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Diversidade Sexual e de Gênero e Diversidade Religiosa

Diversidade Sexual e de Gênero e Diversidade Religiosa

Pessoas fora da norma cis-heterossexual possuem, caso queiram, todo o direito de exercerem livremente suas expressões e pertenças religiosas, individualmente ou em instituições religiosas chamadas inclusivas, ou mesmo em instituições religiosas não classificadas como inclusivas, mas que podem – e devem – ser legitimamente questionadas e, se preciso, modificadas para o respeito às pessoas, às religiões, à Democracia, à Constituição, às vidas.

Ninguém, nem nenhuma instituição, deve possuir o monopólio simbólico, teológico, político e denominacional-institucional do religioso e das religiões. As religiões, as teologias e as igrejas não são imutáveis, homogêneas e inquestionáveis. Concordamos com Cristiana de Assis Serra, e também nos perguntamos sobre a verdadeira intenção (…) “de quem defende a tese da homogeneidade da Igreja à base do ‘sempre foi assim e sempre será’: a quem interessa e por que interessa, que tudo permaneça exatamente como está?”. (2019, p.29).

Concordamos que há mais opções do que a do falso dilema produzido pela normatividade cis-hétero monopolista em  que, de acordo com esse falso dilema, caberia à população LGBTQIA+ apenas a escolha entre negar a sua identidade sexual e de gênero e frequentar as religiões, ou não frequentar as religiões e ter eliminado um dos canais da sua experiência religiosa, já que a normatividade cis-hétero monopolista rotula essa população LGBTQIA+ como desviante e diz que querer viver a religiosidade seria uma contradição dessa população. (SERRA, 2019, p.15).

Há muito mais alternativas teológicas, de compreensão, hermenêuticas, do que aquelas que reduzem tudo às limitadas interpretações do Levítico e sua suposta ideia de abominação, da concepção restritiva da narrativa de Sodoma e Gomorra, e da interpretação paulínia e deutero-paulínia que veem as relações fora da norma cis-hétero como contrárias à natureza. A mobilização reducionista – não hermenêutica e enviesada para a exclusão – desses textos bíblicos perde o sentido e tem sofrido mudanças – inclusive na área da hermenêutica bíblica -, conforme poderemos constatar nas falas de muitas estudioses e religioses.

No campo cristão vemos, por exemplo, a teóloga Mary Hunt, para quem as experiências das pessoas LGBTQIA+ precisam ser incorporadas às reflexões teológicas, e que destaca a necessidade de “fazer teologia da nossa particularidade”, isso se a pretensão for que “a comunidade cristã seja íntegra e suas reflexões sobre questões de significado e valor último sejam válidas”. (HUNT, 2005, p. 320). Ademais, como menciona Gregory Rodrigues, pastor de uma igreja inclusiva, “o evangelho é inclusivo e não pode ser tratado como peça exclusiva de um segmento da sociedade”1Para a leitura da matéria completa ver:  https://www.uol.com.br. Acesso em 21/05/2021..

Concordamos com as reflexões do teólogo e professor André Musskopf (2012), porque como ele, consideramos que “a teologia precisa andar por outros lugares – lugares, sem dúvida, mais ‘frescos’”.

Assim, também seguimos o caminho compreensivo do rabino ortodoxo gay Steve Greenberg em que: “as tradições imutáveis não sobrevivem. E todas as religiões antigas têm condições de resolver um problema como esse, porque elas já resolveram outros problemas do tipo no passado. É só ela decidir que é hora de mudar”2 https://oglobo.globo.com. Acesso em 21/05/2021..

Consideramos as palavras de Ludovic-Mohamed Zahed, gay e imã, criador da primeira mesquita inclusiva na França, que não compreende que o discurso homofóbico seja inerente aos princípios islâmicos, mas resultado de leituras patriarcais e misóginas.  Ademais, Zahed (2019) sugere um retorno às fontes de conhecimento islâmico, que, “contribuirá indubitavelmente para culturas de diversidade democrática, secular, laica e libertadora, do coração da chamada civilização árabe-muçulmana”.

O babalorixá Pai Rodnei nos abre a porta com as suas palavras, que dizem que “o candomblé sempre acolheu homens e mulheres homossexuais e essa condição nunca foi empecilho para que se tornassem respeitados como sacerdotes e inscrevessem seu nome na história de luta e resistência da religião. Isso não significa, porém, que tenha sido uma trajetória fácil3 https://www.cartacapital.com.br. Acesso em: 21/05/2021.”. Aqui trazemos uma citação de uma das obras dos pesquisadores Marcelo Natividade e Leandro de Oliveira (2013), que nos fala que “entre o povo de santo prevalece um sistema de representações do corpo que permite diversas expressões da sexualidade. O corpo é menos morada do pecado e mais veículo pelo qual os deuses se expressam”.

Destacamos as palavras do militante do movimento de espíritas pelos direitos humanos, Franklin Félix: “não há, em todos os escritos de Kardec, uma linha sequer contra LGBTQI+. Se o fazem em nome do espiritismo, fazem baseados em suas próprias convicções, suas crenças e suas leituras – enviesadas – de mundo e da sociedade. E na contramão dos ensinamentos de Cristo4https://www.cartacapital.com.br. Acesso em 21/05/2021.”.

Vale pensar nas palavras do pesquisador Émerson Sena da Silveira (2016) que considera que “não há oposição entre os textos sagrados e as orientações sexuais e de gênero, e que há significativa parcela da população LGBT+ religiosa que não deseja romper com a fé de seus pais e com a tradição religiosa, ao contrário, desejam reconciliá-la com outras possibilidades de existir nas sociedades contemporâneas”.

Também destacamos as palavras da primeira mulher trans nomeada reverenda na América Latina, a pastora Alexya Salvador, em que: “Então, o real papel de toda e qualquer igreja deveria ser o mesmo papel que Jesus tentou mostrar no evangelho que é de justiça social, promoção de dignidade humana; de uma escolha radical pelos menos favorecidos, pela mulher, pelos doentes, pelos imigrantes5Para a leitura da entrevista completa com Alexya Salvador:https://gazetadocerrado.com.br. Acesso em 21/05/2021.”.

Há teologias diversas, igrejas diversas, grupos diversos, experiências religiosas diversas, dinâmicas diversas, religiões diversas, legitimidade absoluta na compreensão diversificada dos símbolos, diversos modos dignamente possíveis de relação entre as religiões e adeptes e a população LGBTQIA+, embora a normatividade cis-hétero monopolista insista que não.

Há, como dissemos, teologias diversas como as Teologias gay, Teologias Queer, Teologia Indecente, Teologia Negra etc. Também há Igrejas Inclusivas diversas e heterogêneas que em sua maioria não aderem, ou não aceitam, o rótulo de igrejas gays, porque esse rótulo além de reducionista, como todo rótulo, não necessariamente faz jus à proposta das igrejas, e geralmente é utilizado em tom pejorativo, depreciativo, por agressores das igrejas inclusivas, que não respeitam a existência dessas igrejas.

Há redes e grupos diversos – que não necessariamente se identificam com as igrejas, porque optam por terem maior autonomia – de religiões e igrejas diversas – que podem surgir no interior das igrejas ou religiões – e possuem atividades diversas, como de estudos, de “vivência espiritual”, de reivindicação de direitos, de agregação de pessoas que não se sentem efetivamente inseridas nas igrejas. (MUSSKOPF, 2012).

Mas, indignamente, há, e é inadmissível que haja, coerções e sanções institucionais existentes nas igrejas que restringem a população LGBTQIA+, que enquadram a homossexualidade e a transexualidade como pecados ou como doenças, que são algumas das formas de inferiorização e violência, amplamente conhecidas, que mostram que as instituições religiosas podem utilizar imposições morais discriminatórias e capciosas nas relações que estabelecem nos ambientes religiosos. (NATIVIDADE; OLIVEIRA, 2013, p. 177). Há muitas estratégias de supressão das diferenças, como os depoimentos de supostas curas da homossexualidade, ou certo silêncio sobre o tema, que são algumas outras formas de discriminação e violência, que possuem o seu lado ainda mais grave quando há a associação da homossexualidade à AIDS, por exemplo, explicando a doença como sendo resultante de uma atividade e vida pecaminosas.

“Acolher no truque6“Expressão” inspirada na fala de uma pessoa entrevistada, conforme aparece no livro As novas guerras sexuais, que ao falar que era gay, para um pastor, percebeu que a dita “aceitação” da igreja mencionada pelo pastor, era um “engodo”. Para mais informações sobre a entrevista, e para um “ponto de vista analítico” ver: NATIVIDADE; OLIVEIRA, 2013.” – Além das discriminações explícitas realizadas por um número significativo de igrejas, há ainda as maneiras sutis, indiretas, subjacentes de transfobia, homofobia e inferiorização, que se dão, inclusive, em práticas de “acolhimento pastoral” implícita e veladamente homofóbicas e transfóbicas. Entre as práticas pastorais veladamente homofóbicas, há aquelas dos “acolhimentos” que são orientados por concepções que dizem que não se devem excluir os homossexuais, mas, resgatá-los para tirá-los do pecado. Nesse caso, no fundo, essas religiões ao estabelecerem a homossexualidade como pecado, estão dizendo que ela é algo ruim, antinatural, que deve ser eliminado. Sendo assim, a concepção acima é uma das faces da ideia um tanto quanto capciosa de que deus “ama o pecador, mas abomina o pecado”. (NATIVIDADE; OLIVEIRA, 2013).

Inclusive, há influência religiosa e das igrejas na obstrução de Direitos. Todas essas exortações morais, atreladas às restritivas e inferiorizantes concepções, e às ações discriminatórias e violentas, servem ainda como entraves para a obstrução de Direitos Civis da população LGBTQIA+, inclusive no Congresso brasileiro, como ações que atentam, também, contra a laicidade do Estado.

No mês do Orgulho LGBTQIA+ esse conjunto ritual – uma vez que ele é constituído por diferentes atividades, com diferentes dinâmicas – e os demais conjuntos rituais, grupos e movimentos, também construirão processos de “combate” contra aqueles e aquelas religiões e religiosos reacionários que obstruem a efetivação dos direitos das pessoas LGBTQIA+, inclusive atentam contra as vidas das pessoas LGBTQIA+, suas dignidades, liberdade religiosa e liberdade de não terem religiões. Rituais que, além de ações de questionamentos, são atividades de produção de conhecimento, são atividades educacionais e educativas. Rituais que também servem para lembrar à sociedade brasileira, como nas palavras de Alexya Salvador, que “O Brasil é o país que mais mata travestis, homens e mulheres trans no mundo. Ser ordenada clériga é a confirmação de que pessoas iguais a mim podem estar em todos os espaços da sociedade e da religião”7Para a entrevista completa ver: https://www.cartacapital.com.br . Acesso em 21/05/2021.[7].


Referências

 leia também

HUNT, Mary. Teologia feminista lésbica católica. In: JUNG, Patrícia Beattie; CORAY, Joseph A. (Orgs.). Diversidade sexual e catolicismo: para o desenvolvimento da teologia moral. SP: Loyola, 2005.

JURKEWICZ, Regina S. (Org). Teologias fora do armário. Realização: Católicas pelo Direito de Decidir. Jundiaí. SP: Max Editora, 2019.

MUSSKOPF, André. Via(da)gens teológicas: itinerários para uma teologia queer no Brasil. SP: Fonte Editorial, 2012.

NATIVIDADE, Marcelo; OLIVEIRA, de Leandro. As novas guerras sexuais: diferença, poder religioso e identidades LGBT no Brasil. RJ: Garamond, 2013.

SERRA, Cristiana de Assis. O coração, a santa e a dádiva: contribuições teológicas de corpos fora-da-lei. In: JURKEWICZ, Regina S. (Org). Teologias fora do armário. Jundiaí. SP: Max Editora, 2019.

SILVEIRA, Emerson Sena da. Hermenêutica e Monoteísmos: Tradição, Releituras de Gênero e Gays. In: Diversidade e o campo da educação: (re) leituras e abordagens contemporâneas. SARDINHA, Antônio Carlos; TENÓRIO, Adriana. REIS, Marcos V. de Freitas. (Orgs). Macapá: UNIFAP, 2016

ZAHED, Ludovic Mohamed. Homossexualidade e Identidade Trans no Islã. In: Momento: diálogos em educação, v. 28, n. 1, p. 245-261, jan./abr., 2019.


Notas