscavam também de alguma forma construir uma comunidade judaica inclusiva e dispostos a pensar juntos formas de não precisar abdicar de nossa cultura/religião e simultaneamente poder viver livremente a nossa orientação sexual. Nesse momento, descobri por meio de um amigo – ativista LGBT judaico há mais tempo –  a existência de diversas organizações judaicas LGBT pelo mundo, principalmente em Israel e nos EUA, que buscavam justamente criar tais conexões.

Uma delas, chamada קשת (Keshet) – Arco-íris em hebraico – criou, por meio do estudo constante das fontes judaicas, o que eles chamaram de 7 valores judaicos –  um guia para uma comunidade judaica inclusiva. Basicamente, o que tal organização fez foi encontrar nas fontes judaicas a essência real do judaísmo deles.

Trata-se de uma ponderação de princípios. A busca de como viver um judaísmo realmente inclusivo, adaptado a realidade do século XXI, sem abdicar das lições que os textos sagrados e os comentários históricos dos sábios estudiosos de tais textos nos trazem. Passaram a perceber que o amor está enraizado na nossa cultura e que a dignidade humana deve ser colocada acima de qualquer trecho em que os religiosos mais conservadores se agarraram no passado e ainda se agarram, de forma atemporal e acrítica, para defender valores de exclusão.

O primeiro valor é o respeito (Kavod – כָּבוֹד). O judaísmo nos ensina a tratar a nós mesmos e aos outros com respeito, isto é, prezar pelos direitos, dignidade, sentimentos, vontades e capacidades individuais e dos outros. É preciso aprender a respeitar as diferenças das pessoas e entender que atitudes discriminatórias não tem espaço.

O segundo valor é o de “Paz no lar” (Shalom Bayit – שלום בית). Nossos centros comunitários, sinagogas, movimentos juvenis e acampamentos são muitas vezes segundas casas. É preciso que todo mundo se sinta confortável e com segurança dentro de casa. Esforce-se para resolver as divergências de maneira pacífica e respeitosa que permita que todos os membros da comunidade mantenham sua dignidade.

O terceiro valor é o de que o homem foi criado à imagem e semelhança de Deus (B´tzelem Elohim – בצלם אלוהים). A Torah nos conta que todos nós fomos criados à imagem e semelhança de Deus (Gênesis – “Bereshit” – 1:26). Essa simples ideia deveria guiar as nossas interações com as outras pessoas. Se nós enxergarmos cada pessoa como sendo criada à imagem e semelhança de Deus, nós podemos ver humanidade e dignidade em cada um. Uma verdadeira inclusão comunitária e religiosa deve ser pautada pela visualização no outro como um igual, sem, contudo, descaracterizar suas individualidades.

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O quarto valor é o da “Responsabilidade Comunitária” (Kol Israel Arevim Zeh Bazeh – כל ישראל ערבים זה בזה). O princípio judaico de que todo judeu é responsável uns pelos outros, de origem no Talmud (registro das discussões rabínicas sobre a lei, a ética, os costumes e história do judaísmo. É um texto central para o judaísmo, datado a partir dos anos 200 d.C.), significa que cada um de nós tem que agir de forma a inspirar outras pessoas a criar uma comunidade da qual todos possamos nos orgulhar. Cabe a cada um de nós, independentemente de título, poder e riqueza tentar aperfeiçoar esse mundo, perseguindo o nosso ideal de conviver numa sociedade baseada na justiça, na compaixão, na responsabilidade coletiva, como pregam os nossos textos sagrados.

O quinto princípio diz respeito ao cuidado com a palavra (Sh´mirat Halashon – שמירת הלשון). O Talmud nos avisa que devemos ter cuidado a respeito de como usamos a linguagem. A orientação de cuidar com a palavra nos relembra de que o que dizemos sobre os outros pode os afetar de maneiras que nunca podemos prever. Palavras podem machucar ou curar, dependendo de como as usamos.

O sexto postulado diz respeito a “Amar o seu vizinho como a ti mesmo” (VeAhavta L´reiacha Kamocha – ואהבת לרעך כמוך). Contido em Levíticos 19:18, o Rabino Hillel uma vez afirmou que este é o valor fundamental da Torá. Tal mandamento começa com o amor-próprio. Devemos amar e aceitar todo o nosso ser e, ao fazê-lo, criar a capacidade de estender esse amor e aceitação aos outros. É preciso primeiro se empoderar, para depois ajudar os outros também a se empoderarem.

Por fim, o sétimo princípio fala sobre Solidariedade. “Não se separe da comunidade” (Al Tifrosh Min Hatsibur – אל תפרוש מן הציבור). Contido no livro Pirkei Avot – A ética dos pais (2:5), quando você se sentir diferente dos outros em sua comunidade, não se isole. Encontre aliados e apoiadores com quem você possa conversar. Se você conhece alguém que está se sentindo isolado, estenda a mão; seja um aliado e um amigo.

Tais postulados guiam o meu judaísmo. Como diz Boaventura de Souza Santos, “Temos o direito de ser iguais quando a diferença nos inferioriza; mas temos também o direito de ser diferentes quando a igualdade nos descaracteriza”. Para mim o judaísmo é isso. É respeitar as individualidades sem tentar “curá-las”, prezando pelo coletivo e pelo senso comunitário. Hoje, eu finalmente entendo que existe uma forma de obter uma vivência judaica e LGBT simultânea e completa e que nenhum pensamento fundamentalista ou radical me convencerá do contrário.