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Denunciando o que não é legal e assassina sorrisos: Por uma Psicologia da Diversidade Sexual

Denunciando o que não é legal e assassina sorrisos: Por uma Psicologia da Diversidade Sexual

Naquela sexta-feira, o estagiário da Clínica Escola de Psicologia que, aqui, chamarei de Pedro, chegou cabisbaixo e com ar apreensivo para o encontro de supervisão clínica que eu conduzia, em uma reconhecida instituição de ensino da cidade de Belo Horizonte. Uma vez que o sorriso expressivo e o ânimo sempre disposto pareciam ter ficado em um lugar distante da sala destinada às reuniões do pequeno grupo de estágio, perguntei ao jovem rapaz, matriculado no 9º período da graduação em Psicologia, se poderíamos conversar após o término da atividade. “Ainda bem que você me chamou pra falar”, começou… Pedro vivia “um dilema, um problema ético”, relacionado ao seu próprio caso clínico, conforme pôs-se a contar. Interessado nas explicações psicológicas sobre a origem da homossexualidade, meu estagiário buscava, sem orientação ou mentoria de alguma professora ou professor, ensaios, artigos e livros que tematizavam as causas da atração sexual por pessoas do mesmo sexo. Por meio de tais investigações solitárias, chegou aos relatos pseudocientíficos de reversões de orientação sexual por meio de técnicas dialogais, sugestivas e até mesmo cirúrgicas. Antes que eu pudesse perguntar o motivo pelo qual realizara tais leituras de um jeito tão sistematizado e sem companhia, Pedro disse-me que os pais, extremamente religiosos, sabiam fingindo não saber de sua orientação sexual e, por vezes, afirmavam que o investimento em sua formação profissional poderia resultar em auxílio “para a regeneração e a transformação” de pessoas “infelizes”, “perdidas” ou “aprisionadas” nas “práticas homossexuais”. Por que o jovem ficou angustiado com os encontros de supervisão? Eu, psicólogo e psicanalista, declaradamente homossexual, casado com um homem, a partir de uma experiência de atendimento discutida  com o pequeno grupo de supervisandos, apresentei a Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia: “fessô, é muito difícil falar isso, mas na semana passada, minha ilusão caiu! Discutindo o caso que a Natalia atende, eu vi o tanto que vou precisar trabalhar comigo mesmo! E, além disso, o que o meu pai e a minha mãe esperam que eu faça, quando eu formar não é legal…”. Então…

Tentaram e ainda tentam fazer com que seja legal aplicar uma série de repreensões, de críticas degradantes e pequenas ou grandes punições às pessoas que, como Pedro, como eu e, aproximadamente, 10% da população belorizontina, não são heterossexuais. Uma rápida pesquisa nos mecanismos de busca da internet revelará embates jurídicos tensos envolvendo representantes de uma denominada Psicologia Cristã e o Conselho Federal de Psicologia, no que concerne às práticas de reorientação sexual e tentativas de modificação do desejo. Desconsiderando o contexto histórico e cultural em que vivemos, aqueles que brigam nos tribunais pela liberação das chamadas terapias de conversão constroem argumentos com o objetivo de esconder o dado clínico que a experiência nos entregou: o sofrimento psicológico vivenciado por aqueles que não são heterossexuais fundamenta-se na reprovação social, na exclusão e na violência LGBTfóbica das quais são vítimas. O desejo homoerótico ou bissexual passa a ser um tormento para quem com ele vive porque as instituições, os estabelecimentos e os discursos sociais não o reconhece como uma manifestação autêntica da experiência humana.

Inseridos em uma sociedade que hipervaloriza a heterossexualidade e produz agressões verbais e físicas às pessoas que manifestam amor e tesão para com quem é do mesmo sexo, cotidianamente nós somos convidados a olhar para nós mesmos com desprezo e com vergonha. Por isso, não nos soa como novidade a informação de que alguns de nós chegam aos consultórios médicos e psicológicos solicitando livrarem-se disto que nos bairros, nas escolas e nas empresas suscita olhares endurecidos e ofensas, é utilizado como justificativa injustificável para espancamentos com lâmpadas, com pedras, e para expulsões de casa. Infelizmente, também não nos é novidade que profissionais formados para cultivarem a dignidade humana e auxiliarem pessoas de diferentes idades, constituições físicas e realidades econômicas a apropriarem-se do próprio desejo e se fortalecerem para enfrentar as opressões do mundo, dedicam-se à aplicação de técnicas de tortura psicológica com fins de modificação da orientação sexual de homens e de mulheres.

Tomando o caso do meu estagiário Pedro, as discussões no judiciário sobre a Resolução 001/99 do Conselho Federal de Psicologia e a minha experiência profissional com adolescentes, jovens e adultos que não se reconhecem na heterossexualidade, apresentei, então, uma proposta extensionista à instituição de ensino na qual atuo como coordenador do curso de Psicologia, a UNIVERITAS Belo Horizonte: o Projeto de Extensão Tibira – Psicologia e Diversidade Sexual. Todos os sábados deste semestre letivo, 2021.1, eu e 30 extensionistas, por meio de uma plataforma virtual, nos reunimos em encontros temáticos relacionados à homossexualidade, à bissexualidade e às outras configurações do desejo sexual com convidadas e convidados que pesquisam a LGBTfobia e os seus efeitos. Subdivididos em seis Grupos Temáticos (Saúde, Educação, Lazer, Assistência Social, Trabalho e Renda, Espiritualidade e Transcendência), as/os extensionistas do Tibira debruçam-se sobre a história do movimento LGBT+, conversam sobre a garantia de direitos da população LGBT+ e fomentam um perfil no Instagram colorido, instigante e muito colaborativo. É perceptível a elucidação do foco de intervenção e do alvo de discussão dos psicólogos, das psicólogas e das futuras profissionais: a origem da LGBTfobia no lugar da origem da homossexualidade, a conversão de culturas organizacionais LGBTfóbicas em culturas inclusivas, a cura de comunidades opressoras a fim de que saúde psicológica seja encontrada em pessoas que não atendem os padrões heterocisnormativos. Vencida essa primeira etapa do Projeto de Extensão, seguiremos, no próximo semestre, para imersões em uma cidade da Região Metropolitana de Belo Horizonte a fim de conhecer a realidade vivenciada pelas pessoas que não são heterossexuais deste município, bem como o quanto a pauta da diversidade sexual está (ou não) presente no cotidiano dos diferentes serviços e políticas públicas desta localidade. Por fim, no primeiro semestre de 2022.1, fundamentados nas informações e nos dados obtidos por meio da imersão municipal, realizaremos, então, intervenções psicossociais junto às trabalhadoras e aos trabalhadores dos serviços públicos desta cidade, pautando a LGBTfobia e as suas consequências. Por que esse movimento, esse investimento, professor? Porque tem muita gente decidida em nos fazer chorar. Porque não são poucos os que insistem em tratar como doença o que não é. Porque é possível viver. Porque Pedro pode voltar a sorrir.

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E voltou.